Preocupação com fuga de dados no Open Finance gera apelo ao Banco Central
O Banco Central (BC) e representantes de instituições financeiras estão em alerta máximo sobre o compartilhamento de dados no ambiente do Open Finance. A principal preocupação é com a disseminação dessas informações para além dos limites regulados, levantando a possibilidade de fraudes e a perda de controle sobre os dados dos usuários.
Em um evento de destaque do setor, o Febraban Tech 2026, Leandro Vilain, CEO da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), fez um apelo direto ao regulador. Ele pediu o “fechamento dessa porta” para conter o que chamou de “fuga de dados”, alertando para riscos que persistem há cerca de um ano.
As discussões sobre o tema se estendem desde meados do ano passado, e o BC já sinalizou que pretende publicar novas regras nos próximos meses. A iniciativa visa reforçar a segurança e a governança de um dos maiores avanços do sistema financeiro brasileiro.
ABBC alerta para a falta de controle sobre dados no Open Finance
Leandro Vilain não poupou críticas à demora na resolução do problema, descrevendo a situação como “bizarra” durante sua participação no Febraban Tech 2026. Segundo o CEO da ABBC, é inaceitável que o debate sobre algo tão óbvio perdure por tanto tempo, permitindo que modelos de parceria sem controle prosperem.
“Ainda que o cliente tenha dado consentimento, muitas vezes ele não tem controle para onde foi parar seu dado, sua informação”, declarou Vilain, enfatizando a vulnerabilidade dos usuários. Ele afirmou ter dificuldades em compreender por que esse modelo de compartilhamento ainda está em funcionamento, apesar dos pareceres jurídicos que embasam sua posição.
Banco Central planeja novas regras para Open Finance
A movimentação do Banco Central para regulamentar as parcerias no Open Finance surge em resposta ao aumento de modelos de negócio que utilizam dados do ecossistema financeiro aberto fora do setor bancário, como em empresas da economia real. Essa expansão levanta questões complexas sobre a proteção de dados.
A possível publicação de novas regras nos próximos meses pode, inclusive, gerar um embate com a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD). A expectativa é que as novas diretrizes reforcem a responsabilidade e a segurança, alinhando o uso dos dados às melhores práticas de proteção.
Desafios na experiência do cliente e valor do Open Finance
Heitor Bernardes, diretor técnico de daily banking do Bradesco, reconheceu que as parcerias foram benéficas para o Open Finance, pois ajudam a gerar valor percebido pelos clientes. No entanto, ele apontou um descompasso entre quem cria esse valor e quem assume a responsabilidade quando algo falha. Muitas vezes, o cliente cobra a instituição que colheu o consentimento, e não o parceiro que tratou o dado, o que considera injusto.
O executivo também ressaltou que a jornada de consentimento precisa ser mais clara, pois, hoje, o cliente “categoricamente não entende para que serve o Open Finance”. Isso leva à confusão, onde o ecossistema é visto apenas como um agregador de extratos ou um atalho para crédito. Ele criticou ainda a “corrida por métricas de adesão” apenas para contabilizar números, classificando-a como um “jeito empurrado de fazer”.
Do Citi, Patricia Sousa, responsável por Plataformas e Serviços de Dados para a América Latina, destacou a cautela no tratamento de dados para grandes corporações. Para empresas de grande porte, a adesão ao Open Finance é uma decisão estratégica, baseada em confiança e na análise clara do valor. Ela explicou que, para pessoas jurídicas, o Open Finance é um meio para obter análise de valor, e não um fim em si.
Qualidade dos dados e proteção “by design” no Open Finance
Ricardo Morishita Wada, secretário nacional do Consumidor do Ministério da Justiça e Segurança Pública, trouxe uma reflexão mais profunda. Citando o livro “Infocracia”, ele afirmou que “informação é feita para fluir”, mas a informação sozinha não basta. É essencial uma narrativa que ajude o consumidor a compreender o que está contratando. Ricardo defendeu que o sistema deve “nascer protegido”, em um conceito chamado de “protection by design”.
Em outro painel do Febraban Tech 2026, Janaína Attie, consultora do Banco Central, afirmou que o Open Finance já superou desafios de interoperabilidade e jornadas fluidas. O foco agora é atacar a “qualidade dos dados”, pois se trata de uma “infraestrutura perene do sistema financeiro”. Ela destacou que a infraestrutura avançou do compartilhamento de dados e iniciação de pagamentos para a portabilidade de crédito, com planos para portabilidade de salários e investimentos.
Ana Carla Abrão, diretora-presidente da Associação Open Finance Brasil, celebrou o impressionante volume escalado no ecossistema, com projeção de 60 milhões de chamadas de API por mês e 300 milhões de consentimentos. Ela confirmou que o Brasil é “referência global” em Open Finance. A executiva revelou que quase metade das micro, pequenas e médias empresas brasileiras já utiliza o Open Finance, embora muitas vezes via CPF dos sócios. Os consentimentos de PJ somam 2 milhões, com crescimento de 150% em 12 meses, sendo uma “agenda importantíssima” para a associação e o BC.
Leandro Pupe Nóbrega, do Santander Brasil, enfatizou que o consentimento é o início de um relacionamento de longo prazo, e a “confiança que a gente tem com o cliente é um ativo”. Para Marcelo Gomes, diretor de Clientes Pessoa Física do Banco do Brasil, confiança, disponibilidade e confiabilidade dos dados são cruciais para transformar dados em valor, sempre lembrando que o “dado é do cliente” e ele deve poder revogar o consentimento.
Perguntas Frequentes
O que é o Open Finance?
O Open Finance, ou Sistema Financeiro Aberto, permite que clientes compartilhem seus dados financeiros (com consentimento) entre diferentes instituições, como bancos e fintechs, para acessar produtos e serviços mais personalizados e competitivos.
Qual o risco de “fuga de dados” no Open Finance?
O risco de “fuga de dados” se refere ao compartilhamento de informações financeiras dos clientes para empresas ou ambientes fora da regulamentação estrita do Banco Central, o que pode levar a fraudes, uso indevido e perda de controle do cliente sobre seus dados.
O que o Banco Central fará para resolver o problema da segurança no Open Finance?
O Banco Central planeja publicar novas regras nos próximos meses para regulamentar as parcerias e o compartilhamento de dados no Open Finance. O objetivo é “fechar essa porta”, garantindo que as informações sejam usadas apenas dentro do ecossistema regulado e com maior proteção ao consumidor.
Por que muitos clientes ainda não entendem o Open Finance?
Especialistas indicam que a jornada de consentimento e a proposta de valor do Open Finance ainda não são claras para muitos usuários. Isso leva a confusões, com o sistema sendo muitas vezes percebido como um simples agregador de extratos ou uma ferramenta para crédito, em vez de uma infraestrutura mais ampla de finanças abertas.
Como o Open Finance beneficia as empresas no Brasil?
Para as empresas, especialmente micro, pequenas e médias, o Open Finance pode ser um meio poderoso para obter análises financeiras mais eficientes e acessar melhores condições de crédito. Há um grande potencial de ganhos em gestão financeira e acesso a serviços mais adequados às suas necessidades.
