Uma empresa do senador Ciro Nogueira (PP-PI) vendeu uma fazenda avaliada em R$ 18,7 milhões, localizada no município de Pedro II, no Piauí, para uma offshore sediada nos Emirados Árabes Unidos. A operação foi formalizada em março de 2025 e envolve a companhia Arraf International, criada apenas dois meses antes da aquisição da propriedade rural[1].

A compradora, Arraf International, está registrada na zona franca do aeroporto de Sharjah, região conhecida por oferecer elevado grau de sigilo corporativo e dificultar a identificação dos proprietários das empresas ali registradas[1]. Pelas características societárias da companhia, sabe-se apenas que ela possui um único controlador, cuja identidade não é pública[1].

Na negociação, a offshore foi representada pelo advogado Gustavo Frazão, que atua em mais de 20 processos ligados a companhias associadas ao senador e também ocupa cargo comissionado na Prefeitura de Teresina[3]. A venda foi feita pela empresa Fazendas Reunidas Nogueira Lima, e a escritura, assinada em 27 de março de 2025, teve representação formal do mesmo advogado e participação de familiares do parlamentar[3].

A venda do imóvel ocorreu no mesmo período em que o senador teria recebido dinheiro e vantagens do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, segundo investigações da Polícia Federal[2]. Entre 2024 e 2025, Vorcaro transferiu ao menos R$ 6 milhões ao senador por meio de empresas ligadas a ele[1].

Quando o assunto veio à tona, o senador afirmou, por meio de sua assessoria, que "nem ele nem ninguém da família dele é proprietário de nenhuma empresa fora do Brasil"[2]. No entanto, dados da Polícia Federal indicam que Nogueira detém 99% do capital da empresa Fazendas Reunidas, enquanto seu irmão, Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, representa a empresa na escritura[1]. Raimundo também é investigado pela Polícia Federal e atua como uma espécie de laranja do senador[1].

A fazenda possui 2.410 hectares, o que a coloca como uma propriedade de médio porte no Piauí[3]. A venda não é a única de Nogueira para empresas sediadas no exterior: a CNLF vendeu um apartamento no Jardim Paulista, em São Paulo, por R$ 6,5 milhões em abril de 2025 para a Aliqum Participações, que pertence a uma offshore nas Ilhas Virgens Britânicas[1].

O senador foi alvo de operação da Polícia Federal em 7 de maio, desdobramento da apuração sobre fraudes cometidas por Daniel Vorcaro. Documentos da operação descrevem uma relação entre Nogueira e Vorcaro marcada por "elevado grau de intimidade, confiança e proximidade", com registros que vão desde hospedagem em hotéis de luxo na Europa até repasses milionários[1].

Entre as principais suspeitas da PF está a de que o senador recebia quantias repassadas por Felipe Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro, além de pagamentos de outras despesas pessoais, como viagens de jatinho[1]. Felipe Vorcaro foi preso temporariamente, enquanto a PF suspeita que Ciro defendia os interesses de Vorcaro no Congresso, como a apresentação de uma emenda que ampliaria a cobertura do FGC[1].

Desde que os detalhes das investigações da PF vieram à tona, na última terça-feira (16), Nogueira não se manifestou. Quando o assunto veio à tona em maio, o senador disse que era mentira que havia reproduzido na íntegra a emenda Master, a pedido de Vorcaro, e negou ter recebido dinheiro ilícito[1].