Especialistas da Zup, empresa de tecnologia do Itaú, revelam estratégia chinesa de 'data to value' e robótica humanóide que já preocupa os EUA.

A China está rapidamente se posicionando como uma potência global em Inteligência Artificial, impulsionada por uma combinação de modelos de IA mais acessíveis e uma coleta massiva de dados. Essa ascensão foi observada por um grupo de executivas e pesquisadoras da Zup, a empresa de tecnologia do Itaú Unibanco, durante uma visita a Xangai para a 9ª edição do WAIC, um dos maiores eventos de IA do mundo.

A delegação, que incluiu Ana Paula Camargo, diretora de Tecnologia e Inovação da Zup, e Nicole Davila, engenheira de software sênior e pesquisadora, notou uma estratégia nacional robusta. A abordagem chinesa foca na distribuição de modelos de IA eficientes, que entregam desempenho comparável aos ocidentais por uma fração do custo.

Além disso, o país asiático se destaca na transformação de dados em valor de negócio, com um ecossistema tecnológico que vai desde a mobilidade urbana até robôs humanoides. Essa visão integrada, aliada a um forte investimento em pesquisa e desenvolvimento, sugere um futuro onde a China desempenhará um papel central na definição dos padrões globais de IA.

Modelos de IA Chineses: Performance e Acessibilidade

A China tem investido pesadamente na distribuição de seus modelos de Inteligência Artificial, como o Kimi K3, da Moonshot AI, o GLM 5.2, da Z.ai, e o Qwen, do Alibaba. Essas ferramentas apresentam um desempenho de alto nível, equiparando-se aos modelos desenvolvidos no Ocidente, mas com um custo drasticamente reduzido. Segundo Ana Paula Camargo, diretora de Tecnologia e Inovação da Zup, em conversa com o Finsiders Brasil, os modelos chineses "são tão bons quanto os modelos ocidentais, mas custam um oitavo do valor".

Parte dessa vantagem econômica não se deve apenas a subsídios estatais, mas também a arquiteturas mais eficientes. Muitos desses modelos são "open weight", ou seja, de peso aberto, permitindo que empresas baixem e rodem as ferramentas localmente. Isso concede maior autonomia aos usuários e faz parte de uma estratégia maior para dominar os padrões globais de IA. A flexibilidade e o custo-benefício são tão atraentes que, estima-se, pelo menos 80% das startups nos Estados Unidos já utilizam modelos de IA chineses, uma realidade que gera preocupação no mercado norte-americano.

A Estratégia "Data to Value" e a Escala de Dados na China

O uso de dados na China segue uma lógica de "data to value", onde as informações são coletadas já com uma aplicação de negócio em mente, sem passar por processos de limpeza genéricos. Ana Paula Camargo explica: "Não é 'idea to value', é 'data to value': tem um insight aqui; vou criar uma nova feature ou uma nova geração de receita". Essa abordagem é altamente eficiente e visa a dominação de toda a cadeia produtiva, garantindo que cada dado gerado contribua diretamente para um valor ou uma inovação.

Com uma população de cerca de 1,4 bilhão de habitantes, a captura de dados no país é um fenômeno em escala gigantesca. Carros autônomos chineses, por exemplo, podem gerar até 4 terabytes de dados por dia, enquanto bicicletas e motos elétricas chegam a 20 terabytes diários. O país conta com impressionantes 700 milhões de câmeras urbanas em operação, uma média de duas por habitante. Aplicativos como o AMap, principal mapa do país, oferecem funcionalidades avançadas, como a contagem regressiva para o semáforo abrir e opções de rota baseadas na temperatura, ilustrando como os dados são aplicados para melhorar a vida cotidiana.

Biometria e Segurança: Inovação e Desafios

A China está à frente em soluções de biometria e pagamentos digitais, com uma infraestrutura robusta que dispensa até mesmo o uso de celulares em certas transações. Nicole Davila, da Zup, relatou que os moradores locais conseguem pagar com a palma da mão ou com o rosto em máquinas de autoatendimento. "Biometria é muito fácil. Você não precisa estar com o seu celular, você pode comprar uma água só apresentando o seu rosto", exemplificou.

Contudo, o sistema antifraude chinês é "muito forte". A própria Nicole vivenciou a rigorosidade ao tentar comprar ingressos para o evento WAIC. Seu pagamento foi sinalizado como fraude por falta de histórico na plataforma, exigindo o envio de documentos e fotos em várias etapas de verificação. O episódio demonstra não só a importância dos dados para a segurança, mas a velocidade e a escala com que o sistema consegue processá-los para proteger os usuários.

Robôs Humanoides: A Estratégia Nacional Chinesa para a IA

Um dos pontos mais impactantes observados pela equipe da Zup foi o avanço exponencial dos robôs humanoides. Ana Paula Camargo destacou a mudança na escala da WAIC, onde "Do ano passado para esse ano foi impressionante o tamanho do stand de robôs humanoides e robôs de maneira geral", ocupando um andar inteiro da feira em 2026. Essa expansão reflete uma clara "estratégia nacional chinesa" de desenvolver robôs humanoides que colaborem com humanos.

A premissa é a autonomia, com robôs que "precisam aprender fazendo". Para isso, a China estabeleceu "robot training centers" em todo o país, que geram 8 milhões de amostras de dados por ano. Esses dados abrangem movimento de teleoperação, visão computacional espacial, informações táteis e dados de falhas, essenciais para o aprendizado e aprimoramento contínuo dos robôs. Um vasto ecossistema de empresas e startups já se dedica à captura e orquestração desses dados, consolidando a China como líder nesta fronteira tecnológica.

Perguntas Frequentes

O que torna os modelos de IA chineses tão competitivos no mercado global?

Os modelos de IA chineses, como o Kimi K3, GLM 5.2 e Qwen, são altamente competitivos por oferecerem desempenho comparável aos ocidentais a um custo até oito vezes menor. Essa vantagem se deve a arquiteturas mais eficientes e à sua natureza "open weight