Uma empresa de Alex Leandro Bispo dos Santos, identificado como membro relevante do Primeiro Comando da Capital (PCC) no estado de São Paulo, foi subcontratada pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB) para instalar pontos de wi-fi em favelas da capital paulista. O contrato, que chegou a R$ 12 milhões, foi firmado no âmbito do programa WiFi Livre da Prefeitura de São Paulo, que teve um convênio inicial de R$ 108 milhões com o ICB, organização ligada à empresária Karina Gama, produtora do filme "Dark Horse", sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro.
A Polícia Civil de São Paulo deflagrou nesta segunda-feira (1) uma operação no ICB para investigar supostos desvios de recursos públicos relacionados ao contrato. Uma das linhas de apuração busca esclarecer se parte dos recursos destinados ao projeto de instalação de pontos públicos de wi-fi foi utilizada para financiar a produção cinematográfica sobre Bolsonaro[1]. Segundo a Polícia, o ICB repassou R$ 1,3 milhão a uma empresa cujo um dos sócios era dirigente da própria entidade, o que é vedado pela legislação devido ao conflito de interesses[4].
A empresa de Santos, a Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda., foi subcontratada pelo ICB para a implantação de 2.000 pontos de wi-fi em comunidades das zonas oeste e sul da capital paulista[1]. Um extrato obtido pela Folha aponta o pagamento de R$ 2 milhões em 7 de julho de 2025[1]. Na ficha policial de Santos constam ao menos três condenações por roubo, que o levaram a passar por 13 presídios em quase 13 anos no sistema, com condenações que somam 34 anos[1]. A defesa dele nega ligação com a facção criminosa e afirma que seu cliente não cometeu feminicídio, crime que o levou à prisão em novembro de 2025[1].
A Polícia Civil apontou indícios de sobrepreço na execução do programa WiFi Livre SP ao comparar os valores cobrados pelo ICB com os praticados pela Prodam, empresa de tecnologia da Prefeitura de São Paulo[2]. O Tribunal de Contas do Município teria apontado ao menos 20 irregularidades no chamamento público que resultou na contratação do ICB, incluindo a utilização de critérios considerados genéricos para a escolha de uma organização social sem experiência prévia no setor de telecomunicações[2].
O Instituto Conhecer Brasil afirmou que a contratação da Favela Conectada foi feita por eles, sem indicação da Prefeitura de São Paulo ou da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia[1]. A entidade diz que, à época da contratação, a empresa apresentava documentação regular e não havia impedimento legal ou restrição formal que inviabilizasse a contratação[1]. A Prefeitura de São Paulo afirmou que sua relação jurídica ocorre exclusivamente com o ICB e que não há vínculo contratual direto entre município e a empresa ou seu administrador[1].
A produção do filme "Dark Horse" não recebeu recursos municipais, segundo a Prefeitura de São Paulo, que negou qualquer relação entre os recursos municipais e a produção do filme sobre Bolsonaro[1]. A administração repudia qualquer tentativa de criar relações entre ações do Município e a produção cinematográfica do filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro[1].
Segundo a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT), não há irregularidades confirmadas até o momento nas investigações em andamento[1]. A secretaria afirma ainda que o termo de colaboração firmado com o ICB prevê mecanismos de fiscalização, incluindo acompanhamento de metas, indicadores de desempenho e análise da prestação de contas[1].
