Apesar do volume inédito de R$ 20 bilhões em dinheiro novo do varejo, a corretora vê rentabilidade cair, com analistas apontando problema de monetização.

A XP, corretora de investimentos, atingiu um feito notável no segundo trimestre de 2026 (2T26), registrando uma captação líquida de R$ 20 bilhões no varejo. Esse valor representa um recorde histórico para a empresa, com um crescimento de 28% em comparação ao mesmo período do ano anterior.

Contudo, por trás dos números impressionantes de captação, esconde-se um desafio crescente. Analistas do Itaú BBA e BTG Pactual indicam que, enquanto a XP continua atraindo um volume expressivo de recursos, a capacidade de rentabilizar esse dinheiro está em declínio.

O cenário revela uma dinâmica incomum: a XP nunca teve tantos clientes confiando seus recursos a ela, mas, ao mesmo tempo, nunca cobrou tão pouco por essa confiança. A explicação reside na preferência dos investidores por produtos de baixa rentabilidade para a corretora, deslocando o varejo, negócio original da empresa, do papel de principal motor financeiro, que agora é assumido pelo segmento corporativo.

XP capta R$ 20 bilhões, mas rentabilidade do varejo despenca

O volume de R$ 20 bilhões em dinheiro novo no varejo, um salto de 28% sobre o ano anterior, consolida a XP como uma das maiores captadoras do mercado. Apesar disso, o trimestre da corretora é marcado não pela captação recorde, mas sim por um complexo problema de monetização, conforme relatórios de análise de mercado.

Os especialistas destacam que os investidores brasileiros têm optado por produtos de liquidez diária. Embora convenientes por permitirem saque a qualquer momento, esses instrumentos geram uma margem de lucro muito menor para a XP, impactando diretamente a receita.

Essa mudança no comportamento do cliente resultou em uma queda de 5,5 pontos-base na taxa de rentabilização da XP sobre o dinheiro dos clientes em um período de doze meses. Ou seja, captar bem não significa necessariamente faturar bem no varejo.

Preferência por liquidez diária freia a receita da corretora

A composição das vendas de renda fixa ilustra claramente o desafio. Atualmente, os instrumentos de liquidez diária representam 70% do total, uma forte elevação em comparação aos 30% registrados quatro trimestres antes. Esse tipo de produto paga à XP um percentual pequeno diariamente, contrastando com títulos de prazo mais longo, que permitem à corretora embolsar um spread maior de uma só vez.

A receita de varejo da XP totalizou R$ 3,88 bilhões no 2T26, um valor 1,3% abaixo da estimativa do Itaú BBA e 3% inferior ao consenso de mercado, segundo o BTG Pactual. A linha de renda fixa, especificamente, gerou R$ 1,14 bilhão em receita, ficando 10% abaixo do esperado e 16% menor do que no mesmo período do ano anterior, de acordo com o BTG.

Além da migração dos clientes, o ambiente macroeconômico menos favorável para investimentos de maior risco também contribuiu para a dificuldade de gerar receita no varejo. Assim, a captação robusta não se traduz em uma receita de varejo igualmente forte.

Corporate impulsiona resultados enquanto varejo perde força

Diante da menor tração do varejo, a área de Wholesale Banking, em especial a divisão corporate, emerge como o novo motor de crescimento da XP. Este segmento atende empresas com operações de crédito, câmbio, derivativos e mesa de trading, superando as expectativas do mercado.

O BTG Pactual aponta que a receita de Wholesale ficou 7% acima do consenso, com o corporate se destacando ao superar as projeções em 26% e registrar um crescimento de 22% no trimestre. Entretanto, nem todo o segmento de atacado performou bem: a área de Issuer Services (emissões de dívida) e o DCM (mercado de capitais de dívida) apresentaram desempenho abaixo do esperado, indicando um crescimento concentrado dentro do corporate.

Questionado sobre uma possível mudança de foco para o corporate, o CEO da XP, Thiago Maffra, nega qualquer virada de estratégia. Ele afirma que o investimento nessa plataforma ocorre há mais de cinco anos, e o avanço do corporate representa uma evolução natural, não uma resposta de curto prazo à fraqueza do varejo.

Custos e riscos do crescimento da carteira de crédito corporate

O crescimento acelerado do segmento corporate não ocorre sem custos ou riscos. A carteira de crédito da XP alcançou R$ 77,9 bilhões, registrando um aumento de 5% no trimestre. Um ponto de atenção levantado pelo BTG Pactual é que 63% dessa exposição creditícia não possui garantia, o que eleva o risco assumido pela corretora.

Os analistas observam que o aumento dos ativos ponderados pelo risco (RWA) está diretamente relacionado à expansão do crédito para empresas. O BTG adverte que a XP precisará de capacidade interna, alinhamento de equipe e tempo suficientes para que essa aposta se materialize em uma franquia de atacado "realmente relevante