Cientistas da Universidade de Toronto identificaram mudanças em marcadores biológicos que podem influenciar a saúde cerebral feminina a longo prazo.

A transição para a menopausa está diretamente associada a alterações em proteínas presentes no sangue, que, por sua vez, podem estar ligadas ao envelhecimento do cérebro e ao risco aumentado de Alzheimer. É o que revela um estudo significativo publicado em 22 de setembro na revista Nature Medicine, conduzido por cientistas da Universidade de Toronto, no Canadá.

A pesquisa identificou modificações em processos cruciais do corpo, como a inflamação, o metabolismo e a comunicação entre os neurônios, durante o período do climatério. Esses achados são fundamentais para entender como as variações hormonais que ocorrem na meia-idade podem impactar a saúde cerebral das mulheres nos anos seguintes.

As descobertas oferecem uma nova perspectiva sobre a conexão entre as fases da vida feminina e a predisposição a condições neurodegenerativas. Compreender esses mecanismos pode abrir portas para futuras estratégias de prevenção e tratamento, visando a melhoria da saúde cerebral.

Como as proteínas se modificam na menopausa?

Na fase inicial do estudo, pesquisadores analisaram 80 mulheres com idades entre 43 e 58 anos, divididas em grupos de pré-menopausa, transição e pós-menopausa. Para fins comparativos, 36 homens da mesma faixa etária também foram incluídos na análise. Das 118 proteínas avaliadas no sangue, 16 apresentaram níveis mais elevados após a menopausa, independentemente da idade.

A equipe criou uma pontuação para essas alterações, que mostrou um aumento progressivo ao longo da transição menopausal. Esse padrão esteve mais fortemente associado às flutuações hormonais – especificamente, à redução do estradiol, um estrogênio essencial, e ao aumento do FSH, hormônio ligado ao funcionamento dos ovários – do que à idade das participantes.

Curiosamente, mulheres que relataram suores noturnos também exibiram níveis mais altos de certas proteínas inflamatórias, sugerindo uma ligação entre sintomas e marcadores biológicos. Parte dessas descobertas foi confirmada por uma análise posterior em um grupo maior, de 2.814 mulheres do UK Biobank, no Reino Unido, com idades entre 45 e 60 anos. Modelos baseados nessas proteínas sanguíneas também indicaram sinais de maior envelhecimento biológico do cérebro em mulheres pós-menopausa, quando comparadas a outras da mesma idade.

A ligação entre menopausa e risco de Alzheimer

Para aprofundar a investigação sobre a relação com o Alzheimer, os cientistas examinaram quatro grupos distintos de mulheres mais velhas, totalizando 11.925 participantes. Nessas análises, pontuações elevadas (indicando as alterações proteicas associadas à menopausa) correlacionaram-se com resultados menos favoráveis em avaliações cognitivas, que medem capacidades como a memória e o raciocínio.

Em um dos grupos, que acompanhou 11.059 mulheres por uma média de 15,7 anos, o padrão de proteínas sanguíneas esteve associado a um maior risco de demência por Alzheimer. É importante notar que a associação foi considerada relativamente pequena e não estatisticamente significativa para outros tipos de demência, como a vascular ou a frontotemporal, ou para o conjunto de todas as demências.

Limitações e próximos passos da pesquisa

Os autores do estudo ressaltam algumas limitações importantes da pesquisa. A amostra inicial era pequena, e as proteínas e hormônios foram medidos em um único momento, não permitindo observar a evolução das mudanças ao longo do tempo. Além disso, os sintomas foram relatados pelas próprias participantes, e as proteínas sanguíneas podem ter origem em diferentes tecidos, o que dificulta atribuir as alterações diretamente ao cérebro.

Por essas razões, os pesquisadores enfatizam a necessidade de futuros estudos que acompanhem as mesmas mulheres durante toda a transição menopausal. O objetivo é elucidar os mecanismos complexos envolvidos e identificar possíveis marcadores biológicos e alvos para o desenvolvimento de tratamentos que protejam a saúde cerebral feminina.

Perguntas Frequentes

A menopausa causa Alzheimer diretamente?

Não, o estudo não afirma que a menopausa causa Alzheimer. Ele aponta uma associação entre as mudanças hormonais e proteicas da transição menopausal e um risco maior de desenvolver a doença, sugerindo que a menopausa pode ser um fator que contribui para a predisposição.

Quais proteínas do sangue mudam na menopausa e por quê?

O estudo identificou que 16 das 118 proteínas avaliadas apresentaram níveis mais elevados após a menopausa. Essas alterações estão ligadas a processos como a inflamação, o metabolismo e a comunicação entre os neurônios, e estão associadas à redução do estradiol e ao aumento do FSH.

Como os hormônios femininos afetam essas mudanças proteicas?

A pesquisa mostrou que o padrão de alterações nas proteínas esteve fortemente associado à redução do estradiol (um estrogênio principal) e ao aumento do FSH (hormônio folículo-estimulante). Isso sugere que as flutuações hormonais são um fator chave para as modificações observadas nos marcadores sanguíneos.

É possível prevenir esses riscos associados à menopausa e Alzheimer?

O estudo é um passo inicial para entender os mecanismos envolvidos. Os autores defendem a necessidade de mais pesquisas para esclarecer as conexões e investigar possíveis marcadores e alvos de tratamento para a saúde cerebral. Ainda não há uma recomendação direta de prevenção baseada apenas nestes achados.