Enquanto Brasil enfrenta Japão, Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) lida com milhões de painéis solares fora de controle e a busca por soluções.

Quando a seleção brasileira entrar em campo para enfrentar o Japão na Copa do Mundo, no início da tarde de uma segunda-feira (29), os olhos dos operadores do sistema elétrico do país estarão atentos não apenas ao placar, mas à estabilidade da rede. Milhões de brasileiros deixarão suas atividades para acompanhar o jogo, gerando oscilações de demanda que tradicionalmente são absorvidas por hidrelétricas e termelétricas.

No entanto, um novo e imprevisível desafio surge: a vasta quantidade de painéis solares instalados em telhados de residências e empresas. Esses sistemas, que respondem por quase 20% da capacidade de geração instalada no Brasil, operam em grande parte fora do controle direto do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

A intermitência da geração solar, combinada com a queda brusca na demanda durante jogos do Brasil, pode criar um desequilíbrio perigoso, elevando o risco de apagões em um ano eleitoral, conforme informação divulgada por InvestNews – Economia.

O Desafio da Geração Solar Distribuída para a Rede Elétrica do Brasil

A energia solar distribuída, construída nos últimos 15 anos com incentivos governamentais, representa uma parcela significativa da matriz energética brasileira, pouco menos da metade da capacidade das usinas hidrelétricas. Diferente de grandes parques eólicos ou solares, a produção desses milhões de painéis em telhados depende diretamente da incidência do sol, dificultando o controle do ONS e a estabilidade da rede elétrica brasileira.

Eventos como o primeiro jogo do Brasil em um dia útil nesta Copa do Mundo servem de teste para a capacidade da rede de absorver grandes oscilações. Durante a Copa de 2022, o consumo de eletricidade caiu cerca de 15% abaixo da média enquanto a seleção brasileira jogava, segundo dados do ONS. Se o desequilíbrio entre oferta e demanda não for corrigido rapidamente, a rede pode se tornar instável, aumentando o risco de apagões.

O risco não é meramente teórico. O apagão de grandes proporções que atingiu Espanha e Portugal em 2025, embora multifatorial, alertou o Brasil sobre a pressão do rápido crescimento das fontes renováveis intermitentes. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) destaca que a expansão dessas fontes “cria desafios operacionais, especialmente em períodos de baixa demanda por eletricidade combinada com alta geração”, como domingos e feriados.

Curtailment: O Efeito Colateral da Transição Energética Brasileira

Sem conseguir gerenciar diretamente a geração distribuída dos telhados, o ONS tem recorrido a cortes nas fontes que consegue administrar, começando pelos grandes empreendimentos renováveis. Essa prática, conhecida como curtailment, que é a redução controlada da produção, gerou um efeito colateral preocupante na transição energética brasileira e nos investimentos em energia renovável.

Uma política criada para incentivar a energia limpa acabou por enfraquecer a atratividade de grandes investimentos privados em projetos renováveis de escala industrial. No ano passado, o ONS determinou cortes equivalentes a cerca de 20% da geração renovável do país. Segundo a consultoria Volt Robotics, esses cortes obrigatórios custaram aproximadamente R$ 6,5 bilhões aos operadores eólicos e solares em 2025.

A Atlas Renewable Energy, por exemplo, suspendeu planos de investir US$ 1 bilhão em novos projetos, citando a “falta de clareza e de soluções estruturais para desafios como o curtailment”. Victor Iocca, diretor de energia elétrica da Abrace, ressalta que “as partes que mais sofrem hoje com os cortes são justamente as empresas industriais que contrataram esses projetos anos atrás com incentivos governamentais”.

Armazenamento por Baterias: A Solução para a Estabilidade da Rede Elétrica

A Associação Brasileira de Geração Distribuída (ABGD) estima que existam 4 milhões de unidades de geração distribuída em operação no Brasil, majoritariamente painéis solares residenciais e empresariais, abastecendo cerca de 21 milhões de pessoas. Para a ABGD, o armazenamento por baterias é a forma mais eficiente de aliviar a pressão sobre o sistema elétrico nacional e garantir a segurança energética.

As baterias permitiriam armazenar o excedente de energia produzida em momentos de alta irradiação solar e vendê-lo posteriormente, quando os preços forem mais altos ou a demanda aumentar. Esse modelo poderia, no futuro, substituir os subsídios atuais, garantindo a viabilidade econômica da energia solar distribuída e a estabilidade da rede elétrica.

O armazenamento em baterias está entre as alternativas estudadas pelas autoridades, em diálogo com propostas para ampliar as exportações de eletricidade para países vizinhos. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, enfatizou a necessidade de avanços no “arcabouço técnico e jurídico capaz de dar segurança às soluções propostas” para enfrentar o problema.

Christino Áureo reforça a urgência, afirmando: “Para mim, está muito claro que a solução envolve baterias”. As discussões ocorrem na Aneel e no Ministério de Minas e Energia, buscando um equilíbrio que permita a expansão sustentável da energia solar no Brasil.

Perguntas Frequentes

Por que a energia solar distribuída se tornou um desafio para a rede elétrica brasileira?

A vasta quantidade de painéis solares em telhados, que respondem por quase 20% da geração instalada no Brasil, opera de forma intermitente e fora do controle direto do ONS. Essa imprevisibilidade, especialmente durante quedas de demanda como em jogos da Copa do Mundo, pode causar desequilíbrios e instabilidade na rede elétrica, elevando o risco de apagões.

O que é "curtailment" e como ele afeta os investimentos em energia renovável?

Curtailment é a redução controlada da produção de energia, determinada pelo ONS quando a geração excede a demanda do sistema. Essa prática, aplicada a grandes empreendimentos renováveis devido à incontrolabilidade da geração distribuída, custou cerca de R$ 6,5 bilhões em 2025 e levou empresas como a Atlas Renewable Energy a suspenderem investimentos, enfraquecendo a atratividade do setor.

Quais soluções estão sendo estudadas para garantir a estabilidade da rede elétrica com o avanço da energia solar?

Entre as principais soluções estudadas pelas autoridades brasileiras, como Aneel e Ministério de Minas e Energia, está o armazenamento por baterias, permitindo estocar o excedente de energia solar. Outras propostas incluem a ampliação das exportações de eletricidade para países vizinhos. O ministro Alexandre Silveira e Christino Áureo destacam a urgência em encontrar um arcabouço técnico e jurídico para essas soluções.