Para a Copa do Mundo de 2026, a Globo não terá todos os jogos nem exclusividade de nenhuma partida. Pela primeira vez em décadas, a emissora transmitirá apenas cerca de 55 jogos (metade dos 104 da competição), enquanto o canal CazéTV, do YouTube, assumirá o protagonismo com a transmissão completa dos 104 jogos, gratuitamente, na plataforma e na Twitch[1][2].
A decisão marca uma mudança histórica: a Globo, que durante anos controlou a distribuição da Copa pela TV aberta e por assinatura, agora compartilha o direito com outras plataformas, incluindo Amazon, Record e YouTube/CazéTV[1]. A seleção brasileira e a grande final são cláusulas pétreas — todos os canais que compraram o pacote de 52 jogos têm direito automático de transmitir[2]. Para as demais partidas, a escolha é feita por rodízio alternado: uma escolhe um jogo, a outra escolhe o outro[2]. Isso pode levar a situações como a CazéTV transmitindo França vs. Argentina nas oitavas, enquanto a Globo fica com Senegal vs. Equador no mesmo dia[2].
O cenário é fruto de uma disputa bilionária por direitos esportivos negociados em dólar, sujeitos à volatilidade do câmbio. A Globo havia fechado contrato com a FIFA em 2015 para pagar US$ 90 milhões ao ano até 2022, mas, durante a pandemia, tentou revisão do valor — o que gerou disputa judicial e, por fim, um acordo fora dos tribunais, mantendo o mesmo valor, mas com pacote de jogos mais modesto para 2026[1].
Segundo relatório do Itaú BBA, a TV aberta deve recuar de 33% da verba publicitária brasileira em 2021 para 20% em 2030, enquanto o digital avança de 56% em 2025 para 67% no fim da década. Só o YouTube concentra 21% do consumo de vídeo no país, acima de todos os serviços de assinatura somados[1].
A Globo, por sua vez, adotou a estratégia de “compra seletiva” de direitos, equilibrando investimento com apetite do mercado publicitário. Em 2025, o Ebitda da emissora saltou 57%, e a margem Ebitda passou de 9,5% para 13,4%, refletindo uma operação mais eficiente, mesmo após demissões e reestruturações em 2020 e 2021[1].
Para enfrentar a concorrência, a Globo criou a GE TV, canal gratuito com linguagem informal, e mantém canais no YouTube e no Prime Video. A CazéTV, por outro lado, defende que seu modelo elevou 110% a receita anual dos clubes, enquanto a negociação da Globo com a Libra teria gerado aumento inferior a 30%[1].
A Copa de 2026, portanto, não é apenas um evento esportivo, mas um símbolo da fragmentação do mercado de mídia e da ascensão do streaming como novo protagonista da cultura esportiva no Brasil[1][2].
