Entidade substituiu conselho administrativo por comitê executivo, gerando dúvidas sobre a representatividade das credenciadoras independentes.
Uma recente alteração na estrutura de governança da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), anunciada em 20 de agosto, tem gerado apreensão entre as empresas adquirentes independentes no Brasil. A mudança levantou questionamentos sobre a distribuição de poder e a representatividade da entidade no setor de meios de pagamento.
A nova configuração dissolve o conselho administrativo e cria um comitê executivo, além de instituir um conselho consultivo sem poder deliberativo. Paralelamente, foram estabelecidas regras mais rigorosas para a admissão, exclusão e reintegração de associados, o que, segundo especialistas, pode concentrar o controle da associação em grandes bancos emissores e bandeiras.
Empresas como Stone, PagBank e Mercado Pago, credenciadoras independentes que conquistaram uma fatia significativa do mercado nos últimos anos, são as principais afetadas pela potencial redução de seu espaço formal nas decisões. Procurada pela reportagem, a Abecs optou por não se manifestar, e o novo estatuto ainda não foi divulgado oficialmente. As credenciadoras citadas também não se pronunciaram.
Impacto da nova governança da Abecs para o mercado
Para Thiago Amaral, sócio do Barcellos Tucunduva Advogados, a profissionalização da gestão de uma associação é, em geral, um movimento positivo, que pode trazer mais eficiência e continuidade. No entanto, o ponto crucial da discussão reside na forma como o poder de decisão será distribuído dentro da nova estrutura.
O quadro associativo da Abecs é bastante diversificado, com 94 empresas, incluindo 44 emissores, 25 credenciadoras e seis bandeiras. A entidade afirma representar mais de 80% dos emissores, mais de 90% das credenciadoras e mais de 98% das bandeiras. Essa heterogeneidade, especialmente no segmento de credenciamento, onde coexistem players ligados a grandes bancos e instituições independentes, gera visões divergentes em pautas comerciais, regulatórias e concorrenciais.
Amaral destaca que a falta de correspondência entre essa diversidade econômica e as instâncias decisórias da Abecs pode criar um descompasso entre a representação institucional e a realidade do mercado atual, que viu fintechs e credenciadoras independentes ganharem escala e diversificarem seus modelos de negócio.
Preocupação das credenciadoras independentes com a representação
Beatriz Cançado, CEO da B23 Parcelamentos, concorda que a profissionalização da Abecs é benéfica, mas levanta a questão da preservação da “voz efetiva dos diferentes modelos” de mercado. Segundo ela, as empresas independentes foram essenciais na transformação do setor de pagamentos, introduzindo novos modelos, aumentando a competição e atendendo segmentos antes negligenciados pelos grandes players.
Um executivo do setor, que preferiu manter o anonimato, expressou que a mudança no estatuto reforça um movimento já em curso de fortalecimento do poder político das bandeiras e dos bancos emissores na Abecs. Ele recorda um passado em que as discussões da associação eram mais equilibradas e os adquirentes tinham um papel relevante, citando Pedro Coutinho, ex-presidente da Abecs e executivo de credenciadoras como GetNet e Safrapay.
Historicamente, a Abecs tratava de questões principiológicas da indústria, com uma participação mais equânime. Contudo, o executivo anônimo observa que, ao longo do tempo, a associação passou a representar mais diretamente os interesses das bandeiras e das grandes instituições financeiras, tendência que, em sua visão, é acentuada pela atual reformulação.
Adquirentes perdem espaço decisório na Abecs
A percepção de que a Abecs está ampliando seu escopo para além dos cartões também é vista como um fator que fragiliza as adquirentes. As novas regras podem, formalmente, impedir ou dificultar a participação de credenciadoras, especialmente aquelas sem vínculo bancário. Fóruns internos importantes, como o de credenciadores, onde esses players discutiam seus desafios, teriam perdido espaço.
Os executivos consultados ressaltam que, embora uma credenciadora possa continuar associada, contribuindo para grupos técnicos e sendo consultada em temas específicos, sua participação reduzida na instância deliberativa da entidade pode gerar uma lacuna entre sua atuação institucional e seu poder de decisão efetivo. Essa discussão é crucial, pois a Abecs atua como porta-voz e representante da indústria de meios de pagamento eletrônicos.
A proximidade da entidade com os bancos é vista como natural, mas a preocupação surge quando essa aproximação resulta em uma concentração excessiva da representação ou do poder decisório. Thiago Amaral pondera que, na ausência de mais informações, ainda não é possível afirmar que a Abecs deixou de representar o mercado. Contudo, questionar se a nova governança reflete a diversidade econômica e empresarial de seus associados é uma preocupação legítima.
Outras entidades podem ganhar espaço no setor de pagamentos
Na avaliação dos entrevistados, a existência de diversas entidades representativas no mercado é um aspecto saudável, especialmente diante da amplitude e diversidade do ecossistema de pagamentos atual. Beatriz Cançado, que faz parte da diretoria da Associação Brasileira Das Empresas De Meios De Pagamentos De Débitos Veiculares E Tributos Governamentais (Abrempag), vê essas entidades como complementares, e não substitutas.
No entanto, o executivo anônimo prevê uma possível “debandada” de adquirentes da Abecs. Ele argumenta que, sem representatividade efetiva, a permanência na associação se torna desnecessária, restando apenas o custo da associação. Essa saída de membros, paradoxalmente, tenderia a fortalecer outras associações.
A expectativa é que credenciadoras em busca de representação para suas demandas busquem outras entidades, como a Associação Brasileira de Instituições de Pagamentos (Abipag) ou a Associação Brasileira de Internet (Abranet), reforçando o papel dessas organizações no setor. Esse movimento pode reconfigurar o cenário de representação da indústria de meios de pagamento no Brasil.
Perguntas Frequentes
O que mudou na governança da Abecs?
A Abecs substituiu seu conselho administrativo por um comitê executivo e criou um conselho consultivo sem poder de decisão. Além disso, as regras para adesão, exclusão e readmissão de associados foram endurecidas.
Por que as credenciadoras independentes estão preocupadas?
As credenciadoras independentes, como Stone, PagBank e Mercado Pago, temem perder espaço formal e poder de decisão nas pautas da Abecs, que podem passar a concentrar os interesses de grandes bancos emissores e bandeiras.
Quais associações podem ganhar força com essa mudança?
Com a possível redução da representatividade das credenciadoras independentes na Abecs, espera-se que entidades como a Associação Brasileira de Instituições de Pagamentos (Abipag) e a Associação Brasileira de Internet (Abranet) ganhem mais destaque e filiados.
A Abecs ainda representa o mercado de pagamentos?
Ainda é cedo para afirmar que a Abecs deixou de representar o mercado, mas especialistas questionam se a nova governança continuará refletindo a diversidade econômica e empresarial de todos os seus associados nas instâncias de decisão.
