Abiec alerta para demissões e licenças coletivas em frigoríficos brasileiros após cortes chineses, com Europa ainda sendo um risco.

O setor brasileiro de carne bovina já sente os efeitos da decisão da China de limitar as importações, com a redução dos embarques para seu maior mercado externo gerando ondas por toda a cadeia produtiva. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) confirmou nesta quinta-feira (16) que os frigoríficos enfrentam a escassez de opções para os grandes volumes de carne que tradicionalmente seriam destinados ao país asiático.

Essa mudança no mercado chinês coincide com outro desafio significativo: o Brasil corre o risco iminente de perder acesso ao mercado europeu devido a questões regulatórias. Diante desse cenário complexo, empresas aceleraram as exportações para a China no primeiro semestre, antes das restrições entrarem em vigor, enquanto Estados Unidos e Rússia ganham um pouco mais de espaço.

Apesar da recuperação de outros compradores, o presidente da Abiec, Roberto Perosa, enfatiza que nenhum deles possui o mesmo apetite da China. As salvaguardas impostas pelo país asiático devem durar três anos, o que exige um ajuste prolongado e estratégico da indústria brasileira para lidar com essa nova realidade.

Impacto Profundo na Cadeia Produtiva da Carne Brasileira

A imposição de cotas de importação pela China está gerando consequências severas, que se espalham por toda a cadeia produtiva da carne bovina no Brasil. Roberto Perosa, presidente da Abiec, ressaltou em coletiva de imprensa que “não existe outro comprador com o apetite da China”, e que “nenhum outro mercado consegue absorver os volumes que a China compra”. Segundo ele, não há, neste momento, perspectiva para novas negociações com o país asiático.

As repercussões já são visíveis e impactam diretamente pecuaristas, frigoríficos, operadores de câmaras frias e até mesmo empresas farmacêuticas, que dependem dos subprodutos do gado. Alguns frigoríficos já iniciaram processos de demissão, enquanto outros adotaram a medida de licença coletiva para ajustar suas operações à demanda significativamente mais fraca.

Com as salvaguardas chinesas previstas para durar três anos, o setor se prepara para um período de ajuste prolongado, e não apenas uma desaceleração temporária. Perosa sugere que esse ambiente de maior dificuldade pode, inclusive, acelerar a consolidação da indústria, com grandes empresas potencialmente adquirindo concorrentes menores à medida que as margens de lucro são pressionadas.

O Limite Chinês e a Projeção de Queda nas Exportações

O Brasil já esgotou a cota preferencial de exportação de carne bovina para a China, que era de 1,1 milhão de toneladas métricas, sujeita a uma tarifa reduzida de 12%. Isso significa que qualquer volume exportado acima desse limite agora enfrenta uma tarifa adicional substancial de 55%, tornando a venda muito menos competitiva e atrativa para os compradores chineses.

A Abiec projeta uma queda significativa nas exportações brasileiras de carne bovina para a China. A expectativa é que esses números recuem drasticamente em relação às cerca de 1,65 milhão de toneladas que estavam previstas para 2025 antes da entrada em vigor das restrições. Essa mudança brusca impacta diretamente o planejamento e a receita das empresas exportadoras.

No cenário total, as exportações brasileiras de carne bovina devem registrar um recuo de cerca de 10% neste ano. A expectativa é que o segundo semestre traga consigo preços de exportação mais baixos, refletindo a diminuição da disputa internacional pela carne produzida no Brasil, o que pode afetar a rentabilidade do setor.

Desafios na Europa e Novas Oportunidades nos EUA

Além das restrições chinesas, o Brasil enfrenta um cenário de incerteza crescente em relação ao mercado europeu. O país corre o risco de ser excluído desse bloco importante por ainda não ter se adequado às regras da União Europeia contra o uso excessivo de antimicrobianos em animais destinados à produção de alimentos. Essa pauta é um ponto crítico nas negociações atuais.

Embora a União Europeia represente uma fatia menor das exportações brasileiras de carne bovina em comparação com a China, suas decisões podem ter um impacto global. Roberto Perosa explica que “quando a União Europeia toma uma decisão, isso afeta o mundo inteiro, mesmo que os volumes que vendemos para lá sejam relativamente pequenos”. Ele acrescenta que o setor está trabalhando para encontrar uma solução que permita manter os fluxos comerciais com o bloco, com propostas técnicas sendo apresentadas às autoridades brasileiras.

Em meio a esses desafios, o mercado dos Estados Unidos surge como uma possível alternativa para a carne brasileira. A oferta no país americano está restrita e os preços elevados devido à redução do rebanho bovino. Apesar de os embarques brasileiros para os EUA nos primeiros cinco meses do ano terem ficado abaixo dos níveis de 2025, o país deve importar um volume recorde de carne bovina neste ano. Além disso, a carne brasileira ficou fora das tarifas adicionais de 25% anunciadas recentemente pelos EUA para a maioria dos produtos do Brasil, o que representa uma vantagem competitiva.

Estabilidade do Rebanho vs. Equilíbrio de Mercado

Apesar de todas as turbulências nas exportações, o rebanho bovino brasileiro deve manter uma relativa estabilidade. As projeções indicam cerca de 195 milhões de cabeças em 2026, número que se mantém praticamente no mesmo nível do ano passado. Essa estabilidade na oferta contrasta com a instabilidade na demanda externa, criando um desafio de equilíbrio para a indústria.

O mercado doméstico continua sendo a principal fonte de demanda para a indústria da carne no Brasil, absorvendo a maior parte da produção. No entanto, as exportações sempre desempenharam um papel fundamental na manutenção do equilíbrio entre oferta e demanda, evitando um excedente que pudesse deprimir os preços internos e afetar a rentabilidade dos produtores.

Com a drástica redução do apetite da China e o aumento das incertezas no mercado europeu, a tarefa de equilibrar a oferta e a demanda da carne bovina brasileira tornou-se consideravelmente mais difícil. O setor precisa se reinventar e buscar novas estratégias para lidar com este cenário desafiador e encontrar a melhor destinação para sua produção robusta.

Perguntas Frequentes

Por que a China reduziu as compras de carne bovina do Brasil?

A China impôs uma cota de importação para a carne bovina brasileira, limitando o volume que pode entrar no país com tarifa reduzida. Ultrapassado o limite de 1,1 milhão de toneladas métricas, o produto enfrenta uma tarifa adicional de 55%, tornando-o mais caro e menos competitivo.

Qual o impacto das restrições chinesas nos frigoríficos brasileiros?

A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) reporta que os frigoríficos brasileiros estão com menos alternativas para os grandes volumes de carne. Isso já resultou em demissões e licenças coletivas de funcionários, além de pressionar as margens de lucro e poder acelerar a consolidação do setor.

O que a Abiec espera para as exportações de carne bovina do Brasil em 2024 e 2025?

A Abiec espera uma queda significativa nas exportações para a China em relação às 1,65 milhão de toneladas previstas para 2025. As exportações totais brasileiras de carne bovina devem recuar cerca de 10% neste ano, com expectativa de preços menores no segundo semestre devido à menor disputa pela carne brasileira.

O Brasil pode perder o acesso ao mercado europeu?

Sim, o Brasil enfrenta a possibilidade de ser excluído do mercado da União Europeia por não cumprir as regras contra o uso excessivo de antimicrobianos em animais. O setor está em negociações e apresenta propostas técnicas para manter o acesso a esse mercado, apesar de seu volume ser menor que o da China.

Existem alternativas para a exportação de carne bovina brasileira?

Sim, os Estados Unidos têm se mostrado uma alternativa promissora, com oferta restrita e preços elevados devido à redução do rebanho local. Além disso, a carne brasileira não foi afetada pelas tarifas adicionais de 25% impostas recentemente pelos EUA. A Rússia também recuperou relevância como comprador.