A obra desafia estereótipos ao explorar a sexualidade e a violência médica vividas por pessoas com deficiência.

O cinema brasileiro alcançou um marco significativo no cenário internacional com o filme London, que conquistou o prestigioso Prêmio Leão Queer no 83º Festival de Veneza, na Itália. A produção, uma criação do ator Victor Di Marco e do diretor Márcio Picoli, propõe uma perspectiva inédita sobre a deficiência, afastando-se dos clichês e mergulhando em temas complexos como sexualidade e a brutalidade em ambientes de saúde.

A trama central acompanha London, personagem vivido por Victor Di Marco, um jovem com deficiência que se divide entre a busca por um diagnóstico médico e a liberdade que encontra ao trabalhar como dominador sexual em uma casa de fetiches. Esse contraste é o coração do filme, que vira do avesso as expectativas sociais e médicas sobre corpos com deficiência.

Com essa abordagem ousada, London não apenas celebra a sexualidade em vivências dissidentes, mas também ilumina a persistente violência capacitista. O filme se torna uma voz potente ao questionar o papel da medicina e da sociedade na vida das pessoas com deficiência, oferecendo um novo olhar sobre o tema.

London: Entre o Fetiche e o Capacitismo

No universo de London, o protagonista encontra um refúgio de liberdade e expressão em um cenário inesperado: uma casa de fetiches, onde atende clientes submissos. É nesse ambiente noturno, longe dos olhares capacitistas das ruas, que ele se sente verdadeiramente vivo e no controle.

O contraponto é a esfera médica, retratada como um espaço de controle, trauma e, muitas vezes, violência. Márcio Picoli explica a inversão de papéis proposta pelo filme: “Quando se pensa em sexo, parece sempre algo sujo, algo violento. Em London, a gente quis mudar, a gente quis botar violência e o perigo na medicina, nesse olhar perigoso do médico para cima do London, de não respeitar.”

Ao desmistificar a sexualidade e posicionar o perigo em lugares não convencionais, London tira a deficiência do centro das atenções como um problema a ser superado. Em vez disso, a obra a apresenta como uma forma própria e singular de experienciar o mundo.

Deficiência como Linguagem e Estética no Cinema

A visão de London vai além de simplesmente retratar a deficiência; ela busca redefini-la artisticamente. O ator Victor Di Marco enfatiza a intenção da produção: “A gente está colocando a deficiência enquanto uma linguagem, enquanto uma estética. A gente está propondo que a deficiência e a acessibilidade sejam vistas como um jeito sexy de viver, como uma inteligência, como uma nova forma de fazer cinema.”

Essa perspectiva inovadora celebra a deficiência como uma forma de inteligência e um caminho para uma nova estética cinematográfica. O filme desafia o público a abandonar preconceitos e a ver os corpos com deficiência como belos, desejáveis e capazes de uma expressão plena, inclusive sexual.

London, que foi filmado em Porto Alegre e teve sua produção impactada pelas enchentes de 2024 na capital gaúcha, representa um “abraço ao desconhecido”, seja ele um novo diagnóstico, um fetiche ou a resiliência diante de catástrofes.

A Brutal Realidade da Violência Médica contra PcDs

Um dos pontos mais impactantes de London é a exploração da violência médica vivenciada por pessoas com deficiência. Na trama, o protagonista é impelido a buscar um diagnóstico, mas opta por não abrir o envelope com o laudo, escondendo-o no congelador, uma rebeldia contra a redução de sua vida a uma condição física.

A persuasão médica avança quando, após passar mal em público, London é sedado sem consentimento para a conclusão de um exame, pois não consegue imobilizar seu corpo devido à deficiência. Victor Di Marco alerta que, por mais dramática que pareça, essa realidade é comum: “Eu acho que não existe uma pessoa que não tenha passado por uma violência médica.”

O ator também critica a lógica da medicina que, muitas vezes, diminui a existência das pessoas com deficiência a uma busca por cura ou autonomia. “Os corpos com eficiência para medicina eles servem só se tiverem algum tipo de cura”, declara. Ele complementa que a medicina tenta enquadrar esses corpos no que a sociedade considera "normal