Levantamento aponta que maioria dos portfólios amarga rentabilidade negativa, enquanto saída de capital estrangeiro e juros altos pesam sobre o mercado.
O cenário de investimentos no Brasil em 2026 apresenta um quadro preocupante para quem aposta em fundos de ações. Uma análise recente revela que a vasta maioria desses portfólios tem entregado resultados inferiores aos da caderneta de poupança, tradicionalmente considerada um investimento mais conservador e de baixo rendimento.
Mais de 81% dos fundos de ações ativos, aqueles com mais de dez cotistas, estão rendendo menos que a poupança neste ano. Esse desempenho aquém das expectativas ocorre em um período de instabilidade para o mercado de capitais brasileiro, com a Bolsa de Valores de São Paulo (B3) enfrentando desafios significativos.
A situação é influenciada pela forte atração de mercados externos, especialmente os Estados Unidos, e pela persistência de taxas de juros elevadas no Brasil, que desviam o interesse dos investidores da renda variável para a renda fixa.
Ibovespa e a Saída de Capital Estrangeiro
O Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, tem vivenciado um período de quedas acentuadas, registrando sua décima sessão em baixa na segunda-feira, dia 17 de agosto. Esse movimento reflete uma saída massiva de recursos: mais de R$ 15 bilhões deixaram os papéis de empresas brasileiras apenas nas duas primeiras semanas de agosto.
Analistas descrevem o fenômeno como um “El Niño financeiro”. Enquanto eleva a “temperatura” nas bolsas americanas, criando novos recordes para índices como o S&P 500, Dow Jones e Nasdaq em agosto, ele gera uma escassez de recursos para a B3. A força das big techs americanas é um dos principais fatores para a atração do capital estrangeiro.
Rentabilidade dos Fundos de Ações em 2026
O levantamento, realizado com dados da Anbima e da CVM, é alarmante: 981 dos 1.200 fundos analisados — o que representa 81,75% da amostra total — renderam menos que a poupança em 2026. Dentro desse grupo, 678 veículos (56%) registraram rentabilidade negativa entre janeiro e meados de agosto.
A categoria “Ações Livre”, a maior do mercado, exemplifica bem essa tendência, com um retorno de -0,58% no ano. Isso significa que, a cada R$ 10 aplicados no início de 2026, o cotista tem hoje aproximadamente R$ 9,942. Em contraste, a caderneta de poupança ofereceu um rendimento de 5,45% e o CDI, um ganho de 8,70% no mesmo período.
Os fundos de ações como um todo têm enfrentado resgates líquidos, onde os saques superam os aportes, em todos os meses de 2026 até meados de agosto. Apenas a categoria “Ações Livre” contabilizou uma saída líquida de R$ 11,1 bilhões em sete meses e meio, com R$ 1,1 bilhão retirado nas primeiras duas semanas de agosto.
Juros Elevados e a Sangria nos Fundos
A política de juros altos no Brasil também contribui para o desinteresse na renda variável. Com a Selic a 14% ao ano, equivalendo a um retorno de IPCA+9,56% ao ano, os investimentos de renda fixa se tornam extremamente atraentes. Em condições normais, não se espera retornos muito maiores do que IPCA+4%, o que torna o cenário atual ainda mais convidativo para a migração de recursos.
Além disso, o alto volume de resgates impacta diretamente a rentabilidade dos fundos de ações. Para honrar as retiradas, os gestores podem ser forçados a vender ativos a preços desfavoráveis, gerando um efeito de “bola de neve” onde a queda na rentabilidade leva a mais resgates, intensificando as perdas.
Investimentos no Exterior: Onde o Capital Prospera
Em meio a esse cenário desafiador para a bolsa brasileira, os fundos que investem em papéis no exterior se destacam com os melhores retornos. Eles estão em sintonia com a recuperação e o bom desempenho das ações americanas e asiáticas, atraindo capital em busca de melhores oportunidades.
Exemplos notáveis incluem fundos da Tenax, com retornos entre 32% e 45%, e o BB Ações Bolsas Asiáticas ex-Japão, que foca em BDRs de mercados como Coreia do Sul, China, Taiwan e Índia, acumulando um ganho de 26,6% em 2026. O líder do ranking, o Harbour IAT, registra impressionantes 51,25% de retorno, utilizando derivativos e investindo 25% de sua carteira em BDRs.
A categoria de fundos de ações com foco em Investimento no Exterior registrou uma entrada líquida de R$ 11,5 bilhões no ano, evidenciando a busca dos investidores por alternativas rentáveis fora do mercado doméstico.
Perguntas Frequentes
Por que 81% dos fundos de ações estão perdendo para a poupança em 2026?
Essa situação ocorre devido à saída de capital estrangeiro da B3, atraído por mercados como o dos EUA, e às altas taxas de juros no Brasil (Selic a 14% ao ano), que tornam a renda fixa mais vantajosa. Muitos fundos também sofrem com resgates líquidos, forçando a venda de ativos a preços baixos.
Qual o desempenho geral dos fundos de ações brasileiros neste ano?
A maioria dos fundos de ações ativos (81,75%) rende menos que a poupança, e 56% deles amargam rentabilidade negativa entre janeiro e meados de agosto de 2026. A categoria Ações Livre, por exemplo, registrou um retorno de -0,58%.
O que causa a saída de capital estrangeiro da B3?
A saída de capital estrangeiro da B3 é impulsionada principalmente pela volta da força de atração do mercado americano, sustentada pelo desempenho robusto de grandes empresas de tecnologia (big techs) nos EUA, que registraram novos recordes em seus principais índices.
Quais alternativas de investimento têm se mostrado mais rentáveis em 2026?
Em 2026, os investimentos em renda fixa, devido à alta Selic (14% ao ano), e os fundos de ações com foco em mercados internacionais, como os dos EUA e Ásia, têm apresentado os melhores retornos. Fundos que investem no exterior registraram uma entrada líquida de R$ 11,5 bilhões no ano.
