Bancos projetam valorização do câmbio nos próximos anos
O dólar tem se mantido relativamente estável, registrando uma queda de 6% no ano e cotado a R$ 5,19. Contudo, o cenário para os próximos meses e anos aponta para uma trajetória mais volátil, com uma forte tendência de alta.
Grandes instituições financeiras como Itaú BBA, BTG Pactual e Santander projetam que a moeda americana pode chegar entre R$ 5,30 e R$ 5,40 até o final do ano. A longo prazo, a expectativa é ainda maior: o dólar poderia atingir R$ 5,50 até o final de 2027, o que representa um potencial de valorização de 6% em relação ao real.
Para investidores, essa perspectiva abre uma janela para diversificar os ativos em moeda forte, caso as projeções se confirmem. É um sinal de que o momento atual pode ser oportuno para quem pensa em comprar dólares.
Saída de dólares do Brasil acelera
A valorização do dólar geralmente ocorre quando a moeda americana se torna mais escassa no mercado interno. Isso acontece quando investidores aumentam a compra de dólares no Brasil para aplicar recursos no exterior.
Esse fluxo de saída de capital tem se intensificado desde o início do mês. Para mitigar uma alta acentuada, o Banco Central realizou uma operação casada em uma quinta-feira (27), vendendo US$ 1 bilhão da moeda americana no mercado à vista e comprando contratos de dólar no mercado futuro. A medida visa aprimorar a liquidez, ou seja, suprir o mercado com dólares quando a oferta começa a diminuir.
Em agosto, até o dia 21, cerca de US$ 7 bilhões já haviam deixado o Brasil, resultando em saídas líquidas de US$ 2 bilhões (descontando as entradas). Historicamente, esse movimento de remessa de recursos para fora do país se intensifica conforme as eleições se aproximam, além de ser um período em que muitos investidores locais buscam diversificação internacional, exercendo pressão adicional sobre as cotações.
Intervenções nos EUA podem gerar mais volatilidade
A dinâmica do dólar não é influenciada apenas por fatores internos. Nos Estados Unidos, o Tesouro americano, sob a liderança de Scott Bessent, equivalente ao Ministro da Fazenda, anunciou que irá dobrar o volume de recompras de títulos de longo prazo para US$ 4 bilhões a partir de setembro. Embora a justificativa oficial seja prover liquidez, o efeito prático tende a ser uma contenção das taxas de juros desses papéis.
Com menos títulos circulando no mercado, o preço deles sobe, e na renda fixa, a taxa de juros paga cai. Essa redução na rentabilidade pode estimular a busca por investimentos de maior risco e retorno, como os ativos de mercados emergentes. Tal movimento faria mais dólares entrarem em países como o Brasil, pressionando a cotação da moeda americana para baixo.
No entanto, o economista-chefe do CME Group, Erik Norland, em entrevista, minimizou o impacto potencial dessas operações. Para Norland, a escala da operação é modesta diante do mercado de renda fixa pública dos EUA, que possui uma dívida negociável de US$ 31,434 trilhões, sendo aproximadamente US$ 5,476 trilhões em títulos de longo prazo. Ele prevê que as recompras causarão mais volatilidade do que um enfraquecimento sólido do dólar, apesar de o índice DXY, que compara o dólar a uma cesta de moedas, ter atingido o menor nível em três meses no final de agosto.
Federal Reserve sinaliza possível alta de juros
Outro fator importante vem do banco central dos EUA, o Federal Reserve (Fed). Durante o simpósio de Jackson Hole, em uma sexta-feira (28), o novo presidente, Kevin Warsh, deu um peso maior ao combate à inflação em seu discurso, em detrimento do mandato de sustentar o emprego. Essa sinalização sugere a possibilidade de uma nova alta de juros nos EUA, o que tende a fortalecer o dólar globalmente.
O mercado reagiu rapidamente: os rendimentos dos títulos do Tesouro americano avançaram, o dólar ganhou força e aumentaram as apostas em um possível aumento das taxas de juros na reunião de setembro do Fed.
Para além deste ano, o cenário de fundo aponta para uma leve tendência de valorização do dólar. O economista da Nomad, Vitor Kayo, observa que “O ano de 2027 também vai ser de turbulência”, e a perspectiva é de um câmbio mais alto. A Nomad projeta que os juros de curto prazo nos EUA encerrem 2027 em 4,25% ao ano, 0,5 ponto percentual acima dos atuais 3,75%.
Descompasso entre as políticas monetárias brasileira e americana
Enquanto os EUA sinalizam para juros mais altos, o Banco Central do Brasil segue o caminho inverso. O Copom reduziu a Selic para 14% ao ano na reunião de agosto, marcando o quarto corte consecutivo. As projeções do Boletim Focus indicam que a taxa básica de juros no Brasil pode chegar a 12% ao ano até o fim de 2027.
Esse descompasso entre as políticas monetárias – juros subindo nos EUA e caindo no Brasil – exerce uma pressão de alta sobre o dólar. Isso porque, quanto menor a diferença entre os juros oferecidos no Brasil e nos EUA, menor o incentivo para investidores estrangeiros manterem seus capitais aqui, resultando em uma maior saída de dólares do país.
Em resumo, o “cabo de guerra” no mercado de câmbio parece pender para a compra de dólar neste momento, considerando as diversas pressões para a valorização da moeda americana.
Perguntas Frequentes
Qual a previsão do dólar para o final de 2024 e 2027?
Analistas de bancos como Itaú BBA, BTG Pactual e Santander projetam o dólar entre R$ 5,30 e R$ 5,40 até o final de 2024. Para o final de 2027, a expectativa é que a moeda americana possa alcançar R$ 5,50, representando uma valorização de 6%.
Por que o Banco Central interveio no mercado de dólar?
O Banco Central realizou uma operação casada, vendendo US$ 1 bilhão no mercado à vista e comprando contratos futuros, para melhorar a liquidez e suprir o mercado de dólares. A medida visa evitar uma alta forte da moeda americana diante da aceleração na saída de recursos do país.
Como a política monetária dos EUA afeta o dólar no Brasil?
As decisões do Federal Reserve, como a possível alta de juros sinalizada por Kevin Warsh, tendem a fortalecer o dólar globalmente. Se os juros sobem nos EUA enquanto caem no Brasil, a diferença de rendimento diminui, incentivando a saída de dólares do Brasil e, consequentemente, pressionando a cotação para cima.
O que são as recompras de títulos do Tesouro americano?
As recompras de títulos de longo prazo pelo Tesouro dos EUA são uma medida que dobra o volume para US$ 4 bilhões, com o objetivo oficial de prover liquidez ao mercado. Na prática, isso tende a conter as taxas de juros dos papéis, tornando-os menos rentáveis e podendo direcionar investimentos para ativos de maior risco, como os de mercados emergentes.
É um bom momento para comprar dólar?
Considerando as projeções de valorização da moeda americana por bancos e a análise de diversos fatores macroeconômicos, o cenário atual é indicado como um momento oportuno para quem busca diversificar investimentos e adquirir dólares, segundo os especialistas. A expectativa é de que o câmbio fique mais alto nos próximos anos.
