O BTG Pactual não confirma oficialmente a desistência da compra do Banco Digimais, mas também não nega a possibilidade de avançar com as negociações. A informação foi enviada na quarta-feira (24/6) à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), em resposta a um ofício que exigia esclarecimentos após reportagem do Estadão sobre o recuo da aquisição[1]. O diretor de Relações com Investidores do banco, Renato Hermann Cohn, assinou o comunicado, que adota um tom cauteloso ao afirmar que o BTG “está acompanhando as recentes notícias envolvendo o Digimais”[2].
A CVM pediu ao BTG que esclarecesse se a notícia de desistência era verídica e justificasse por que o caso não foi tratado como fato relevante. O órgão determinou que a resposta fosse enviada pelo Sistema Empresa.NET e exigiu a transcrição integral do ofício, com multa de R$ 1.000 por descumprimento[1]. Em sua resposta, o BTG não confronta diretamente as afirmações do Estadão, que citam fontes ligadas à transação como “principal probabilidade” de recuo após buscas da Polícia Federal (PF) contra dirigentes do Digimais[2].
O banco explica que a operação nunca foi fechada, pois dependia de um processo competitivo supervisionado pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e de uma proposta vencedora declarada — etapas que, segundo o BTG, “nenhuma foi verificada até o presente momento”[1]. Assim, o BTG sugere que não havia, tecnicamente, uma compra para ser abandonada, apenas uma intenção condicionada a etapas que não ocorreram[1].
A incerteza aumenta após a Operação Miragem, deflagrada pela PF na terça-feira (23/6) em São Paulo, que cumpre nove mandados de busca e apreensão contra o Digimais e empresas ligadas ao grupo[2]. A PF apura se dirigentes da instituição cometeram fraude organizada, com adulteração de balanços para simular boa saúde financeira. A Justiça Federal de São Paulo autorizou o bloqueio de R$ 670 milhões em bens dos investigados, entre eles o bispo Edir Macedo, além da suspensão do sigilo bancário e fiscal[2].
A investigação chega após meses de deterioração na situação do Digimais. Em dezembro de 2025, a auditoria Clifton Larson Allen Brasil (CLA) apontou que não conseguiu obter evidências suficientes sobre cerca de R$ 3 bilhões em investimentos do banco[1]. Na véspera da operação policial, a agência de classificação de risco Fitch rebaixou e retirou sua avaliação sobre o Digimais, justificada pela falta de informações atualizadas e incertezas em torno da venda ao BTG[1].
O Digimais nasceu em Porto Alegre, em 1981, fundado pela família da varejista de moda Renner para financiar clientes de suas lojas[1]. A parceria com a Record começou em 2009, quando Edir Macedo comprou uma fatia do banco, assumindo o controle total em 2020 e reformulando a marca para focar no público digital e na base de fiéis da Igreja Universal[1]. A busca por um comprador já durava mais de um ano antes do anúncio do BTG. O Bluebank chegou a fechar a aquisição no início de 2024, mas recuou após o escândalo do Banco Master. O Nubank também avaliou o ativo em 2025 e igualmente desistiu pouco depois[1].
Em abril deste ano, o BTG foi a única instituição que se animou a seguir adiante, assinando documentos vinculantes condicionados ao suporte do FGC e a aportes adicionais do próprio Macedo[1]. Pelas novas regras do FGC, estabelecidas após o escândalo do Banco Master, o fundo precisa abrir qualquer operação de suporte a outras propostas antes de formalizar um aporte. Estimativas de mercado apontam que o total de recursos do FGC destinado ao Digimais poderia chegar a R$ 8 bilhões, em um momento em que o fundo já enfrenta compromissos pesados com o próprio caso Master e o Banco Pleno[1].
Procurado pelo Finsiders Brasil, o FGC informou que não comenta situações envolvendo instituições associadas e que não pode se manifestar sobre o caso sem a decretação da liquidação[1]. O Digimais ainda não se manifestou publicamente sobre a Operação Miragem nem sobre o comunicado enviado pelo BTG à CVM[2].
