A aproximação do fenômeno El Niño ameaça aprofundar uma crise financeira entre os produtores de arroz no sul do Brasil, especialmente no Rio Grande do Sul, região que responde por cerca de 70% da produção nacional. Anos de eventos climáticos extremos já elevaram os custos e obrigaram a principal área produtora do país a reduzir os planos de plantio futuro. A colheita atual, concluída recentemente, prevê uma queda de 10,4% na produção total, chegando a aproximadamente 7,8 milhões de toneladas, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

O cenário se agrava com a combinação de chuvas intensas, preços de fertilizantes elevados (devido à guerra no Irã) e custos com combustíveis. Otavio Sousa, produtor e agrônomo de 60 anos no extremo sul do estado, relatou que não há perspectiva de melhora no curto prazo: "Este ano, com certeza vamos marcar prejuízo com o preço que nós estamos vendendo hoje". Ele já reduzira a área plantada em 15% em 2023, mas considera que um corte de 20% seria o ideal. Mesmo com o aumento da produção na safra atual, Sousa provavelmente reduzirá ainda mais a área plantada.

Evandro Oliveira, analista da Safras & Mercados, destaca que a relação entre custo, preço e produtividade saiu do eixo. "O El Niño é o pior cenário possível para o arroz. Se for um El Niño forte, o cenário para o arroz vai ser bastante complexo", afirmou. O risco principal é o de alagamentos, que podem atrasar o plantio (que começa em setembro) e limitar a produtividade devido à falta de sol provocada pelo tempo nublado, conforme relatório do Itaú BBA.

O Rio Grande do Sul enfrenta uma sequência de eventos climáticos devastadores: seca em 2022, enchentes em 2023, chuvas devastadoras entre abril e maio de 2024 e nova rodada de precipitações intensas em maio de 2025, que atingiu regiões tradicionais como Santa Vitória do Palmar e Alegrete. Em Alegrete, município de cerca de 72,4 mil habitantes, as chuvas de maio de 2025 forçaram moradores a deixar suas casas e produtores a perder lavouras novamente. Lucas Di Napoli, produtor rural da região, afirmou que o custo "ficou fora da realidade" e que "não tem conta que feche".

O aperto já redesenha o mercado de arrendamento rural no estado. Alessandro Acosta, sócio-fundador da Safras & Cifras, relatou que produtores estão encerrando contratos ou renegociando valores menores. "Esse é o momento de ficar só com os ótimos, porque os bons estão ruins, tamanha a situação", disse. Com a próxima temporada de plantio se aproximando, os produtores seguem presos entre mercados voláteis e um clima imprevisível. "Ainda tem muitas variáveis a serem pensadas. Por isso que o produtor está se sentindo numa sinuca de bico", concluiu Oliveira.

Fonte original: InvestNews – Economia.