A B3 estuda levar os contratos de eventos, que permitem investir em desfechos de indicadores econômicos como juros e inflação, para o investidor de varejo.

A B3, bolsa de valores brasileira, está avaliando a expansão dos mercados de previsão para um público mais amplo. Atualmente restritos a investidores institucionais e profissionais, esses instrumentos financeiros podem se tornar acessíveis aos investidores de varejo em breve, marcando uma potencial mudança no cenário de investimentos no Brasil.

A informação foi destacada por executivos do setor financeiro durante a “B3 Week 2026”, um evento realizado em São Paulo na terça-feira, 15 de setembro, focado nos rumos do mercado de capitais nacional. A iniciativa representa um passo significativo para democratizar o acesso a produtos financeiros mais complexos.

Os mercados de previsão operam por meio de contratos de eventos, permitindo aos investidores alocar recursos no resultado de acontecimentos futuros específicos. Entre os exemplos estão a definição da taxa de juros pelo Banco Central (BC) ou o valor de um indicador econômico vital, como a inflação ou o Produto Interno Bruto (PIB).

Entendendo os Mercados de Previsão e Contratos de Eventos

Os mercados de previsão funcionam com base em contratos de eventos, onde o investidor aposta na ocorrência ou não de um determinado acontecimento. A B3 já oferece contratos vinculados a decisões de juros do Banco Central, ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação oficial, e ao Produto Interno Bruto (PIB), que representa a soma de todos os bens e serviços produzidos no país.

Segundo os executivos presentes no evento, os contratos ligados às decisões de juros do BC já movimentam um volume expressivo de negociações. Essa modalidade de investimento, no entanto, é regulada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que impõe regras restritas para sua distribuição, limitando-a a players mais experientes do mercado.

Vantagens para o Novo Investidor em Derivativos

Para Gerson Sanlorenzi, sócio do BTG Pactual, os contratos de eventos apresentam um apelo único, diferente dos derivativos tradicionais. Eles incorporam a própria probabilidade de um evento acontecer. “Quando você vê um contrato custando 70 centavos em cem, está vendo diretamente a probabilidade que o mercado atribui àquele evento”, explicou o executivo.

Sanlorenzi citou decisões de política monetária e eventos geopolíticos como exemplos práticos da utilidade desses instrumentos. Além disso, a simplicidade dos contratos de eventos pode servir como uma “porta de entrada” para quem nunca operou no mercado de derivativos. Ao contrário dos contratos futuros, que exigem compreensão de ajustes diários, rolagem e margem, os contratos de eventos oferecem um resultado binário claro: ou paga um valor fixo se o evento ocorrer, ou não paga nada caso contrário.

Essa característica reduz o risco inicial, tornando-o um produto mais acessível para iniciantes. “É um produto com menos risco para quem está começando a investir em futuros. Você já sabe de saída qual é o ganho e qual é a perda possível”, afirmou Gerson. A ideia não é competir com os minicontratos futuros existentes, mas sim atrair um novo público, que futuramente poderá migrar para instrumentos mais elaborados.

Desafios da Expansão: Educação Financeira e Regulação

A expansão para o varejo, no entanto, enfrenta barreiras significativas, especialmente na área da educação financeira. Thiago Godoy, fundador do projeto Papai Financeiro e uma figura influente nas redes sociais, revelou que recebe diariamente questionamentos de seguidores sobre o funcionamento desses contratos e suas diferenças em relação às apostas esportivas.

Godoy alertou para casos de usuários que realizam centenas ou até milhares de operações em curtos períodos, o que pode indicar um uso não saudável do produto. “A tecnologia permite acompanhar quantas vezes a pessoa está operando e quanto dinheiro está colocando ali. Isso ajuda a identificar quem está indo por um caminho arriscado”, declarou o especialista.

Outro ponto crítico é a questão da liquidez e da manipulação de preços. Contratos com baixa liquidez (poucos negócios fechados) são mais vulneráveis a manipulações. A B3 e a CVM precisarão monitorar a formação de preços de perto, pois um número menor de participantes pode amplificar a influência de uma única operação sobre as cotações, impactando a proteção do investidor.

Internacionalmente, a fronteira regulatória entre mercados de previsão e apostas esportivas ainda está em debate, como nos Estados Unidos, onde a CFTC (Commodity Futures Trading Commission) disputa espaço com autoridades estaduais. Para Gerson Sanlorenzi, a distinção fundamental está na relação do contrato com fatos econômicos, financeiros ou de política pública, em contraste com eventos esportivos ou de entretenimento.

“Regular esse mercado dentro de uma bolsa formal dá ferramentas para monitorar, prevenir fraude e responsabilizar quem participa”, destacou Sanlorenzi, ressaltando a experiência da B3 com ações e derivativos ao longo de décadas como um trunfo para a nova modalidade. A expansão, portanto, exige mais do que novos produtos: demanda regras claras de negociação, garantia de liquidez e acompanhamento constante dos investidores.

Perguntas Frequentes

O que são contratos de eventos no mercado financeiro?

Contratos de eventos são instrumentos financeiros que permitem aos investidores aplicar recursos com base no resultado de acontecimentos futuros, como a taxa de juros definida pelo Banco Central ou o valor de um indicador econômico, como o IPCA ou o PIB.

Quem pode investir em contratos de eventos na B3 atualmente?

Atualmente, os contratos de eventos na B3 são restritos a investidores institucionais e profissionais, devido a regras de distribuição e regulamentação definidas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Qual a principal diferença entre contratos de eventos e apostas esportivas?

A diferença central, segundo especialistas, está no objeto do contrato: contratos de eventos estão ligados a fatos econômicos, financeiros ou de política pública, enquanto apostas esportivas se referem a resultados de competições ou entretenimento.

Quais desafios a B3 enfrenta para expandir esses mercados ao varejo?

Os principais desafios incluem a necessidade de robusta educação financeira para os investidores, a garantia de liquidez nos contratos para prevenir manipulações de preços e a definição de um arcabouço regulatório claro para proteger o público e evitar usos inadequados.

Como a tecnologia pode auxiliar na expansão dos mercados de previsão?

A tecnologia pode ser fundamental para monitorar o comportamento dos usuários, como a frequência e o volume de operações, ajudando a identificar padrões de uso de risco e, assim, auxiliar na proteção do investidor e na promoção de um mercado saudável.