América do Sul é hoje o principal polo de descobertas paleontológicas do planeta, superando a Europa e os EUA como referência global na origem e evolução dos dinossauros. A região, especialmente a Patagônia argentina, o noroeste da Argentina, o Rio Grande do Sul brasileiro e os Andes chilenos, acumula achados tão espetaculares que foi chamada de “Eldorado” dos dinossauros — mas, neste caso, o ouro é real e inédito.
Entre as descobertas mais impactantes, destaca-se o Patagotitan mayorum, o maior animal terrestre conhecido, um herbívoro de mais de 35 metros de comprimento encontrado em 2012 na província de Chubut, na Patagônia argentina. “Não foi um caso isolado”, afirma o paleontólogo argentino Fernando Novas. “Houve uma profusão de espécies gigantes ao longo de milhões de anos no período Cretáceo — um verdadeiro sucesso evolutivo”[1].
Outro marco é o Huayracursor jaguensis, identificado em 2018 em La Rioja, no noroeste da Argentina. Com cerca de 230 milhões de anos, é um dos dinossauros mais antigos do planeta, crucial para entender a origem dos dinossauros e dos ancestrais dos mamíferos[1]. No Brasil, o Rio Grande do Sul oferece “uma verdadeira enxurrada de fósseis e espécies”, somando-se às descobertas argentinas desde a década de 1960[1].
No Chile, o Chilesaurus diegosuarezi, descoberto há cerca de 20 anos nos Andes patagônicos, mudou a compreensão sobre a evolução dos dinossauros. “Os grandes achados continentais vêm do Brasil e da Argentina, enquanto os marinhos predominam no Chile”, explica Rodrigo Otero, paleontólogo da Universidade do Chile[1]. A recente confirmação de dinossauros terrestres na praia de Algarrobo, no Chile, junto a plesiossauros marinhos, derruba a ideia de que esses répteis viviam apenas no Jurássico europeu[1].
Novas descobertas, como um elo perdido entre Velociraptor e aves primitivas, e um anquilossauro encontrado em Magallanes, no extremo sul do Chile, derrubam hipóteses construídas no hemisfério norte. “Com novas descobertas, o cenário começa a ser reconfigurado. Em alguns casos, já se pode sugerir que certas linhagens tiveram origem no hemisfério sul”[1].
Brasil, Argentina e Chile formam o “ABC” que lidera a região com disciplina rigorosa, descobertas relevantes e publicações em revistas científicas internacionais de prestígio[1]. “Não se trata apenas de sorte: estamos avançando na interpretação, que envolve ir a campo, buscar os fósseis, prepará-los e propor novidades relevantes”[1]. O aumento de recursos e a formação de profissionais impulsionam essa era de ouro, mas desafios persistem: “Há muito a explorar, mas poucas pessoas pesquisando e pouco financiamento disponível”[1].
Com vastos territórios inexplorados e baixa ocupação humana, a América do Sul oferece condições ideais para novas descobertas. “Podemos encontrar capítulos da história que não existem em outros continentes. Toda vez que vamos a campo há chance de algo novo”[1]. “Ao contrário do Eldorado lendário, aqui é muito provável encontrar coisas espetaculares e inéditas. Quanto mais se explora, mais se descobre. O ouro estará em nossas mãos”[1].
Fonte original: Metrópoles – Ciência.
