Em um mundo onde mais de 75% dos 12.495 serviços relacionados a plantas medicinais estão vinculados a uma única língua, a perda de uma língua indígena representa não apenas o desaparecimento de palavras, mas a extinção de conhecimentos medicinais únicos e saberes sobre fauna, flora e cosmologias. Para combater esse risco iminente, o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) desenvolveu os Dicionários Multimídia para Línguas Indígenas (DMLI), uma tecnologia social inovadora que une documentação linguística e recursos digitais para revitalizar línguas em perigo de desaparecimento no Brasil[1][2].
Essa iniciativa, fruto de uma aliança refinada entre a comunidade científica e os povos indígenas, já disponibiliza sete dicionários bilíngues (com o português) na plataforma oficial: das línguas Kanoé, Oro Win, Puruborá, Sakurabiat, Salamãi e Wanyam, além do dicionário de lugares sagrados dos Medzeniakonai[1][9]. Outros quatro dicionários — para as línguas Makurap, Djeoromitxi, Wayoro e Kuyubim — estão em fase de finalização e validação pelas comunidades[2][4].
Saberes que desaparecem com as línguas
Muitas línguas indígenas estão em vias de desaparecer porque as novas gerações não aprendem a língua de seus ancestrais, deixando apenas os mais idosos como guardiões desses saberes. A extinção de uma língua pode levar à perda de conhecimentos medicinais específicos, conforme constatado em uma investigação realizada em três regiões do mundo com alta diversidade biocultural (América do Norte, Noroeste da Amazônia e Nova Guiné)[1]. Mais de 75% dos serviços relacionados a plantas medicinais estão vinculados a uma única língua, e esse conhecimento está fortemente ameaçado, mesmo que as plantas medicinais não estejam em risco[1].
No Brasil, a Amazônia concentra o maior número de povos originários, abrigando aproximadamente dois terços das 150 a 170 línguas indígenas ainda faladas no país, considerando critérios linguísticos[1]. O Censo Nacional de 2022 aponta 295 línguas indígenas autoidentificadas, número que pode incluir línguas de memória, variações de uma mesma língua ou processos de retomada[1].
Tecnologia social que funciona sem internet
Os Dicionários Multimídia são uma tecnologia social que contribui para o fortalecimento e revitalização das línguas indígenas, utilizando recursos de áudio, vídeo, imagem e textos que documentam a riqueza linguística e cultural dos povos[1][2]. Cada entrada traz o verbete na língua indígena, sua pronúncia com áudio, tradução para o português, imagens e exemplos em vídeo, permitindo que os usuários aprendam a língua falada pelos seus ancestrais[1][2].
Esses dicionários podem ser usados em qualquer plataforma (celular, tablet, computador) e acessados sem necessidade de conexão com internet, o que é fundamental para comunidades com infraestrutura limitada[1][5]. A prática de "dicionarizar" a língua, especialmente em formato multimídia, estimula a aprendizagem e o orgulho cultural, despertando a curiosidade de jovens indígenas e estimulando a retomada linguística nas novas gerações[2].
Uma aliança que salva histórias
O trabalho é fruto de décadas de atuação do Museu Goeldi na documentação de línguas indígenas da Amazônia, onde se concentram dois terços das línguas originárias do Brasil[2]. Cada dicionário é um retrato vivo da língua, desenvolvido de forma cíclica e colaborativa, iniciado por demanda da comunidade que participa de todo o processo, do planejamento participativo e documentação em campo até o processamento tecnológico e validação final[2].
Dona Margarida Macurap, da aldeia Ricardo Franco em Rondônia e pesquisadora indígena participante da produção do dicionário Macurap, comenta sua reação diante da primeira versão: "Assim, os meus filhos vão aprender, meus netos, bisnetos. Vão saber que a gente tem uma história"[1]. Essa fala sintetiza o propósito dos dicionários: permitir que povos com poucos falantes fluentes estabeleçam um contato mais próximo com sua língua de tradição, e que comunidades com indivíduos fluentes utilizem o material como reforço didático para continuidade do aprendizado[2].
Em um contexto de alta vulnerabilidade das línguas indígenas brasileiras, os recursos multimídia tornam-se especialmente valiosos, configurando uma tecnologia social inovadora para revitalização de línguas na Amazônia[2]. A aliança entre acadêmicos e comunidades indígenas responde a demandas específicas de manutenção, fortalecimento e revitalização linguísticos, desenvolvendo produtos que servem à comunidade para atividades de aprendizagem e preservação de suas línguas tradicionais[2].
