Enquanto homenageia o líder revolucionário, a ilha enfrenta blecautes e sanções econômicas que colocam o sistema de saúde à beira do colapso.

Nesta quinta-feira (13) culmina um ciclo de celebrações que começou em agosto do ano passado, marcando o centenário do nascimento de Fidel Castro Ruz. O líder da Revolução Cubana, movimento que transformou o regime político e econômico da ilha caribenha em 1959, é homenageado em um cenário de profundas preocupações nacionais.

As festividades ocorrem em meio a uma crise energética severa, um termo que, assim como “centenário”, tem sido constantemente pronunciado por cubanos em Havana e outras regiões. No início de agosto, por exemplo, o país enfrentou dois apagões nacionais em menos de 24 horas, evidenciando a fragilidade da infraestrutura.

Essa conjuntura delicada é agravada pela pressão contínua dos Estados Unidos, que mantém um embargo econômico de longa data. A restrição imposta dificulta a importação de petróleo e derivados, componentes cruciais para a geração de energia e o funcionamento da economia cubana.

Crise Energética e Pressão Americana Afetam o Dia a Dia

A crise energética em Cuba tem como raízes a capacidade limitada de produção elétrica e um sistema obsoleto, somados às sanções americanas. A estatal União Petrolífera de Cuba (Cupet) estima que o país consegue produzir apenas um terço do petróleo necessário para o consumo interno, tornando a dependência externa um ponto crítico.

A falta de energia elétrica não apenas afeta a vida cotidiana dos cidadãos, mas também freia o desenvolvimento econômico. Projeções indicam que a economia cubana pode registrar uma queda de 6,5% em 2026, um cenário preocupante para o futuro da nação.

Especialistas em direitos humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) emitiram um alerta dramático, condenando a pressão dos EUA e conclamando a comunidade internacional a agir rapidamente. O objetivo é evitar uma “Gaza silenciosa” em Cuba, uma comparação à grave situação humanitária vivida na Palestina.

O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, descreve o bloqueio americano como um “genocídio político”, refletindo a visão do governo sobre o impacto das sanções. A pressão americana também empurra o sistema de saúde da ilha, reconhecido internacionalmente por ser universal e gratuito, para a beira do colapso, com alguns cubanos considerando este o pior momento já vivido pelo país. Além das questões econômicas, o ex-presidente americano Donald Trump chegou a sugerir a possibilidade de uma ação militar contra Cuba.

Legado de Fidel Castro: Da Revolução aos Desafios Atuais

Nascido em Birán, um vilarejo rural na província de Holguín, Fidel Castro foi uma figura central no século XX. Sua fazenda natal hoje integra um conjunto histórico. Um dos marcos de sua trajetória foi o ataque ao Quartel Moncada em 26 de julho de 1953, uma tentativa frustrada de derrubar o governo de Fulgencio Batista que o levou à prisão.

Durante seu julgamento, em 16 de outubro de 1953, Fidel proferiu o famoso discurso “A História me Absolverá”. Condenado a 15 anos de prisão, foi anistiado menos de dois anos depois. Em 1955, exilou-se no México, onde conheceu Ernesto “Che” Guevara, seu futuro companheiro na Revolução Cubana.

No México, organizou o Movimento 26 de Julho e, em 2 de dezembro de 1956, desembarcou em Cuba no iate Granma com mais de 80 expedicionários. Após ser atacado pelas forças de Batista, o grupo remanescente do Exército Rebelde refugiou-se nas montanhas de Sierra Maestra, de onde conduziu a guerrilha até o triunfo da Revolução em 1º de janeiro de 1959.

Fidel Castro permaneceu no poder por quase 50 anos. Nos primeiros anos, implementou a nacionalização de empresas e a reforma agrária. Ao longo de seu regime como líder do Partido Comunista, promoveu reformas que ampliaram o acesso à saúde, moradia e à alfabetização em massa da população.

Ele se tornou mundialmente conhecido pela imagem de uniforme militar, barba e charuto. Contudo, o escritor colombiano Gabriel García Márquez, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, destacou uma mudança: “Deixou de fumar para ter autoridade moral para combater o tabagismo”.

No contexto da Guerra Fria, Fidel foi um dos principais aliados e beneficiários da relação com a então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), tornando-se um “vizinho incômodo” para os Estados Unidos. Resistiu a inúmeras tentativas de influência externa para destituí-lo do poder, tanto militares quanto econômicas, como o embargo que persiste até hoje. Fidel também inspirou e foi aliado do ex-presidente venezuelano Hugo Chávez.

Críticas e Violações de Direitos Humanos Marcam o Regime Cubano

Apesar dos avanços sociais, Fidel Castro e seu governo atraíram críticas de dissidentes e organizações internacionais por práticas antidemocráticas, regime de partido único, censura, perseguição a opositores e violações de direitos humanos. A organização Human Rights Watch (HRW) reconhece que o governo cubano desenvolveu “importantes avanços” em questões sociais, direitos econômicos, educação, cultura e saúde.

No entanto, a HRW também afirma que o regime foi marcado pela repressão “de praticamente todas as formas de dissenso”. Em comunicado após a morte de Fidel, a organização declarou que “milhares de cubanos foram encarcerados sob condições deploráveis, milhares de pessoas foram perseguidas e intimidadas, e gerações inteiras tiveram suas liberdades políticas básicas negadas”. A HRW também salientou que o embargo americano serviu para “justificar abusos do regime”.

José Miguel Vivanco, então diretor para as Américas da HRW, afirmou que “durante décadas, Fidel Castro foi o principal beneficiário de uma política de isolamento profundamente equivocada dos EUA, que lhe permitiu se apresentar como vítima e, ao fazê-lo, desencorajar outros governos de repudiar suas práticas repressivas”.

A Anistia Internacional, outra organização não governamental, também reconheceu os avanços sociais em Cuba, mas afirmou que o estado da liberdade de expressão na ilha, “onde ativistas continuam a ser presos e perseguidos por se manifestarem contra o governo, é o legado mais sombrio de Fidel Castro”. A instituição registrou “centenas de histórias de ‘prisioneiros de consciência’ – pessoas detidas pelo governo simplesmente por exercerem pacificamente seus direitos à liberdade de expressão, associação e reunião”. A Anistia Internacional lembrou ainda que, após tomar o poder, Castro “organizou julgamentos de membros do governo anterior, que resultaram em centenas de execuções sumárias”.

O Impacto do Embargo Econômico na Saúde e Economia Cubana

O embargo econômico dos Estados Unidos a Cuba, iniciado em 1962, endureceu após o agravamento das relações entre Washington e Havana. Este período foi marcado pela nacionalização de empresas americanas na ilha, pela falta de acordo sobre compensações e pela aproximação da Cuba revolucionária com a URSS.

A pressão americana atual intensifica os desafios econômicos e sociais. O sistema de saúde cubano, um dos pilares do regime por ser universal e gratuito, encontra-se à beira do colapso devido à escassez de recursos e materiais. Para muitos cubanos, a situação atual representa o pior momento já vivenciado pelo país.

Fidel Castro se licenciou do poder em 31 de julho de 2006, dias antes de completar 80 anos de idade e após 47 anos no comando da ilha, transferindo a liderança.

Perguntas Frequentes

O que está acontecendo em Cuba atualmente?

Cuba celebra os 100 anos de nascimento de Fidel Castro em meio a uma grave crise energética, marcada por blecautes constantes, e sob a pressão intensificada do embargo econômico dos Estados Unidos, que afeta a economia e o sistema de saúde.

Qual a situação da crise energética em Cuba?

A crise energética é severa, com apagões nacionais frequentes, incluindo dois em menos de 24 horas no início de agosto. Ela é causada pela capacidade limitada de produção elétrica em um sistema obsoleto e pela dificuldade de importar petróleo devido ao embargo dos EUA.

O que é o embargo dos EUA a Cuba?

O embargo econômico dos EUA a Cuba é uma série de restrições comerciais e financeiras impostas desde 1962, após a nacionalização de empresas americanas e a aproximação de Cuba com a União Soviética. Atualmente, ele dificulta a importação de bens essenciais, como petróleo, e impacta diretamente a economia e a infraestrutura do país.

Qual o legado de Fidel Castro para Cuba?

Fidel Castro liderou a Revolução Cubana de 1959 e governou por quase 50 anos. Seu legado inclui reformas sociais como nacionalização de empresas, reforma agrária, e expansão do acesso à saúde, moradia e alfabetização. Contudo, seu regime também foi marcado por críticas relacionadas a práticas antidemocráticas e violações de direitos humanos.

Como a ONU se posiciona sobre a situação em Cuba?

Especialistas em direitos humanos da ONU condenaram a pressão americana sobre Cuba, instando a comunidade internacional a agir para evitar uma “Gaza silenciosa”, referindo-se à grave situação humanitária na Palestina. Eles expressam preocupação com o impacto do embargo na vida dos cubanos.