Infraestrutura defasada e escassez global de equipamentos atrasam projetos de armazenamento em até cinco anos, com impacto no Brasil.
Apesar da crescente necessidade energética de data centers e da eletrificação em expansão, que disparam a demanda por eletricidade nos Estados Unidos, a conexão de megabaterias de armazenamento à rede elétrica se tornou um grande desafio. A queda nos preços tornou essas baterias mais atraentes, mas a infraestrutura existente não acompanhou o ritmo.
As redes elétricas, que sofreram com décadas de investimento estagnado, agora correm para se adaptar, gerando uma forte pressão sobre o fornecimento de equipamentos essenciais como transformadores e disjuntores. Com as obras de melhoria atrasando, uma gigantesca fila de projetos de armazenamento se acumula, aguardando conexão.
O cenário é preocupante: a Consolidated Edison, uma grande concessionária de Nova York, reportou um aumento de 300% no volume de projetos à espera nos últimos dois anos. Essa situação nos EUA serve como um alerta para o Brasil, onde o mercado de armazenamento em escala de rede está apenas começando a engrenar.
A Corrida Inesperada e as Filas de Conexão
A dificuldade de conectar novas usinas de energia à rede, especialmente as de armazenamento em baterias, transformou-se em um enorme gargalo. Joseph Rand, pesquisador de política energética do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, afirma que “todo o processo de conectar essas novas usinas ficou muito congestionado, cheio de gargalos”. Segundo ele, a situação “quebrou o processo histórico com que os operadores da rede de transmissão vinham trabalhando havia quase 20 anos”.
Em todo o território americano, aproximadamente 750 gigawatts em projetos de armazenamento aguardam conexão à rede elétrica. Essa capacidade equivale a cerca de 50 usinas de Itaipu. Embora nem todos os projetos se concretizem, muitos desenvolvedores já desistiram devido aos atrasos. O tempo de espera médio, inclusive, disparou de um ano e meio em 2015 para cinco anos em 2025.
Cadeia de Suprimentos Sob Pressão e Mão de Obra Qualificada
Adicionar baterias à rede não é uma tarefa simples. Operadores muitas vezes precisam construir uma infraestrutura completamente nova, incluindo linhas de transmissão e subestações, para lidar com o fluxo de energia bidirecional. A falta de equipamentos-chave, somada à escassez de mão de obra qualificada, encarece e prolonga os prazos dessas melhorias.
Allison Feeney, analista de pesquisa da Wood Mackenzie, destaca que “a combinação de custo e mão de obra limitada está no centro do problema”. Na Califórnia, a PG&E, maior concessionária do estado, informou aos reguladores em janeiro que os longos prazos de entrega de equipamentos especializados são um dos principais motores dos atrasos. A compra de certos disjuntores, por exemplo, pode levar quase quatro anos. A empresa também relatou um aumento de 300% em sua carga de trabalho de conexão.
Exemplos específicos incluem um atraso na troca de disjuntores em uma subestação no condado de Solano, que postergará dois projetos de baterias de 450 megawatts. Na região da Baía, obras em linhas de transmissão colocam outros 800 megawatts de armazenamento em risco de atraso. Paul Doherty, porta-voz da PG&E, explicou que “há fatores fora do controle da PG&E que podem afetar os prazos de conexão, como as restrições nas cadeias globais de suprimentos”. A Southern California Edison, outra grande fornecedora, vê 13 gigawatts de nova geração e armazenamento atrasados por obras inacabadas.
O Potencial das Baterias e o Alerta para o Brasil
Apesar dos desafios, as megabaterias são cruciais para o futuro energético. Elas armazenam eletricidade quando os preços estão baixos e as renováveis são abundantes, descarregando-a quando a demanda sobe. Esse processo ajuda a reduzir a conta de luz do consumidor, descarbonizar o consumo e aliviar a pressão sobre a rede. A Wood Mackenzie projeta que o mercado americano de armazenamento quadruplicará nos próximos seis anos.
No Brasil, o gargalo é diferente: o mercado de armazenamento em escala de rede só terá seu primeiro leilão exclusivo para baterias em dezembro. Este leilão é estratégico, especialmente com a metade da geração nacional vindo de energia solar durante o dia, muitas vezes desperdiçada por falta de demanda. Armazenar essa energia para uso noturno é a solução óbvia. A demanda inicial foi massiva: 6.091 projetos somando 300 gigawatts foram cadastrados para o leilão, o que representa 20 vezes a capacidade de Itaipu.
Contudo, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) ainda vai filtrar esses projetos, e a expectativa do mercado é de algo entre 5 GW e 6 GW contratados. É aqui que a experiência americana se torna um alerta crucial para o Brasil: a fila de equipamentos para adaptar as redes elétricas é global. Transformadores de força e disjuntores de alta tensão são fabricados por poucas empresas no mundo, e todos os países competem pelas mesmas soluções para estocar energia renovável.
Perguntas Frequentes
O que são megabaterias de armazenamento de energia?
Megabaterias são sistemas de grande escala projetados para armazenar eletricidade, geralmente gerada por fontes renováveis como solar ou eólica, e liberá-la na rede quando a demanda é alta ou a produção intermitente dessas fontes diminui. Elas são essenciais para a estabilidade e eficiência das redes elétricas modernas.
Por que a conexão de megabaterias está demorando nos EUA?
A conexão de megabaterias nos EUA está demorando devido a décadas de investimentos insuficientes na infraestrutura das redes elétricas, sobrecarga na cadeia de suprimentos de equipamentos essenciais como transformadores e disjuntores, e escassez de mão de obra qualificada para as obras necessárias. Isso gera filas de projetos e atrasos de até cinco anos.
Como a escassez de equipamentos afeta as redes elétricas?
A escassez de equipamentos como transformadores e disjuntores de alta tensão prolonga significativamente os prazos de entrega e o custo das obras de melhoria nas redes elétricas. Isso impede a modernização da infraestrutura e a conexão de novos projetos de energia, criando gargalos que afetam a estabilidade e a capacidade de fornecimento.
O que o Brasil pode aprender com a experiência dos EUA em megabaterias?
O Brasil pode aprender que, embora o mercado de armazenamento esteja começando, é fundamental planejar a infraestrutura da rede e a disponibilidade de equipamentos em paralelo. Com a competição global por transformadores e disjuntores, antecipar a demanda e garantir a capacidade de conexão será crucial para evitar os mesmos gargalos e atrasos que os EUA enfrentam.
