Fundos de direitos creditórios ligados à varejista amealharam R$ 1,9 bilhão em patrimônio, mas enfrentam grandes riscos com a recuperação judicial.

Fundos de Direitos Creditórios (FIDCs) vinculados à Casas Bahia atraíram bilhões de reais de investidores com a promessa de retornos elevadíssimos, chegando a CDI mais 30% ao ano. Essa rentabilidade chamativa impulsionou um crescimento notável, mesmo em um período de crise para a varejista.

Um dos maiores desses fundos, o IBCB AF01, viu seu patrimônio líquido saltar de R$ 990 milhões em maio de 2025 para R$ 1,9 bilhão pouco mais de um ano depois. Essa expansão ocorreu em um cenário desafiador, com a Casas Bahia já em recuperação extrajudicial desde junho de 2024.

Apesar da aparente robustez, a recente conversão da recuperação extrajudicial da Casas Bahia em recuperação judicial coloca esses investimentos em uma situação de alto risco, ameaçando os retornos prometidos e a integridade do capital dos cotistas.

Rentabilidade Atrativa Impulsionou o Crescimento dos FIDCs da Casas Bahia

A atratividade de retornos como CDI mais 30% ao ano funcionou como um poderoso chamariz para os FIDCs que financiam a cadeia de fornecedores da Casas Bahia. Essa oferta de ganhos superou em muito a média do mercado, captando a atenção de investidores qualificados.

O patrimônio do fundo IBCB AF01 é um testemunho desse sucesso, com um salto expressivo que praticamente dobrou em pouco mais de doze meses. Tal performance contrasta com o cenário de dificuldades enfrentado pela varejista durante o mesmo período.

Além do IBCB AF01, a Casas Bahia lista pelo menos outros dois FIDCs de risco sacado em suas demonstrações, incluindo um com R$ 240 milhões de patrimônio e o GCB Fornecedores Comerciais, que soma R$ 790 milhões em ativos.

Entenda o FIDC de “Risco Sacado” e o Papel da Varejista

Um FIDC é um fundo de investimento que capta recursos de cotistas para comprar “dinheiro a receber” de empresas. Por exemplo, um fornecedor que tem R$ 100 mil a receber da Casas Bahia em 90 dias pode vender esse direito ao FIDC por um valor menor, como R$ 90 mil, recebendo o dinheiro antecipadamente. O lucro do fundo e, consequentemente, dos cotistas, vem da diferença entre o que foi pago ao fornecedor e o que será recebido da empresa devedora.

No modelo de “risco sacado”, a Casas Bahia atua como a “sacada”, ou seja, a empresa cujo crédito é o lastro da operação. O principal risco para os cotistas é justamente a possibilidade de a sacada não honrar os pagamentos, um cenário que se concretiza com a aprovação de uma recuperação judicial.

Os fundos que operam nesse modelo e estão expostos à Casas Bahia captaram recursos principalmente de investidores profissionais (com mais de R$ 10 milhões em aplicações financeiras) e institucionais. Segundo um gestor que pediu anonimato, grande parte desses recursos, cerca de R$ 1,8 bilhão, veio da própria varejista. Contudo, um volume similar de aproximadamente R$ 1,8 bilhão corresponde a cotas “seniores”, adquiridas por investidores externos.

Recuperação Judicial Impõe Descontos Amargos e Perdas aos FIDCs

Com a entrada da Casas Bahia em recuperação judicial, os pagamentos aos FIDCs são interrompidos. Em processos desse tipo, é comum que as dívidas financeiras sofram um “haircut”, um desconto que pode ultrapassar 90% do valor original do débito. Isso significa que os fundos podem receber apenas uma pequena fração do que lhes é devido.

O FIDC IBCB AF01, por exemplo, possui quase R$ 1,1 bilhão a receber da Casas Bahia, o que representa 58% de seu patrimônio. Na prática, com um desconto médio, o fundo poderia receber menos de R$ 110 milhões, impactando diretamente os cotistas com perdas significativas.

Além dos fundos de risco sacado, a Casas Bahia também possui dívidas com outros cinco FIDCs que forneceram crédito direto à companhia, somando cerca de R$ 16 milhões. A maior dessas dívidas é de R$ 4,8 milhões com o Quatá Multissetorial, representando 2% do patrimônio desse FIDC específico.

Danos à Reputação e a Dependência do Varejo nos FIDCs

A crise da Casas Bahia, embora possa ter um impacto financeiro limitado para investidores de FIDCs de varejo (pessoas físicas com menos de R$ 1 milhão aplicados), causa um estrago considerável na percepção de risco para todo o mercado de Fundos de Direitos Creditórios. “Tem uma questão de reputação da mesma maneira que a RJ da Casas Bahia chamou atenção para a situação apertada do varejo de uma maneira mais ampla”, afirmou o gestor que não quis se identificar.

Segundo o mesmo gestor, a situação expôs a grande dependência de empresas de consumo cíclico em relação aos FIDCs para financiar suas operações. Em um cenário onde bancos restringem o crédito a companhias endividadas, esses fundos se tornaram uma alternativa crucial, transferindo o risco para os próprios investidores.

No total, o Grupo Casas Bahia acumula quase R$ 4 bilhões em dívidas com fundos de direitos creditórios, e a maior parte desse valor foi captada após a empresa já estar em recuperação extrajudicial. Com a conversão para recuperação judicial, essas dívidas entram na fila de credores, forçando os FIDCs a estancar amortizações e a repassar as perdas aos cotistas após a reestruturação.

Perguntas Frequentes

O que é um FIDC e como ele funciona no caso da Casas Bahia?

Um FIDC (Fundo de Direitos Creditórios) é um veículo de investimento que compra dívidas ou “dinheiro a receber” de empresas. No caso da Casas Bahia, os FIDCs de risco sacado compravam os créditos de fornecedores da varejista, adiantando o pagamento a eles e esperando receber da Casas Bahia futuramente, gerando lucro para os cotistas.

Qual o risco dos FIDCs da Casas Bahia no cenário atual de recuperação judicial?

O principal risco é o calote. Com a recuperação judicial, a Casas Bahia suspende os pagamentos aos FIDCs, e as dívidas podem ser renegociadas com um grande desconto, conhecido como “haircut”, que pode ultrapassar 90% do valor original. Isso significa que os cotistas podem sofrer perdas substanciais no capital investido.

Quem são os investidores afetados por esses FIDCs de alto risco?

Os FIDCs de risco sacado da Casas Bahia eram direcionados a investidores profissionais, com mais de R$ 10 milhões em aplicações, e a investidores institucionais. Além disso, a própria Casas Bahia detinha cerca de R$ 1,8 bilhão em cotas desses fundos, somando-se às cotas seniores de outros investidores.

A crise da Casas Bahia impacta outros FIDCs no mercado brasileiro?

Sim, mesmo que o impacto direto em outros FIDCs não seja imediato, a situação da Casas Bahia aumenta a percepção de risco para todo o mercado de FIDCs, especialmente aqueles ligados ao varejo ou a empresas de consumo cíclico. Isso pode dificultar a captação de recursos e elevar o custo do crédito para outras companhias no futuro.

Qual o montante total da dívida da Casas Bahia com fundos de direitos creditórios?

O Grupo Casas Bahia soma quase R$ 4 bilhões em dívidas com fundos de direitos creditórios. Grande parte desse valor foi captada mesmo após a empresa ter iniciado seu processo de recuperação extrajudicial em junho de 2024, antes da conversão para recuperação judicial.