Campanha Setembro Amarelo ressalta o poder da escuta ativa, à medida que brasileiros buscam no telefone 188 um espaço seguro para desabafar.

O número 188 se tornou um ponto de apoio essencial para milhares de pessoas no Distrito Federal que buscam alívio para tristezas profundas, conflitos ou medos que não conseguem compartilhar. Anualmente, o Centro de Valorização da Vida (CVV) no DF recebe cerca de 48 mil pedidos de socorro, destacando a urgência por espaços de escuta.

Entre junho de 2025 e julho de 2026, foram registradas 48.550 ligações para o CVV no Distrito Federal, o que representa uma média de 133 chamadas diárias. Esses dados posicionam a capital federal como a terceira unidade da Federação com maior número de chamadas por 100 mil habitantes, ficando atrás apenas da Paraíba e de Rondônia.

A busca por um ouvido atento reflete o tema da campanha Setembro Amarelo deste ano, “Escutar é estar presente”. Mais do que a prevenção ao suicídio, o serviço oferece uma válvula de escape para quem simplesmente precisa falar e ser ouvido de forma genuína, sem julgamentos.

O DF na vanguarda da escuta humanizada

Os números mostram a intensidade da demanda por apoio emocional no Distrito Federal. Com 1.609 ligações a cada 100 mil habitantes, o DF supera a média nacional e se posiciona como um dos estados com maior procura pelo serviço do CVV.

A Paraíba lidera o ranking com 1.671 chamadas por 100 mil habitantes, seguida por Rondônia com 1.620. Essa análise permite comparar a intensidade de uso do serviço entre os estados, ajustando pelas diferenças populacionais e revelando uma necessidade latente na população do DF por acolhimento e diálogo.

O valor do desabafo além da ideação suicida

Para Leila Herédia, de 51 anos, voluntária do CVV há 16 anos, a associação das chamadas do 188 unicamente à ideação suicida é um equívoco. Muitos procuram o serviço sem conseguir sequer definir o que sentem ou o que gostariam de dizer.

“A gente vive numa sociedade tão barulhenta, mas é muito difícil se sentir verdadeiramente ouvido por um ser humano. E é por isso que tanta gente recorre ao ChatGPT”, afirma Leila. Ela ressalta que quem busca o CVV, muitas vezes já está cansado de interagir com máquinas e anseia por uma troca humana, repleta de empatia e atenção genuínas. O ato de falar, segundo Leila, também ajuda a organizar os pensamentos: “Quando a gente fala, a gente também se ouve. Aquilo vai fazendo sentido dentro da gente.”

Preparo e sigilo: a essência do atendimento CVV

Para garantir a eficácia e a confidencialidade do atendimento, os voluntários do CVV seguem um protocolo rigoroso. Adriana Gouveia, de 49 anos e oito anos de experiência no CVV, explica que a orientação é ouvir sem julgar, questionar ou aconselhar. “A gente só sabe aquilo que a pessoa quer falar. Às vezes, a ligação acaba sem a gente saber nem o nome ou o gênero da pessoa.”

Em casos onde a pessoa realmente pede socorro, o voluntário pode orientar sobre números de emergência, como Samu, Corpo de Bombeiros, Polícia Militar, 180 (violência contra a mulher) ou 100 (abuso infantil). Adriana pondera que a cobertura de serviços como CAPS varia regionalmente, o que exige cautela. Cerca de 3,2 mil voluntários atuam na rede nacional do CVV, muitos deles trabalhando de casa para preservar o sigilo das conversas.

Todo voluntário passa por um processo seletivo e por um treinamento intensivo, focado em escuta ativa, acolhimento e ausência de julgamento. É preciso ter mais de 18 anos, vontade de ajudar e disponibilidade de pelo menos quatro horas semanais. O apoio entre os próprios voluntários é fundamental para lidar com conversas emocionalmente desafiadoras. “Nós somos seres humanos. Nós sentimos também. Mas sabemos que temos outros colegas que podem estender a mão para a gente”, conclui Adriana.

Transforme vidas: como se tornar um voluntário do CVV

Se você se sente motivado a oferecer escuta e acolhimento, pode se juntar à rede de voluntários do CVV. O processo é estruturado em algumas etapas claras, garantindo que os futuros atendentes estejam bem preparados para a função.

Para começar, basta acessar a página oficial do CVV dedicada ao voluntariado e preencher o cadastro inicial. Após essa fase, os candidatos participam de um processo seletivo para avaliar a compatibilidade com a atividade, que inclui a capacidade de ouvir e acolher o próximo. Os selecionados recebem uma capacitação gratuita, com conteúdos teóricos e simulações práticas de atendimento. Após a formação, o novo voluntário está apto a iniciar os atendimentos, seja presencialmente na unidade do Edifício Radio Center, na Asa Norte, ou de forma remota, contribuindo para a saúde mental de milhares de brasileiros.

Perguntas Frequentes

O que é o CVV 188?

O CVV 188 é o telefone de apoio emocional do Centro de Valorização da Vida, que oferece escuta e acolhimento gratuitos e sigilosos a pessoas que precisam desabafar sobre sentimentos e dificuldades, disponíveis 24 horas por dia em todo o Brasil.

Quais tipos de situações podem ser discutidas no CVV?

No CVV, é possível conversar sobre uma vasta gama de sentimentos e situações, incluindo tristezas, medos, conflitos pessoais, solidão, e momentos difíceis, não se limitando apenas a situações de ideação suicida. O objetivo é oferecer um espaço seguro para a pessoa se expressar.

Como faço para me tornar um voluntário do CVV?

Para se tornar um voluntário do CVV, é preciso ter mais de 18 anos e vontade de ajudar. O processo inclui acessar o site oficial do CVV, preencher um cadastro, participar de uma seleção e passar por um treinamento gratuito de escuta ativa e acolhimento, com disponibilidade mínima de quatro horas semanais para atuação.

Qual é o papel do voluntário do CVV durante uma ligação?

O papel do voluntário do CVV é oferecer uma escuta atenta, acolhedora e sem julgamentos, seguindo um protocolo de confidencialidade rigoroso. Ele não faz perguntas ou aconselhamentos, mas sim proporciona um espaço para que a pessoa possa se expressar e, se desejar, organizar seus próprios pensamentos e sentimentos.