A ameaça crescente do desemprego formal pode minar a popularidade de Javier Milei e colocar em risco seu projeto político no país vizinho.
O governo do presidente argentino Javier Milei tem se destacado por feitos econômicos significativos, como a redução da inflação, a diminuição da pobreza e a eliminação do déficit fiscal. No entanto, o mercado de trabalho do país enfrenta uma profunda crise, que se consolida como o maior desafio para sua tentativa de reeleição em 2025.
Pelo segundo ano consecutivo, a economia da Argentina apresenta crescimento, mas, em contraste, o número de empregos no setor formal, que oferece salários fixos, benefícios e cobertura de saúde, continua em declínio. Esse cenário gera preocupação tanto para os eleitores quanto para os investidores, que observam a estabilidade política.
As perdas de postos de trabalho representam a principal ameaça à permanência de Milei no poder. Segundo Pablo Goldberg, gestor de portfólio da BlackRock, a criação de empregos está se tornando um dos fatores cruciais para a confiança do consumidor, diretamente ligado à intenção de voto.
A Sombra do Desemprego Formal
Desde que Javier Milei assumiu a presidência, a Argentina registrou a perda de 241 mil empregos formais no setor privado. Esse número representa cerca de 4% do total de vagas com carteira assinada no país. Além disso, o governo também implementou um corte de 73 mil funcionários públicos, intensificando a pressão sobre o mercado.
A quantidade de empregadores no setor privado diminuiu para 482 mil empresas, o menor patamar desde 2007, de acordo com dados do instituto de pesquisa Fundar. Apenas a província de Neuquén, impulsionada pelo boom energético, mostrou um aumento no número de companhias, indicando a falta de migração de trabalhadores entre setores.
Matías Maito, economista da Universidade de San Andrés, descreve a situação como um “crescimento sem criação de empregos de qualidade”. Ele ressalta que, nos últimos dois anos, a única área que cresceu foi a do emprego informal, que agora representa 44% da força de trabalho do país.
Impacto das Políticas e o Setor Privado
Apesar do sucesso em conter a inflação, as políticas de Milei contribuem para a perda de empregos. Os cortes nos gastos públicos, embora considerados necessários, resultaram em menos obras de infraestrutura e contas de serviços mais caras, afetando o setor da construção civil, a renda disponível das famílias e o consumo geral.
A manutenção de alguns controles cambiais também levou a uma valorização da taxa de câmbio, encarecendo serviços argentinos como tecnologia e turismo. Além disso, as medidas de abertura da economia à concorrência estrangeira, embora visem reduzir preços, impactaram negativamente setores tradicionais.
Mesmo segmentos competitivos como petróleo, mineração e tecnologia, que deveriam atrair investimentos, registraram queda ou estagnação nas contratações desde o início da gestão Milei, conforme dados oficiais e relatórios setoriais. Essa dinâmica reflete um cenário de desafios generalizados no mercado.
Desafios na Competitividade e Custos
A empresa de serviços em nuvem The Black Puma, de Patricio Pagani, havia praticamente dobrado seu número de funcionários desde a pandemia até o início do governo Milei. Contudo, os salários do setor privado na Argentina dobraram em termos de dólares sob a gestão libertária, comprimindo as margens de lucro de empresas como a de Pagani.
Diante desse cenário, Pagani tem buscado contratar mais funcionários no Brasil e planeja abrir uma operação na Colômbia, onde os custos trabalhistas são mais acessíveis. Ele observa um desemprego maior entre profissionais altamente qualificados do que há cinco anos, destacando que a Argentina “deixou de ser competitiva em termos de custos”.
A taxa de desemprego na economia formal subiu para 7,8%, porém, o impacto é parcialmente disfarçado pelo crescimento do mercado de trabalho informal. Roxana Maurizio, pesquisadora do IIEP da Universidade de Buenos Aires, explica que a informalidade é vista como uma alternativa de último recurso e “não é um destino desejável”, apesar de ser preferível ao desemprego total.
O Refúgio da Informalidade e a Busca por Saídas
A preocupação com o desemprego superou a inflação como a principal inquietude econômica dos eleitores argentinos há um ano, segundo a pesquisa LatAm Pulse, da AtlasIntel. A aprovação de Milei, que está em 37%, aproxima-se de seu nível mais baixo na presidência, evidenciando o impacto da crise no emprego.
Em momentos de dificuldade, a busca por qualificação profissional aumenta. Sergio Moreno, coordenador da Fundación Oficios em Buenos Aires, que oferece cursos para carpinteiros e eletricistas, recebeu mais de 3.500 inscrições para 700 vagas neste ano, um aumento de 40% em relação ao ano anterior. Ele atribui a demanda à migração para a informalidade, que é “mais barata” e não exige impostos.
Ruben Barboza, um ex-operário de 56 anos, está desempregado desde novembro do ano passado, após o fechamento da fábrica de móveis onde trabalhava. Ele já fez dois cursos de capacitação e se candidatou a 30 vagas sem sucesso, vivendo da renda da esposa. Para ele e muitos, “a inflação importa menos do que ter um emprego, conseguir pagar as contas e colocar comida na mesa”.
Perguntas Frequentes
O que é o crescimento sem emprego na Argentina?
É um fenômeno econômico onde o Produto Interno Bruto (PIB) do país cresce, mas essa expansão não é acompanhada pela criação de novas vagas de trabalho, especialmente no setor formal. Isso indica que a produção pode estar aumentando sem que haja uma geração equivalente de oportunidades de emprego qualificado.
Quantos empregos formais foram perdidos no governo Milei?
Desde que Javier Milei assumiu a presidência, a Argentina perdeu cerca de 241 mil empregos formais no setor privado. Além disso, 73 mil funcionários públicos foram demitidos, contribuindo para o aumento do desemprego total no país.
Por que o desemprego virou a maior preocupação dos eleitores argentinos?
Enquanto o governo Milei conseguiu reduzir a inflação de três dígitos, a perda de postos de trabalho se tornou a principal preocupação dos eleitores argentinos. A capacidade de conseguir e manter um emprego é fundamental para o sustento das famílias e o pagamento das contas, superando, no momento, a questão dos preços altos.
Como as políticas de Milei afetam o mercado de trabalho?
Os cortes nos gastos públicos reduziram obras e aumentaram contas de serviços, impactando empregos na construção e o consumo. Uma taxa de câmbio mais forte encareceu serviços argentinos, e a abertura da economia à concorrência estrangeira atingiu setores tradicionais, levando à perda de competitividade e vagas.
