A nova classificação do relevo brasileiro inclui formações com mais de 300 metros de elevação e redefine áreas como a Serra do Mar e Pico da Neblina.
Uma mudança significativa no entendimento da geografia brasileira foi anunciada, com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) reconhecendo oficialmente a existência de montanhas em território nacional. Essa decisão rompe com a ideia de que o Brasil seria composto apenas por planaltos, planícies e depressões, conceito tradicionalmente ensinado nas escolas por décadas.
A revisão é fruto de um trabalho conjunto entre o IBGE e o Sistema Brasileiro de Classificação do Relevo (SBCR). O objetivo é estabelecer critérios técnicos mais precisos para as formações geográficas do país, enriquecendo a descrição da nossa paisagem.
Com essa atualização, o novo mapa morfológico do Brasil passará a contar com cinco categorias principais de relevo, incluindo as recém-oficializadas montanhas. Os dados completos e o novo mapa são aguardados para o fim de setembro, acompanhados de uma nota metodológica detalhando todos os critérios utilizados.
IBGE redefine o relevo brasileiro: O que são montanhas agora?
A classificação de uma formação como montanha vai muito além da simples altitude. Segundo o engenheiro geólogo Fernando Alkmim, professor da Escola de Minas da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC), a definição técnica é clara: “Montanhas são formas de relevo com elevação mínima de 300 metros em relação às áreas ao redor, com topos agudos, encostas íngremes e continuidade espacial. Não podem ser formas isoladas”.
Essa abordagem técnica e o conjunto de características são fundamentais para distinguir as montanhas de outras elevações do terreno. O que muda, na verdade, não é a existência dessas formações, mas a forma como elas são oficialmente classificadas e entendidas pela geografia brasileira.
Montanhas antigas do Brasil: Erosão moldou a paisagem
As montanhas brasileiras, embora agora formalmente reconhecidas, sempre existiram. A razão para não terem sido classificadas assim antes reside em sua idade geológica. Ao longo de milhões de anos, o relevo do país sofreu processos intensos de desgaste, o que naturalmente reduziu a altura das estruturas originais.
Alkmim explica que “as montanhas brasileiras são antigas e foram sendo erodidas pela ação da água, do vento e por alterações químicas e físicas das rochas”. O professor Geraldo Fernandes, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e também membro da ABC, complementa essa visão, afirmando que “o que vemos hoje pode ser entendido como o esqueleto de montanhas que já foram muito mais altas”. Diferente de cadeias como os Andes, que são geologicamente mais jovens e ainda estão em processo de elevação, o Brasil está em uma região geologicamente estável, onde predomina o desgaste ao longo do tempo.
Onde estão as novas montanhas reconhecidas no país?
Mesmo com o novo mapa oficial ainda a ser divulgado, especialistas já apontam para a localização dessas formações em diversas regiões. Cadeias de grande importância, como a Serra do Mar, que se estende pelo litoral do Sudeste e Sul, e a Serra do Espinhaço, que atravessa Minas Gerais e Bahia, são exemplos claros de áreas que se enquadram na nova classificação.
Além dessas, regiões mais elevadas do Norte do Brasil, como a área do Pico da Neblina, no Amazonas — o ponto mais alto do país —, também são consideradas montanhas. O professor Geraldo Fernandes reforça: “Basta olhar um mapa do país para perceber essas formações”. Ele acrescenta que, cientificamente, o critério de altitude relativa já seria suficiente para enquadrar muitas dessas áreas: “Se adotarmos o parâmetro de 300 metros em relação à base, o Brasil possui muitas montanhas, embora nem todas estejam claramente mapeadas de forma integrada”.
Impacto da nova classificação na ciência e políticas públicas
A adoção de critérios mais objetivos para o relevo brasileiro traz benefícios significativos. Fernando Alkmim destaca que “a classificação ajuda porque estabelece parâmetros claros”, facilitando a análise e reduzindo ambiguidades no meio científico. Essa clareza é crucial para pesquisadores e instituições.
Além do aspecto acadêmico, a nova classificação tem um impacto importante na formulação de políticas públicas. Fernandes sublinha que é essencial “construir uma definição mais consensual, que ajude tanto na compreensão quanto na formulação de políticas públicas”. Isso se torna ainda mais relevante porque as áreas de montanha são ecossistemas sensíveis às mudanças climáticas e desempenham um papel vital na distribuição da biodiversidade, exigindo proteção adequada.
Perguntas Frequentes
O que muda na classificação do relevo brasileiro?
A principal mudança é o reconhecimento oficial de montanhas pelo IBGE, que antes classificava o relevo apenas como planaltos, planícies e depressões. Agora, o novo mapa morfológico contará com cinco categorias, incluindo as montanhas, a partir de critérios técnicos mais definidos.
Por que o Brasil passa a ter montanhas oficialmente?
As montanhas sempre existiram, mas a nova classificação do IBGE e do SBCR adota critérios técnicos mais claros, como elevação mínima de 300 metros, topos agudos, encostas íngremes e continuidade espacial. As montanhas brasileiras são antigas e foram erodidas ao longo de milhões de anos.
Quais são exemplos de montanhas no Brasil, segundo o IBGE?
Especialistas citam como exemplos de montanhas as formações da Serra do Mar, que se estende pelo Sudeste e Sul, e a Serra do Espinhaço, que atravessa Minas Gerais e Bahia. Áreas elevadas no Norte, como a região do Pico da Neblina, no Amazonas, também se encaixam na nova definição.
Quando o novo mapa do relevo brasileiro será divulgado?
O IBGE informou que os dados completos e o novo mapa morfológico do Brasil, que incluirá as montanhas, devem ser divulgados no fim de setembro, acompanhados de uma nota metodológica detalhando os critérios adotados na classificação.
