O Brasil deu um passo histórico em 2025 com a publicação da Nova Diretriz Brasileira para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero, que introduz a autocoleta de HPV como estratégia oficial no Sistema Único de Saúde (SUS). Esta mudança substitui gradualmente o tradicional exame de Papanicolau pelo teste molecular de DNA-HPV, um método mais sensível e preciso para identificar lesões pré-cancerosas antes do surgimento do câncer[7]. A nova diretriz permite que a coleta da amostra seja realizada não apenas por profissionais de saúde, mas também pela própria mulher, em casa, em clínicas ou em qualquer local conveniente, eliminando barreiras de vergonha, medo e dificuldade de acesso[7].

Por que a autocoleta é crucial?

Muitas mulheres no Brasil não realizam o rastreamento devido à resistência à coleta ginecológica tradicional (por vergonha ou desconforto) ou pela falta de acesso aos serviços de saúde[1]. A baixa adesão ao rastreamento é um dos principais fatores para os cerca de 19 mil novos casos de câncer de colo do útero registrados anualmente no país, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA)[1]. A autocoleta é um método seguro, rápido e indolor, que pode ser realizado em apenas 10 minutos, sem a necessidade de toque ginecológico[1][6]. Estudos clínicos internacionais e programas de rastreamento em condições reais demonstram que a autocoleta apresenta concordância elevada com a coleta feita por profissional de saúde para detecção de HPV de alto risco, especialmente quando o teste molecular é baseado em PCR[2].

Equidade e foco em mulheres negras

Um dos maiores avanços da nova diretriz é o foco na equidade. No Brasil, mulheres negras, urbanas e quilombolas são as mais afetadas pelo câncer de colo do útero e apresentam as maiores taxas de mortalidade, que continuam aumentando[1]. Para combater essa desigualdade, a Rede Previna-se, fundada em 2013 pela professora Marcia Edilaine Lopes Consolaro da Universidade Estadual de Maringá (UEM), lançou em 2024 um estudo transdisciplinar focado em mulheres negras urbanas e quilombolas de diferentes macrorregiões brasileiras[1]. O projeto, contemplado pela Chamada Pública do CNPq, visa avaliar a aceitabilidade e adesão dessas mulheres à autocoleta de HPV, facilitando o acesso ao exame em locais com poucos serviços de saúde[1].

O trabalho é realizado em parceria com Agentes Comunitários de Saúde (ACS) e líderes comunitários, que recebem treinamento para realizar a busca ativa de mulheres negras em Maringá (Paraná), Dourados (Mato Grosso do Sul), Manaus (Amazonas), Natal (Rio Grande do Norte) e Recife (Pernambuco)[1]. Até 600 mulheres receberão dispositivos simples para autocoleta, e todas as amostras serão encaminhadas para laboratórios especializados para identificar tipos de HPV de alto risco, como os 16 e 18, responsáveis pela maioria dos casos de câncer cervical[1][5].

Prevenção 100% possível e novo intervalo de rastreamento

O câncer de colo do útero é praticamente 100% prevenível com vacinação profilática contra o HPV e rastreamento adequado[1]. A nova tecnologia de biologia molecular, 100% nacional e produzida pelo Instituto de Biologia Molecular do Paraná (ligado à Fiocruz), detecta 14 genótipos do HPV e permite identificar a presença do vírus antes de lesões ou câncer em estágios iniciais, inclusive em mulheres assintomáticas[7]. Com essa nova tecnologia, o intervalo de rastreamento passa de 3 anos (Papanicolau) para 5 anos, aumentando a eficiência e reduzindo custos[7]. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda o exame molecular para detecção primária do HPV como estratégia global principal para eliminar o câncer do colo uterino da lista de problemas de saúde pública até 2030[4]. A autocoleta é uma estratégia eficaz e acessível para ampliar o rastreamento entre populações vulneráveis, como mulheres negras urbanas e quilombolas, promovendo maior equidade no acesso à saúde e salvando vidas[1].