Desde maio, o governo brasileiro aguarda um retorno de Washington para iniciativas de cooperação contra facções, apesar do diálogo recente entre Lula e Trump.
As propostas do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva para intensificar a colaboração com os Estados Unidos no enfrentamento ao crime organizado transnacional permanecem sem uma resposta concreta de Washington. As iniciativas foram apresentadas ao Presidente Donald Trump em maio, durante um encontro na Casa Branca, e desde então, o governo brasileiro aguarda uma posição oficial.
A falta de retorno ocorre em meio a crescentes declarações de autoridades norte-americanas sobre o combate ao crime organizado na América Latina, além de ameaças de adoção de medidas contra o Brasil. O tema voltou a ser central em uma conversa telefônica de mais de uma hora entre Lula e Trump na última sexta-feira, 21 de agosto.
Na ocasião, Lula reforçou a importância da cooperação bilateral, mas também enfatizou que o Brasil possui instrumentos próprios e eficazes para combater as facções criminosas. Apesar de Trump ter sinalizado disposição para reforçar a cooperação, mobilizando altos funcionários, a concretização das propostas de maio ainda não se materializou, segundo interlocutores do governo brasileiro.
Lula apresentou propostas de cooperação em maio
O Presidente Lula e o Presidente Donald Trump se reuniram por aproximadamente três horas na Casa Branca em 7 de maio. Na pauta, além de questões comerciais e minerais críticos, o combate ao crime organizado foi um dos pontos principais.
Naquela oportunidade, Lula convidou os Estados Unidos a se engajarem em iniciativas brasileiras voltadas para o enfrentamento de organizações criminosas e do narcotráfico transnacional. Entre as estruturas apresentadas estavam mecanismos de cooperação policial na Amazônia e ações de articulação regional em segurança.
Lula destacou a estrutura de cooperação policial já estabelecida em Manaus, que reúne representantes de países amazônicos para o compartilhamento de informações no combate a crimes transnacionais. O governo brasileiro também buscava ampliar a cooperação regional no âmbito do Consenso de Brasília e outras iniciativas locais.
Classificação de PCC e CV como terroristas gerou atrito
A ausência de uma resposta às propostas brasileiras coincide com um período de forte tensão entre os dois governos, especialmente após o Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciar, também em maio, a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras.
Essa decisão ocorreu poucos dias após uma reunião entre Donald Trump e o senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que havia solicitado publicamente tal classificação. O episódio aprofundou as divergências estratégicas: enquanto Lula defende cooperação policial e combate ao financiamento, Flávio Bolsonaro prioriza o enquadramento como terrorista.
A classificação dos EUA passou a impor sanções e restrições no sistema jurídico e financeiro norte-americano a pessoas e empresas que apoiem materialmente os grupos. O governo brasileiro se opôs à medida, argumentando que ela poderia afetar questões internas e dificultar a cooperação entre as autoridades dos dois países. Posteriormente, o Departamento de Estado esclareceu que a designação não confere autoridade militar adicional às Forças Armadas dos EUA no Brasil.
Estratégia brasileira foca em asfixia financeira e segurança interna
Na recente ligação com Trump, Lula reiterou que o Brasil não necessita de uma classificação internacional para combater as organizações criminosas em seu território. Conforme informado pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom), Lula descreveu as facções como causadoras de um “terror cotidiano” para populações vulneráveis, mas ressaltou que elas não se confundem com organizações terroristas.
O Presidente também detalhou a estratégia brasileira de combate ao crime organizado, que inclui a asfixia financeira das facções. O governo já apreendeu aproximadamente R$ 17 bilhões em recursos ligados à criminalidade. Outras medidas citadas foram os planos de transformar 138 presídios em unidades de segurança máxima, a implementação de uma Lei Antifacção, e uma proposta de emenda constitucional para ampliar a atuação federal na segurança pública em parceria com os estados.
Lula também mencionou o Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, em Manaus, que promove a troca de informações e ações conjuntas entre agentes de países amazônicos contra o crime transnacional. Trump, por sua vez, respondeu positivamente à defesa de maior cooperação e indicou a intenção de mobilizar membros de alto escalão de seu governo para acompanhar o assunto.
Perguntas Frequentes
Quais são as propostas de Lula sobre crime organizado aos EUA?
O Presidente Lula propôs aos Estados Unidos aprofundar a cooperação bilateral no combate ao crime organizado transnacional, incluindo a participação dos EUA em iniciativas brasileiras como a cooperação policial na Amazônia (Centro de Manaus) e a articulação regional em segurança, como o Consenso de Brasília.
Por que os EUA classificaram PCC e CV como terroristas?
Em maio, o Departamento de Estado dos Estados Unidos classificou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras, após um pedido do senador Flávio Bolsonaro a Donald Trump. Essa designação impõe sanções financeiras e restrições a quem fornece apoio material aos grupos.
Qual a posição do Brasil sobre a classificação de facções criminosas?
O governo brasileiro, liderado por Lula, se opôs à classificação de PCC e CV como terroristas, argumentando que isso pode gerar impactos em questões internas do país e dificultar a cooperação. Lula afirmou que o Brasil tem seus próprios meios para combater essas facções, que exercem um "terror cotidiano" mas não se confundem com organizações terroristas internacionais.
Quais são as estratégias do Brasil para combater o crime organizado?
A estratégia brasileira de combate ao crime organizado inclui a asfixia financeira das facções, com a apreensão de bilhões de reais em recursos. Também abrange planos de transformar presídios em unidades de segurança máxima, a implementação de uma Lei Antifacção e uma proposta de emenda constitucional para ampliar a atuação federal na segurança pública em parceria com os estados.
