O documentário Anatomia do Caos, dirigido por Dandara Ferreira, chega aos cinemas transformando a histórica CPI da Covid-19 em uma narrativa que a cineasta comparou ao reality show Big Brother Brasil. Com a estreia marcada para 2 de julho, o filme retrata a atuação da gestão de Jair Bolsonaro durante a pandemia, mostrando negligência, má gestão e descaso que resultaram em mais de 700 mil mortes no Brasil[1].

"Era viciada. Acabou o Big Brother [Brasil] e a CPI virou o negócio que eu assistia o dia inteiro quando estava em casa sem ter o que fazer", relembra Ferreira em entrevista ao Metrópoles, destacando como o isolamento social e a atenção das redes sociais tornaram o debate sanitário um fenômeno de entretenimento trágico[1]. A indignação da diretora levou-a a filmar as sessões no Congresso Nacional (de abril a outubro de 2021) como se fosse um reality, capturando os personagens centrais, documentos, conflitos e contradições que o país precisava naquele momento[1].

Um dos pontos mais reveladores do documentário é a diferença entre o comportamento dos parlamentares sob a câmera da TV Senado e seus bastidores. "Quando a câmera não está ligada, meio que todo mundo tem uma boa relação nos bastidores. Eles falavam do jogo de futebol e perguntavam da família. Mas quando a câmera está ligada, [os parlamentares] vestem as máscaras e incorporam aqueles personagens que a gente assistiu na televisão", explica Ferreira[1].

Embora Jair Bolsonaro seja uma figura central — ocupando a presidência durante a crise sanitária e sendo o único presidente da redemocratização não reeleito devido à pandemia —, o filme não é apenas sobre ele. "Muita gente foi responsável pela morte de mais de 700 mil brasileiros, mas nunca ninguém foi punido. Bolsonaro, por exemplo, não chegou a ser responsabilizado pela pandemia, mesmo que tenha sido preso pelo 8 de Janeiro", declara Ferreira, afirmando que a atuação dele na pandemia foi mais grave que a tentativa de golpe de Estado[1].

Anatomia do Caos também aborda investigações sobre o "gabinete paralelo", a convocação do empresário Luciano Hang (Havan) e depoimentos de parlamentares como Simone Tebet e Rogério Carvalho, além de dar voz aos familiares das vítimas que buscam memória e justiça[1]. "O filme, na verdade, é sobre uma estrutura de poder e uma vulnerabilidade coletiva. É sobre a responsabilidade histórica e justiça. Porque democracia também é memória", reforça a diretora[1].

A pré-estreia ocorre no 30 de junho, às 19h, no Cine Brasília (Distrito Federal), com sessões seguidas de debates com a presença de Dandara Ferreira[1]. A partir de 2 de julho, o documentário chega a capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus, Recife, Curitiba, Salvador e Fortaleza, com datas disponíveis no perfil da produtora nas redes sociais[1].