Uso de álcool e drogas pode agravar quadros de depressão e desesperança, elevando a vulnerabilidade a pensamentos suicidas. Especialistas orientam sobre sinais e como buscar ajuda.

O consumo excessivo de álcool e outras drogas é um fator que pode agravar significativamente o sofrimento mental e, consequentemente, aumentar a vulnerabilidade a comportamentos suicidas. Embora não seja uma relação direta de causa e efeito, o suicídio é um fenômeno complexo e multifatorial, onde os vícios atuam como um complicador.

A psicóloga Lucineide Guimarães, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e Terapia dos Esquemas em São Paulo, explica que muitas pessoas buscam nas substâncias um alívio temporário para emoções difíceis. “A frustração de não conseguir lidar com um sofrimento emocional, de não conseguir encontrar respostas para um vazio, gera uma sensação de vergonha, impotência e fracasso. Essas pessoas acabam utilizando substâncias que produzem um alívio imediato”, detalha Guimarães.

Esse alívio, contudo, é passageiro e pode alimentar um ciclo vicioso de consumo, culpa e um novo sofrimento. O psiquiatra Danillo Bastos, também de São Paulo, reforça a importância de considerar a intenção por trás do uso, mesmo em quantidades aparentemente pequenas, como um sinal de alerta.

Quando o consumo de substâncias se torna um problema?

É fundamental diferenciar o consumo ocasional do que se configura como uma dependência ou um uso problemático. Nem todo consumo exagerado indica dependência, mas existem sinais claros de alerta que surgem quando a relação com a substância começa a causar perda de controle e prejuízos significativos na rotina, trabalho, estudos e relacionamentos.

Entre os critérios que devem ser observados estão as tentativas frustradas de diminuir ou interromper o consumo, a necessidade de doses cada vez maiores para obter o mesmo efeito, o desejo intenso e incontrolável de usar a substância, o abandono de atividades importantes e a persistência no comportamento, mesmo diante de consequências negativas.

A psicóloga Lucineide Guimarães destaca as repercussões sociais e pessoais: “Também começam a aparecer problemas no trabalho, nos estudos e em outras áreas da vida. A pessoa passa a deixar responsabilidades na mão de outras pessoas. Surgem problemas interpessoais com o parceiro, com os filhos, com os amigos.”

O psiquiatra Danillo Bastos alerta que a motivação para o consumo é um ponto crucial. Usar álcool ou outras drogas repetidamente para escapar de problemas ou aliviar angústias pode ser um indicativo de uma relação problemática, mesmo antes que grandes prejuízos se manifestem. “Se você toma duas latinhas de cerveja com a intenção de esquecer seus problemas, isso já acende um sinal amarelo para mim. Não pela quantidade consumida, mas pela intenção por trás do consumo”, exemplifica Bastos.

Por que a dependência química aumenta a vulnerabilidade ao suicídio?

O psiquiatra Danillo Bastos explica que certos períodos são de maior vulnerabilidade para quem consome substâncias, como a intoxicação, a abstinência e as recaídas. O uso de álcool e outras drogas pode intensificar a impulsividade, prejudicar o discernimento e agravar transtornos psiquiátricos preexistentes.

Esse cenário se torna ainda mais preocupante na presença de depressão. A desesperança, um sintoma comum da depressão, dificulta a percepção de soluções e alternativas para enfrentar crises, enquanto a impulsividade, acentuada pelo uso de substâncias, reduz o tempo dedicado à avaliação das consequências de uma ação.

“Quando somamos esse sentimento de desesperança ao aumento da impulsividade provocado pelo uso de substâncias, temos uma combinação especialmente preocupante”, enfatiza o psiquiatra Bastos, alertando para o risco ampliado.

Sinais de alerta de sofrimento intenso e como oferecer apoio

É vital estar atento a sinais que podem indicar sofrimento mental intenso e risco de suicídio. Entre eles, destacam-se o isolamento crescente, o abandono de atividades que antes eram prazerosas, mudanças marcantes de comportamento, falas recorrentes sobre a falta de sentido na vida e atitudes que se assemelham a uma despedida.

O psiquiatra Danillo Bastos esclarece que nem sempre a pessoa verbaliza diretamente a intenção de tirar a própria vida. “Nem sempre alguém em sofrimento vai dizer diretamente que quer morrer ou tirar a própria vida. Muitas vezes, ela começa a demonstrar que a vida perdeu o sentido, passa a se desculpar excessivamente por coisas que fez, apresenta comportamentos que lembram uma despedida ou adota um padrão de isolamento cada vez maior”, observa.

Ao abordar alguém em sofrimento, é crucial que familiares e amigos evitem julgamentos. A psicóloga Lucineide Guimarães recomenda demonstrar preocupação genuína e criar um espaço seguro para que a pessoa possa expressar o que está vivendo. “Aqui, o mais importante não é apenas a pergunta, mas quem vai fazê-la, quem vai abordar essa pessoa. É fundamental que a abordagem aconteça sem preconceitos e sem julgamentos”, orienta a psicóloga.

Importante saber que, se existirem sinais de risco, perguntar diretamente se a pessoa pensa em suicídio não incentiva a prática. Pelo contrário, essa atitude pode abrir um canal de diálogo e permitir que a pessoa receba a ajuda necessária. Em casos de risco imediato, a orientação é nunca deixar a pessoa sozinha e procurar atendimento de urgência imediatamente.

Tratamento e onde buscar ajuda no Brasil

O tratamento para dependência química e sofrimento mental deve ser abordado de forma integrada. Ele pode incluir acompanhamento psiquiátrico, que pode envolver o uso de medicamentos quando indicados, psicoterapia e o fortalecimento da rede de apoio do indivíduo.

No Sistema Único de Saúde (SUS), a assistência pode ser iniciada nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) ou nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), que oferecem suporte especializado. Em situações de emergência médica, o SAMU atende pelo telefone 192.

Para apoio emocional gratuito e sigiloso, o Centro de Valorização da Vida (CVV) está disponível 24 horas por dia, pelo telefone 188 ou através do site cvv.org.br. Além disso, os CRAS/CRAS locais e outros serviços de saúde mental do SUS também oferecem suporte psicológico.

Perguntas Frequentes

Qual a relação entre vícios e saúde mental?

Vícios em álcool e drogas podem agravar o sofrimento mental, intensificar quadros de depressão, desesperança e impulsividade, aumentando a vulnerabilidade a comportamentos suicidas. Não é uma relação de causa e efeito, mas um fator de risco significativo.

Como identificar se o uso de substâncias é um problema?

Sinais de alerta incluem perda de controle sobre o consumo, prejuízos na rotina, trabalho, estudos e relacionamentos, tentativas frustradas de parar, necessidade de doses maiores e uso da substância para esquecer problemas ou aliviar sofrimento, conforme alertam especialistas.

Onde buscar ajuda para dependência química e sofrimento mental no SUS?

A ajuda pode ser encontrada nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) ou nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps). Em emergências, o SAMU (192) deve ser acionado, e o CVV (188) oferece apoio emocional 24h.

Perguntar sobre suicídio pode incentivar a pessoa?

Não, perguntar diretamente se alguém pensa em suicídio não incentiva a prática. Pelo contrário, pode abrir um espaço seguro para a pessoa falar sobre seu sofrimento e buscar ajuda, desde que a abordagem seja feita sem julgamentos e com preocupação.