Se o Sistema Solar que conhecemos hoje parece tranquilo, a realidade era radicalmente diferente há bilhões de anos. Uma nova pesquisa liderada pela cientista planetária Carolyn Crow, da Universidade do Colorado em Boulder, descobriu que o satélite natural da Terra sofreu um impacto de grandes proporções há aproximadamente 3,5 bilhões de anos, evidenciando uma fase de intensa turbulência no sistema planetário[6].

A descoberta, publicada na revista Geology em 12 de maio, baseia-se na análise de 21 grãos de baddeleyita — um mineral capaz de registrar eventos de impacto. Em sete desses fragmentos, os pesquisadores identificaram a presença de zircônia cúbica, uma gema sintética que se forma apenas sob temperaturas extremas, acima de 2.370°C, indicando uma colisão violenta[6]. A datação por teor de chumbo revelou que a idade desses fragmentos é de cerca de 3,486 bilhões de anos, um período que coincide com outros dois impactos registrados na Terra (há 3,48 e 3,47 bilhões de anos) e com eventos no asteroide Vesta, um protoplaneta[6].

Os achados sugerem que o Bombardeio Pesado Tardio — um período hipotético que os astrônomos acreditam ter ocorrido entre 4,1 e 3,8 bilhões de anos, quando inúmeros asteroides atingiram a Terra e os demais objetos do Sistema Solar interior — pode ter se estendido por milhões de anos além do previsto[1][2]. Este evento cataclísmico é responsável pela maioria das crateras gigantescas observadas atualmente na Lua e em Mercúrio, e sua hipótese foi formulada inicialmente a partir do estudo de rochas lunares trazidas pelas missões Apollo[2][3].

A colisão na Lua, somada a outras duas descobertas na Terra e em um asteroide da mesma época, reforça a ideia de que o Sistema Solar passou por um período de colisões intensas e frequentes de grandes asteroides, muito mais longo do que se imaginava[2]. Embora muitos acreditem que tal violência teria esterilizado a Terra, estudos indicam que microrganismos, como bactérias hipertermofílicas, poderiam ter sobrevivido em habitats subterrâneos, protegidos da destruição na superfície[4]. Coincidentemente, a vida na Terra provavelmente surgiu ao final desse período de bombardeio, possivelmente impulsionada pelos compostos orgânicos e água trazidos pelos meteoritos[3].