Pesquisa da Rede Escola Pública e Universidade aponta dados consistentes com fraude sistêmica na avaliação do governo de SP.
Uma pesquisa recente, conduzida pela Rede Escola Pública e Universidade (Repu) a partir de dados da Secretaria da Educação de São Paulo (Seduc), levanta sérias dúvidas sobre a integridade do Provão Paulista. O estudo aponta para desempenhos estudantis "extremamente improváveis", concentrados em um grupo específico de escolas estaduais.
A análise sugere que esses resultados anômalos podem ter distorcido a seleção de alunos para universidades públicas renomadas, como USP, Unesp e Unicamp. A Repu conclui que a aplicação da avaliação em suas três primeiras edições não foi homogênea, indicando "fraude sistêmica", alegação veementemente contestada pela Seduc.
Criado em 2023 pela gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), o Provão Paulista é um exame seriado crucial. Ele oferece vagas em diversas instituições de ensino superior do estado, incluindo Fatecs e Univesp, e serve como métrica para o governo avaliar a eficácia das escolas.
Saltos de Desempenho Questionáveis no Provão Paulista
Os pesquisadores da Repu examinaram os microdados das edições de 2023, 2024 e 2025 da prova, cedidos pela própria Seduc. O levantamento revelou que pelo menos 4.305 estudantes do 3º ano do ensino médio registraram saltos de desempenho considerados "extraordinariamente elevados e improváveis".
Essas melhorias representam um aumento de aproximadamente 20 pontos de um ano para o outro, excedendo pelo menos três desvios-padrão. Para contextualizar, em escolas técnicas (Etecs), apenas 0,17% dos alunos tiveram resultados atípicos em 2025, uma proporção considerada compatível com a normalidade estatística.
No entanto, entre os estudantes do 3º ano da rede estadual, a proporção de resultados atípicos saltou de 0,49% em 2024 para 1,91% em 2025. Essa discrepância levanta o questionamento central do estudo sobre a uniformidade e a lisura do processo avaliativo.
Concentração de Resultados Suspeitos em Escolas
A pesquisa aponta que metade dos desempenhos atípicos para o 3º ano do ensino médio, identificados na edição de 2025, estava concentrada em apenas 50 escolas estaduais. Esse número representa 1,4% do total de unidades que participaram do Provão Paulista e oito das 91 Unidades Regionais de Ensino (UREs).
Em 44 dessas escolas, mais de 40% dos alunos apresentaram desempenhos fora do padrão, chegando a surpreendentes mais de 90% em algumas unidades. Fernando Cássio, professor da Universidade de São Paulo (USP) e um dos responsáveis pelo estudo, comentou a situação: "O problema ocorre quando, coincidentemente, milhares de resultados excepcionais aparecem concentrados nas mesmas escolas e nas mesmas regiões. Nesse caso, só um milagre poderia explicar o fenômeno".
Leonardo Crochik, professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e coautor, reforça que a concentração dos resultados atípicos em certas escolas e regiões, mas em várias partes do estado, sugere algo maior. "É isso o que permite concluir que a fraude, embora não generalizada nas escolas da rede estadual, é certamente sistêmica e incompatível com a hipótese de irregularidades pontuais defendida pelo governo de São Paulo\
