Para que os Treasuries (títulos do Tesouro americano) igualem a rentabilidade da Selic de 14,25% ao ano, o dólar precisaria valorizar 9,75%, retornando ao patamar de R$ 5,70 — hoje, flutua ao redor de R$ 5,20[1][2]. No momento, do ponto de vista puramente de retorno, não vale trocar a renda fixa brasileira por títulos em dólares, mas a tese de investimento em dólar tem outro objetivo: a diversificação e a proteção cambial em momentos de estresse nos mercados[2].
Em 2024, quem tinha parte da carteira dolarizada ficou mais confortável após uma queda de mais de 26% do real ante a moeda americana naquele período[2]. Os Treasuries de 10 anos estão com retornos prefixados atrativos entre 4,5% ao ano, e os de 30 anos, próximos de 5%[1][2]. A Selic, no entanto, não deve permanecer em 14,25% para sempre: o boletim Focus do Banco Central aponta para uma Selic de 12% ao final de 2027, o que eleva o retorno esperado de um investimento que pague o juro básico a cerca de 13% até o fim do ano que vem[2].
Para uma Treasury ganhar desse retorno de 13% no mesmo intervalo, o dólar teria de valorizar 8,5%, voltando ao patamar de R$ 5,64[2]. É possível, mas, por enquanto, os sinais sobre um avanço dessa magnitude não aparecem no horizonte: o consenso das instituições financeiras coloca a moeda americana em R$ 5,27 no fim do ano que vem[2]. Caso isso se confirme, um título com retorno prefixado de 4,5% ao ano renderia só 5,3% em reais nos próximos 12 meses, rendimento abaixo até da poupança, que fez 8,36% em 12 meses até junho[2].
No ano, o dólar acumula queda de 5%; se o real seguir valorizando, o efeito cambial vai corroer ainda mais o ganho nominal do título americano[2]. O investidor estrangeiro, por outro lado, ganhou com a valorização do real: quem aplicou em um título brasileiro como o Tesouro IPCA+ 2040 no primeiro dia útil de janeiro de 2026 registra, até agora, um ganho de 5,6%, sendo que 0% vem da variação do preço do título e 5,6% da valorização do real ante o dólar[2]. A lógica funciona no sentido contrário para o investidor brasileiro que aplicou com o dólar na máxima, que sente o efeito da desvalorização da divisa dos EUA[2].
As melhores janelas para ampliar a diversificação em moeda forte ocorrem quando o real se valoriza, e não o contrário[2]. O cenário global, porém, adiciona incertezas sobre as cotações das moedas emergentes: os retornos dos Treasuries têm subido nas últimas semanas e voltaram a patamares historicamente elevados, por conta da preocupação com uma eventual guinada na política monetária dos EUA e sinais de que a inflação lá fora vai acelerar[2]. Se o Federal Reserve (Fed) sinalizar uma alta de juros perto do fim do ano, o dólar tende a se valorizar[2].
Outro foco de incerteza vem do processo eleitoral brasileiro: quanto mais nos aproximamos das eleições, mais volátil o câmbio pode ficar[2]. O investidor deve, sim, considerar um aumento da diversificação em moeda forte, mas não para trocar a rentabilidade local pela gringa e, sim, como forma de proteger a carteira no longo prazo, pois ninguém sabe ao certo de onde e quando pode vir uma nova crise[2].
Os principais riscos de investir em Treasuries são o câmbio e a taxa de juros: o preço dos títulos é afetado por mudanças nas taxas de juros, e o rendimento estável e o baixo risco de não receber o dinheiro de volta são vantagens, mas o risco de crédito do governo americano, embora muito pequeno, não pode ser ignorado[5]. A maioria dos títulos de renda fixa nos EUA é prefixada, o que significa que, ao comprar um título, já se sabe exatamente quanto receberá de juros se mantido até o vencimento[5].
Em síntese, os Treasuries fazem mais sentido como instrumento de diversificação e proteção cambial do que como concorrentes diretos da renda fixa brasileira: faz sentido, mas não como substituição — e sim como complemento[2]. Movimentos do dólar podem facilmente superar o rendimento do título, e em 2024 a moeda americana chegou a subir mais de 20% frente ao real, movimento capaz de compensar a diferença de juros entre Brasil e EUA[2].
