O Equador vem aprofundar a militarização da segurança pública e intensificar parcerias com os Estados Unidos em meio ao novo estado de exceção decretado pelo presidente Daniel Noboa, que abrange dez províncias do país[1][3]. No centro das medidas, o governo concedeu imunidade penal para civis, militares e estrangeiros envolvidos em ações de repressão estatal, suspendendo direitos constitucionais como a inviolabilidade do domicílio e das correspondências[1].

Nesta segunda-feira (22), Equador e Estados Unidos assinaram um acordo de cooperação para operações na fronteira norte, com previsão de compartilhamento de informações e coordenação entre polícias e forças armadas dos dois países[1]. Segundo o Ministério da Defesa equatoriano, um projeto piloto será aplicado na fronteira com a Colômbia e poderá ser replicado em outras regiões[1].

O acordo foi firmado uma semana após Noboa decretar novo estado de exceção, com duração de 60 dias, sob o argumento de grave comoção interna provocada pelo aumento da criminalidade[1][3]. Em decreto publicado em 18 de junho, o presidente voltou a estabelecer que o país vive um conflito armado interno e autorizou imunidade penal para agentes do Estado acusados de abusos[1].

Organizações sociais e de direitos humanos manifestam preocupação com o aumento do risco de abusos cometidos por agentes do Estado[1]. A Comissão de Pessoas Desaparecidas da ONU afirmou ter recebido relatos de desaparecimento forçado de 51 vítimas, incluindo crianças, supostamente perpetrados por forças de segurança durante operações entre 2024 e 2025[1].

No plano político, lideranças sociais e sindicais denunciam perseguição contra opositores e afirmam que contas bancárias de dirigentes críticos ao governo foram congeladas em meio à mobilização para iniciar um processo de revogação do mandato de Noboa[1]. A vice-presidenta da Confederação dos Povos de Nacionalidade Kichwa do Equador, Vicenta Chuma, afirmou que houve bloqueio de contas de dirigentes e contestou as ações do governo[1].

A socióloga Irene León, diretora da Fundação de Estudos, Ação e Participação Social do Equador, afirma que a militarização tem sido usada para perseguir opositores políticos, organizações indígenas e a população afrodescendente, sem reduzir a violência das gangues[1]. Segundo ela, a ação do Estado não é desenhada para responder aos problemas de segurança, mas para atender a interesses geopolíticos dos Estados Unidos na América Latina[1].

León também criticou a suspensão do principal partido de oposição, a Revolução Cidadã, do ex-presidente Rafael Correa, por nove meses, decisão que o impediria de disputar as eleições municipais de novembro de 2026[1]. O Tribunal de Contencioso Eleitoral suspende a legenda em meio a uma investigação sobre suposto financiamento estrangeiro ilegal nas eleições de 2023, e o partido acusa perseguição política[1].

No campo da segurança, o governo de Noboa adotou medidas semelhantes às de Nayib Bukele, presidente de El Salvador, com classificação de terroristas para grupos criminosos, uso ostensivo das Forças Armadas e a abertura de uma mega prisão de segurança máxima, em novembro de 2025[1]. O Equador, porém, segue enfrentando forte escalada da violência: em 2025, foram registrados 9.216 homicídios dolosos, alta de 30,5% em relação a 2024[1].

A ACLED afirma que mais de 70% dos 18 milhões de habitantes do país foram expostos à violência do crime organizado em 2025 e que o Equador tem hoje 37 grupos criminosos ativos, contra 24 em 2023[1]. A entidade também avalia que a agenda de militarização de Noboa não tem produzido resultados efetivos no combate às organizações criminosas[1].

Um dos episódios mais recentes citados pelas organizações foi o assassinato da ativista anticorrupção Monika Silva Koniuszek, encontrada morta em sua residência em 8 de junho[1]. Inicialmente, o ministro do Interior, John Reimberg, disse haver indícios de suicídio, mas o laudo pericial divulgado na última sexta-feira (19) concluiu que se tratou de assassinato, após um golpe na cabeça e estrangulamento[1]. Monika denunciava crimes ambientais e corrupção no país[1].