Líder do Itaú Ventures alerta: IA acelera a criação e o fim de empresas, impulsionando fundos a reavaliar teses e buscar startups com soluções mais verticalizadas.
A Inteligência Artificial (IA) tem um poder dual no mercado de tecnologia: enquanto acelera o desenvolvimento e lança produtos com agilidade, também pode aniquilar startups em tempo recorde. Essa dinâmica tem forçado os gestores de fundos de Venture Capital (VC) a se tornarem ainda mais rigorosos na hora de definir um novo investimento, alterando a forma como o mercado de inovação opera.
O tema central foi debatido durante o “VC Day”, um evento promovido pela Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP) e pela ApexBrasil, em parceria com o Cubo Itaú e a Associação para Investimento de Capital Privado na América Latina (LAVCA). A discussão trouxe à tona o cenário de alto risco e oportunidades que a IA representa para o ecossistema.
Philippe Schlumpf, líder do Itaú Ventures, o Corporate Venture Capital (CVC) do Itaú Unibanco, resumiu o desafio: “Da mesma forma que em alguns casos você precisa de zero reais para montar uma empresa, essas companhias morrem muito rápido também, ou ainda mais rápido”. A velocidade do mercado imposta pela IA exige uma nova postura dos investidores e empreendedores.
IA e o Risco de Virar 'Feature' no Mercado
Um dos maiores alertas de Philippe Schlumpf é o risco de uma startup, por mais inovadora que seja, acabar se tornando apenas uma funcionalidade para uma plataforma maior. “Hoje é um negócio muito legal, daqui a seis meses virou uma feature da Databricks”, exemplificou, referindo-se à plataforma de dados e IA. Esse cenário exige que as startups pensem em diferenciação estratégica e resiliência.
O Itaú, segundo Schlumpf, tem uma abordagem estratégica que combina análise de soluções externas com desenvolvimento interno, avaliando se é melhor comprar, construir ou fazer parceria. A pergunta predominante hoje não é onde aplicar a IA, mas “onde a gente ainda não tem IA”, o que mostra a amplitude da transformação dentro do banco.
Apesar do entusiasmo, a adoção de IA em instituições financeiras reguladas requer cautela. Schlumpf enfatizou a necessidade de ponderar os riscos, já que modelos de IA operam de forma probabilística. “A principal preocupação é essa: onde a gente aceita erro, onde a gente não aceita erro”, destacou. Por isso, muitos experimentos começam em aplicações internas, com maior margem para ajustes, enquanto soluções para clientes finais exigem controles mais rigorosos para evitar que o “modelo alucine”.
Reavaliação das Teses de Investimento em VC
A onda da Inteligência Artificial está redefinindo as teses de investimento dos fundos de VC e CVC. Phillip Trauer, diretor do Vivo Ventures e da Wayra Brasil, afirmou que essas teses estão em “plena transição” por conta da IA, especialmente com a ascensão dos grandes provedores de tecnologia, os chamados hyperscalers.
O que era atraente há um ano, hoje pode não ser mais. Trauer observou que, com o sucesso de modelos como ChatGPT e Claude, as grandes plataformas estão “subindo no stack” e “eliminando um monte de startups que nasceram há um ou dois anos”. Ele citou soluções horizontais, como geração de código e assistentes pessoais, como as mais vulneráveis. “Tudo que é muito horizontal acho que acaba entrando na zona de strike também, acho que perde muito valor”, alertou.
Em contraste, soluções verticalizadas — aquelas feitas para um setor ou processo específico, que lidam com fluxos críticos e dados sensíveis — tendem a ser mais resilientes à entrada direta de incumbentes e big techs. Trauer também mencionou o uso interno de IA para redução de custos, substituindo sistemas legados e terceirizados (BPOs) por ferramentas mais flexíveis. Na Vivo, agentes de IA já são usados para atendimento, suporte técnico e pagamento de faturas, gradualmente substituindo as unidades de resposta tradicionais.
Menos Capital Inicial, Mais Pressão sobre Fundadores
A IA também tem um impacto significativo nas barreiras de entrada para novos empreendedores. Florian Hagenbuch, cofundador e sócio-gestor da Canary, comentou que hoje se precisa de “zero dólares para começar um negócio”. A produtividade da IA na construção de software reduz a necessidade de grandes equipes técnicas nos estágios iniciais, o que facilita o surgimento de novas empresas.
Essa redução de custo, porém, eleva a importância de avaliar as pessoas por trás de cada projeto. A Canary, que investe em startups nas rodadas iniciais (pre-seed e seed), foca em “entender por que os empreendedores estão começando aqueles negócios, o que faz eles quererem expressar aquilo que eles estão criando”, segundo Hagenbuch.
Gustavo Ahrends, cofundador da Norte Ventures, reforçou a relevância de times técnicos bem preparados na avaliação de startups brasileiras. Ele destacou a qualidade dos engenheiros de computação formados no Brasil, mas ressaltou a raridade de times completos com todas as competências necessárias para escalar um negócio, intensificando a disputa por talentos de ponta.
O Potencial do Brasil em Fintechs e IA
Apesar da concorrência acirrada por profissionais técnicos, Gustavo Ahrends vê o Brasil como um terreno “especialmente fértil”, principalmente no setor de serviços financeiros. “O Brasil é um país de fintech, é um país de crédito, é uma potência disso”, afirmou. Segundo ele, tecnologias como Inteligência Artificial, blockchain e tokenização devem impulsionar ainda mais esse potencial.
Ahrends prevê que a infraestrutura de fintech passará por uma “nova roupagem”, com grandes aplicações em distribuição, atendimento e venda de produtos. Esse cenário promissor, combinado com a adaptação do capital de risco à era da IA, pode moldar um futuro dinâmico para as startups brasileiras.
Perguntas Frequentes
Qual é o principal risco da IA para startups, segundo o Itaú Ventures?
O principal risco é que as startups, mesmo com soluções inovadoras, acabem se tornando meras “features” (funcionalidades) de plataformas maiores e mais estabelecidas, como a Databricks, perdendo sua autonomia e valor de mercado.
Como os fundos de Venture Capital estão adaptando suas teses de investimento à era da IA?
Os fundos estão reavaliando suas estratégias, tornando-se mais seletivos e focando em startups com soluções verticalizadas, que atendam a nichos específicos e lidem com dados sensíveis, em vez de soluções horizontais que são mais vulneráveis à concorrência de grandes provedores de tecnologia.
Por que o Brasil é considerado um terreno fértil para fintechs e IA, segundo a Norte Ventures?
O Brasil é visto como uma “potência” em fintech e crédito, com centros de excelência que formam engenheiros de computação qualificados. A combinação desse mercado robusto com as novas tecnologias de IA, blockchain e tokenização deve impulsionar ainda mais o setor financeiro.
Quais as preocupações do Itaú Unibanco ao implementar IA em suas operações?
A principal preocupação do Itaú Unibanco é gerenciar os riscos de modelos de IA, que operam de forma probabilística. O banco precisa mapear onde pode tolerar erros e onde não pode, priorizando aplicações internas para testes e exigindo controles rigorosos para soluções voltadas ao cliente final, que não podem “alucinar”.
A IA reduz a necessidade de capital inicial para startups?
Sim, a Inteligência Artificial e sua produtividade na construção de software reduzem as barreiras de entrada e a necessidade de grandes equipes técnicas nos estágios iniciais, fazendo com que empreendedores precisem de menos capital para começar um negócio hoje.
