Levantamento inédito aponta que quase dois em cada três conteúdos políticos gerados por inteligência artificial não informam o uso da tecnologia, prática proibida pela Justiça Eleitoral.

Uma pesquisa realizada pelo Observatório IA nas eleições, iniciativa da Data Privacy Brasil e do Aláfia Lab, identificou um cenário preocupante no uso da inteligência artificial (IA) em publicações políticas nas redes sociais no Brasil. O estudo analisou conteúdos divulgados entre 1º de janeiro e 16 de agosto de 2026, revelando uma alta taxa de desrespeito às normas eleitorais.

Os dados mostram que quase dois em cada três conteúdos políticos criados com IA não informaram o uso da tecnologia. Essa omissão é expressamente proibida pela Justiça Eleitoral, que exige a sinalização clara para evitar a disseminação de material sintético enganoso ou não atribuído.

O levantamento coloca o presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) e o partido PL como os principais propagadores de mensagens geradas por IA de forma indevida. A descoberta levanta sérias questões sobre a transparência e a integridade do processo eleitoral no ambiente digital.

Desinformação e Sátira sem Sinalização de IA

O observatório analisou um total de 413 conteúdos políticos gerados por inteligência artificial nas redes sociais. Desse montante, a maioria se enquadrou em duas categorias principais: 250 publicações, cerca de 60% do total, foram classificadas como sátira, com o objetivo de ridicularizar figuras políticas. Os outros 163 conteúdos, aproximadamente 40%, foram categorizados como desinformação.

A principal preocupação destacada pelos pesquisadores é a falta de transparência. Segundo o observatório, “o dado levanta a preocupação dos conteúdos estarem sendo compartilhados sem o cuidado de informar ao público o uso da tecnologia seja por parte das contas que o publicam, como também das próprias plataformas digitais, que, apesar de disponibilizarem os recursos de rotulagem, possivelmente não estão moderando devidamente os conteúdos sintéticos”.

A pesquisa aponta que a maioria dos conteúdos de desinformação e aqueles sem sinalização foram publicados por usuários anônimos. No entanto, entre os candidatos que utilizaram e divulgaram esse tipo de mensagem, alguns nomes se destacam negativamente.

Partidos e Políticos Envolvidos no Uso Indevido de IA

Entre os candidatos, o presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) lidera a lista de uso indevido de IA, com um total de 13 conteúdos compartilhados sem a devida sinalização. Em seguida, aparece o deputado federal Mário Frias (PL-SP), com 10 publicações.

Outros políticos também foram identificados na prática. O ex-governador Romeu Zema, candidato a presidente pelo Novo, publicou cinco conteúdos. O deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) e o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL) registraram três publicações cada um com IA de forma indevida.

Na análise por partidos, o PL se destaca como o maior propagador de mensagens feitas com inteligência artificial de maneira irregular, somando 28 publicações. Em comparação, o PT compartilhou quatro mensagens e o PSDB, duas mensagens, todas sem a devida sinalização do uso da tecnologia.

O Problema do Deepfake nas Campanhas Eleitorais

A maior parte dos casos identificados de uso indevido de inteligência artificial, precisamente 81%, envolveu a manipulação de imagens ou da voz de pessoas públicas. Essa técnica é conhecida como deepfake, que consiste em um conteúdo sintético produzido ou manipulado por IA, que apresenta alto grau de realismo e reproduz ou altera a imagem, voz ou manifestação de uma pessoa viva, falecida ou fictícia.

O principal alvo dessas manipulações foi o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), cuja imagem ou voz foi modificada de forma pejorativa em 112 publicações. Flávio Bolsonaro também foi alvo de manipulações, com 57 ocorrências de deepfakes usando sua imagem ou voz.

A gravidade da situação é reconhecida pelas autoridades eleitorais. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já proibiu o uso de deepfake nas eleições, especialmente quando o conteúdo é caracterizado como propaganda eleitoral, visando proteger a lisura do pleito e a reputação dos envolvidos.

Perguntas Frequentes

O que é o Observatório IA nas eleições?

O Observatório IA nas eleições é um projeto desenvolvido pela Data Privacy Brasil e pelo Aláfia Lab, que monitora e analisa o uso de inteligência artificial em conteúdos políticos e eleitorais nas redes sociais, especialmente a aplicação de deepfakes e a falta de sinalização da tecnologia.

Por que a sinalização do uso de IA em conteúdos políticos é importante?

A sinalização do uso de inteligência artificial em conteúdos políticos é crucial para garantir a transparência e evitar a desinformação. A Justiça Eleitoral proíbe a ausência dessa indicação para que o público possa distinguir entre materiais autênticos e os gerados ou manipulados por tecnologia, que podem ter objetivos de sátira ou difusão de notícias falsas.

Quem lidera o uso indevido de IA em conteúdos políticos segundo o levantamento?

De acordo com o estudo do Observatório IA nas eleições, o presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) é o político que mais compartilhou conteúdos gerados por IA sem a devida sinalização, com 13 publicações. Entre os partidos, o PL lidera, com 28 publicações identificadas como uso indevido de IA.

O que é um deepfake e por que é proibido nas eleições?

Deepfake é um conteúdo sintético que usa inteligência artificial para manipular imagens ou vozes de pessoas de forma realista. Ele é proibido nas eleições pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) quando caracterizado como propaganda eleitoral para evitar a criação e disseminação de material falso ou enganoso que possa influenciar indevidamente a opinião pública ou difamar candidatos.