A desinformação e a hesitação vacinal são os principais entraves que dificultam o avanço da vacinação contra o HPV (papilomavírus humano) no Brasil. A falta de conhecimento sobre a necessidade da dose e a influência de discursos antivacina impedem que adolescentes busquem os postos de saúde e que pais vacinem os filhos, mesmo diante da segurança e eficácia do imunizante.
Segundo dados do Ministério da Saúde referentes ao primeiro semestre de 2026, a cobertura vacinal entre meninas de 9 a 14 anos foi de 74,14%, enquanto entre os meninos da mesma faixa etária chegou a 66,14% — ambos os índices estão abaixo da meta de 90% estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A OMS estima que, sem a proteção da vacina, pelo menos 80% da população contrairá a infecção ao longo da vida, sendo o HPV uma das doenças sexualmente transmissíveis mais comuns no mundo.
Risco de cânceres evitáveis
Sem a imunização, jovens ficam expostos a diversos tipos de câncer, como o de colo do útero e o de pênis, causados principalmente pelos tipos mais graves do vírus. O imunizante disponível previne 96% das variantes mais agressivas do HPV. Especialistas temem que a hesitação vacinal possa levar a um aumento de casos de cânceres que poderiam ser evitados. Um estudo da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), baseado na Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNSE) de 2019, revelou que uma em cada quatro meninas brasileiras de 13 a 18 anos não recebeu nenhuma dose da vacina.
A pesquisa também mostrou que a baixa cobertura não se restringe a famílias de menor renda: grupos de maior escolaridade e renda também resistem à imunização. O epidemiologista Fernando Wehrmeister, líder do estudo, aponta que a hesitação vacinal, impulsionada por fake news e ceticismo em relação às vacinas, é a causa mais provável, especialmente entre famílias mais abastadas que tomam decisões individuais de não vacinar.
Polêmicas e falhas de comunicação
A vacina do HPV foi incorporada ao SUS em 2014 com o objetivo de eliminar o câncer de colo do útero, o terceiro mais frequente entre mulheres. A infecção por tipos agressivos do vírus responde por 70% dos casos da doença. Embora a cobertura com a primeira dose tenha atingido 101,4% entre meninas de 11 a 14 anos no ano de lançamento, a procura pela segunda dose caiu para 59,8% seis meses depois. A pesquisadora Josimari Quevedo identifica erros de comunicação pública como causa da queda, especialmente quando a campanha enfatizou que a infecção é sexualmente transmissível e que a vacina deveria ser aplicada antes da primeira relação sexual.
Essa abordagem gerou forte oposição de grupos religiosos evangélicos e católicos, que acreditavam que a vacinação incentivaria o início da vida sexual — uma premissa falsa, segundo especialistas. Além disso, associações de pais e até profissionais de saúde criticaram a estratégia. Pesquisadores da Faculdade de São Leopoldo entrevistaram pais hesitantes e encontrados os seguintes motivos: 30% não consideravam as vacinas seguras, 15% acreditavam que as doses não eram eficazes, 13% relataram reações adversas em crianças e 11% consideraram a imunização desnecessária.
Desconfiança gerada por eventos no Acre
Uma das polêmicas que alimentaram a desconfiança ocorreu no Acre em 2019, quando 86 meninas vacinadas apresentaram sintomas como dores de cabeça, febre, convulsões e desmaios. Mães realizaram passeatas contra a vacinação. Uma investigação do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) descartou a conexão com a vacina e concluiu que dez das meninas tiveram Crise Psicogênica Não-Epilética (Cnep), desencadeada pelo medo da vacinação, que se assemelha a um ataque epiléptico, mas sem descargas elétricas.
Novas estratégias e metas futuras
Monica Levi, presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBIm), reforça que a desinformação pós-covid-19 tornou a vacina do HPV uma das maiores vítimas. Ela destaca que a vacina é extremamente segura e que a comunicação deve ser assertiva e adaptada para cada grupo, especialmente para adolescentes. A campanha atual foca na prevenção do câncer, evitando linguagem pesada. Uma estratégia eficaz é a vacinação nas escolas, onde os adolescentes são informados e imunizados.
O HPV possui mais de 200 tipos, sendo que 12 estão associados a cânceres. A vacina quadrivalente ofertada pelo SUS, aplicada em dose única desde 2024, protege contra quatro cepas (6, 11, 16 e 18). Em laboratórios privados, a dose é a nonavalente. A vacinação é indicada para jovens de 9 a 14 anos, pessoas imunodeprimidas, vítimas de abuso sexual até 45 anos e usuários de profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP).
Desde 2023, há um movimento de retomada da vacinação. Em 2025, a cobertura entre meninas foi de 86,2%, superando o índice de 75,91% de 2024. Monica Levi conclui: "Precisamos de 90% das meninas vacinadas, é um compromisso que o Brasil assinou na OMS para eliminação do câncer de colo do útero. Essa geração de adolescentes tem a oportunidade de viver sem câncer".
Até 30 de junho de 2026, adolescentes de 15 a 19 anos também poderão se vacinar contra o HPV em dose única, protegendo-se contra verrugas genitais e cânceres de útero, pênis, boca, ânus e laringe. A meta de cobertura vacinal é de 90% para cada sexo, conforme o Ministério da Saúde.
