Em um cenário desafiador para a inflação, o Banco Central (BC) manteve o ciclo de redução dos juros, cortando a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, passando de 14,5% para 14,25% ao ano. A decisão, divulgada na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) nesta terça-feira (23), baseia-se na premissa de que as “melhores práticas” de política monetária recomendam não reagir integralmente a variações de preços originadas por choques de oferta — eventos inesperados como conflitos armados e fenômenos climáticos[1][3].

Este é o terceiro corte consecutivo desde março, após um período de estabilidade em 15% ao ano entre junho de 2025 e março de 2026, o maior nível em quase 20 anos[1]. O Copom enfatiza que as flutuações de preços envolvem incertezas relevantes, especialmente as pressões do conflito no Oriente Médio sobre os preços globais de petróleo e combustíveis, além dos impactos climáticos ainda em projeção do fenômeno El Niño[3][4].

“No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio”, diz a ata[3].

Em maio, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) fechou em 0,58%, com o acumulado de 12 meses em 4,72%, já fora da meta de inflação, que varia de 1,5% a 4,5%, segundo o IBGE[4]. A previsão do mercado financeiro para o IPCA este ano é de 5,33%, e de 4,15% em 2027[4].

O BC enfatiza que adoção de trajetórias de Selic menos discrepantes em relação às previsões dos analistas é mais adequada para evitar volatilidade excessiva nos ativos financeiros e agregados macroeconômicos[4]. Durante o encontro, foram debatidas simulações com diferentes combinações de pausas e retomadas do ciclo de juros, mostrando trajetórias alternativas compatíveis com a suavização macroeconômica e convergência da inflação para o centro da meta no primeiro trimestre de 2028, novo horizonte relevante oficial do BC[4].

Diante da resiliência da atividade econômica doméstica, que continua surpreendendo positivamente e dificultando a desaceleração da inflação de serviços, os diretores indicaram que os próximos passos da taxa de juros serão ajustados conforme novos dados econômicos. “No contexto atual de incerteza em níveis historicamente elevados, com riscos assimétricos na direção altista para os preços, o Comitê reitera que a magnitude do ciclo de calibração será ajustada à luz da evolução do cenário, de forma a assegurar a convergência da inflação à meta”, conclui o BC[4].