Grandes instituições financeiras, como Itaú e Bradesco, implementam sistemas que analisam sinais de risco antes da transação, protegendo clientes e coibindo fraudes.

O Brasil assiste a um crescimento alarmante dos golpes financeiros, especialmente aqueles envolvendo o Pix. Diante da sofisticação dos criminosos e da rápida evolução dos mecanismos de fraude, os bancos brasileiros estão intensificando suas estratégias de combate, buscando novas camadas de proteção para seus milhões de usuários.

A mais recente fronteira nessa batalha é o uso de dados de telecomunicações. Grandes bancos, como Itaú e Bradesco, já implementam sistemas avançados que utilizam informações das operadoras de celular como aliadas para identificar sinais de que uma transação Pix pode estar sendo realizada sob coação ou por meio de engenharia social.

Essa abordagem inovadora, contudo, opera dentro dos limites rigorosos da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) e da regulamentação sobre o compartilhamento de informações. A análise ocorre em tempo real, antes mesmo da conclusão da transferência, combinando o histórico do cliente com dados da transação e do ambiente de telecomunicação.

Tecnologia avança contra fraudes no Pix

O cenário das fraudes digitais exige uma resposta robusta do setor financeiro. De acordo com dados da Serasa Experian, o primeiro semestre deste ano registrou 631.860 tentativas de fraude de identidade no setor de telefonia. Esse número representa um aumento de 51,4% em relação ao mesmo período de 2025, evidenciando a urgência na busca por soluções.

O setor financeiro permanece como o alvo principal dessas ações criminosas, concentrando 61,1% das tentativas identificadas e mostrando um crescimento de 9,5% na comparação anual. Para Leandro Bartolassi, diretor de autenticação e fraude da Serasa Experian, esses números reforçam a necessidade de as instituições financeiras ampliarem suas estratégias de proteção, incorporando diferentes sinais para identificar comportamentos suspeitos.

Os modelos antifraude dos bancos trabalham de forma complexa, mas o objetivo é simples: proteger o cliente. A análise cruza dados da transação, o padrão de comportamento habitual do usuário e informações da conta de destino. Quando há indícios de risco, o banco pode emitir um alerta, solicitar validações adicionais, atrasar a operação ou até mesmo bloqueá-la preventivamente, dependendo da gravidade do caso.

Como bancos usam dados de telecomunicações

A chave para essa nova camada de proteção reside nos sinais provenientes do ambiente de telecomunicações. Os bancos não acessam o conteúdo das chamadas ou a identidade do interlocutor, garantindo a privacidade do cliente. O que é analisado são informações relacionadas à “vida” da linha telefônica, que podem indicar anomalias.

Entre os sinais mais úteis estão o tempo de existência da linha, eventuais trocas recentes de chip, mudanças de aparelho celular, a compatibilidade da localização de rede com o padrão esperado para aquela transação e se o número de telefone já esteve associado a fraudes anteriores. Rafael Garcia, especialista em prevenção a fraudes da Fico, explica que essa integração ocorre diretamente entre a operadora e a plataforma de decisão do banco, sendo consultada tanto na autenticação quanto na tentativa de Pix.

Outros indícios importantes incluem o uso simultâneo de uma mesma linha em mais de um aparelho. Uma chamada telefônica em andamento durante uma transação financeira, embora não configure uma fraude técnica pura, é um forte sinal de alerta para golpes por engenharia social, onde o criminoso induz a vítima a realizar a transferência.

Alertas e proteção extra no Itaú e Bradesco

Grandes players do mercado já estão com essas ferramentas em ação. O Itaú Unibanco, por exemplo, utiliza diferentes sinais de contexto e risco para analisar transações Pix em tempo real. O banco emite alertas de segurança sempre que uma ligação está em curso durante o acesso à conta, buscando conscientizar os usuários e prevenir esquemas onde criminosos induzem vítimas a transferências enquanto estão ao telefone.

Felipe Tambelini, diretor de prevenção a fraudes do Itaú Unibanco, ressalta que “quando há indícios de risco, o banco pode apresentar um alerta contextualizado, solicitar uma validação adicional, temporizar ou negar a operação, além de adotar um bloqueio preventivo, conforme o caso”. O Itaú também mantém uma parceria com o Google no Android para bloquear automaticamente chamadas fraudulentas que tentam se passar pelas centrais do banco.

No Bradesco, além do alerta de ligação em andamento, os clientes contam com o Modo + Proteção. Essa ferramenta permite definir locais seguros para realizar transações Pix, adicionando uma camada de segurança que considera a localização cadastrada pelo cliente. André Augusto Andrade, gerente sênior de prevenção a fraudes do Bradesco, explica que “a informação de que o cliente está em uma chamada pode ser utilizada como um indicativo adicional de risco dentro dos mecanismos de proteção e monitoramento da transação”. O banco também analisa sinais do número de origem de chamadas feitas ao Fone Fácil, como histórico e correspondência com o número cadastrado.

A colaboração para um sistema mais seguro

O combate eficaz aos golpes e fraudes depende de uma colaboração ampla entre bancos, empresas de tecnologia, operadoras de telecomunicações, entidades setoriais e órgãos reguladores. Essa sinergia é fundamental para desenvolver e aprimorar os mecanismos de segurança.

Um exemplo dessa colaboração é o serviço Origem Verificada, utilizado pelo Itaú por meio da ABR Telecom, contratada pela Anatel. Esse serviço atua nos troncos telefônicos – as conexões que transportam chamadas entre diferentes redes – ajudando a validar a identidade e a origem de uma ligação e a combater a falsificação de números, conhecida como spoofing.

Ainda que alguns bancos não detalhem todas as regras de seus modelos por questões de segurança, a premissa é clara: nenhum sinal é avaliado isoladamente. Felipe Tambelini, do Itaú, explica que os modelos analisam a coerência da transação com o comportamento habitual do cliente, considerando valor, destino, reputação da conta recebedora, risco do QR Code, dispositivo e contexto de uso.

Perguntas Frequentes

O que são dados de telecomunicações usados pelos bancos?

São informações sobre a linha telefônica, como tempo de existência, troca recente de chip, mudanças de aparelho, localização da rede e se o número já foi associado a fraudes. Os bancos utilizam esses dados para identificar padrões de risco em transações.

Os bancos têm acesso ao conteúdo das minhas ligações?

Não, os bancos não acessam o interlocutor nem o conteúdo das ligações telefônicas. A análise se concentra nos sinais de contexto da linha, respeitando a privacidade dos clientes e as normas da LGPD.

Como essa nova tecnologia protege o cliente?

Ao analisar esses sinais em tempo real, antes da conclusão da transação Pix, os bancos conseguem identificar indícios de golpes. Eles podem então emitir alertas, solicitar validações adicionais, temporizar ou até mesmo bloquear a operação suspeita, protegendo o dinheiro do cliente.

Quais bancos já utilizam essa estratégia?

Itaú e Bradesco já implementaram essa tecnologia para barrar golpes no Pix. Outros bancos também estão explorando ou desenvolvendo soluções semelhantes para reforçar a segurança de seus clientes.

O que é o Modo + Proteção do Bradesco?

É uma ferramenta do Bradesco que permite aos clientes definirem locais seguros para realizar transações Pix. A funcionalidade adiciona uma camada de proteção ao considerar a localização cadastrada pelo cliente durante a jornada da transação, complementando a análise de dados de telecomunicações.