Um novo estudo internacional aponta que o glifosato, herbicida mais utilizado no Brasil e no mundo para controle de ervas daninhas, pode estar promovendo a seleção de bactérias mais resistentes a antibióticos, agravando o problema da resistência antimicrobiana. A pesquisa, liderada pela doutora Daniela Centrón, do Instituto de Microbiologia Médica e Parasitologia de Buenos Aires (Argentina), foi publicada em março na revista Frontiers in Microbiology e sugere que herbicidas agrícolas têm um efeito secundário não intencional: selecionar microrganismos com mecanismos de defesa que também conferem resistência a medicamentos usados em hospitais[1][2].

A resistência antimicrobiana (RAM) é responsável por cerca de 1,1 a 1,4 milhão de óbitos por ano globalmente. Embora o problema seja tradicionalmente associado ao uso excessivo e inadequado de antibióticos, os resultados indicam que o glifosato pode ser outro fator crucial na disseminação de superbactérias[1][5].

Como o glifosato age nas bactérias?

A hipótese levantada pelos pesquisadores é que o contato frequente de bactérias ambientais com o glifosato funciona como um “treinamento” para esses microrganismos. Embora o herbicida atue principalmente em plantas, algumas vias metabólicas afetadas também existem em bactérias, gerando estresse celular. Esse estresse incentiva a ativação de mecanismos de defesa, como bombas de efluxo e alterações na membrana celular, que também conferem proteção contra antibióticos[4].

Este fenômeno, conhecido como co-seleção, não mata as bactérias como um antibiótico, mas cria um ambiente onde sobreviven apenas as mais resistentes. O glifosato, portanto, exerce pressão seletiva que favorece a sobrevivência de linhagens que já possuem mecanismos de defesa eficientes, acelerando a difusão da RAM[6][9].

Achados principais da pesquisa

Para investigar a relação entre herbicidas e resistência antimicrobiana, foram analisadas 68 cepas bacterianas coletadas em uma reserva natural na Argentina, local onde o glifosato nunca foi aplicado, mas próximo a áreas agrícolas que utilizam o produto. Os pesquisadores também compararam esses dados com 19 cepas de hospitais e 15 de confinamentos de gado e solos agrícolas onde há uso de herbicidas[1][2].

Entre os principais resultados:

  • Todas as cepas hospitalares apresentaram alta resistência ao glifosato puro e a herbicidas à base dele[1][5].
  • 74% das cepas hospitalares eram resistentes a carbapenêmicos, classe de antibióticos usada como último recurso em infecções graves[5].
  • Das 68 cepas da reserva natural, todas apresentaram algum grau de resistência ao glifosato, mesmo sem aplicação direta do produto no local[1].
  • Uma árvore genealógica genética mostrou que as bactérias resistentes ao glifosato são geneticamente semelhantes, independente de sua origem[1].

Risco de contaminação ambiental e disseminação

Camila Knecht, uma das autoras do estudo, alerta que, se essas bactérias resistentes entrarem no meio ambiente por meio de águas residuais não tratadas de hospitais, poderão proliferar em áreas agrícolas onde o glifosato é utilizado. Isso cria um ciclo de transmissão entre hospitais e solos agrícolas, com o ciclo da água desempenhando um papel fundamental na disseminação[1][2].

Jochen A. Müller, coautor do estudo, conclui: “No meio ambiente, o uso de glifosato conduz à evolução de bactérias resistentes em solos impactados, enquanto o uso de antibióticos favorece sua evolução em hospitais. As bactérias portadoras de genes de resistência podem propagar-se e reproduzir-se entre esses dois nichos em ambas as direções”[1].

Recomendações para regulamentação e conscientização

Os pesquisadores enfatizam que as políticas de uso de pesticidas devem incluir a necessidade de testes de seleção conjunta com antibióticos antes da comercialização. Além disso, as etiquetas dos produtos devem conter uma advertência informando que genes de resistência a antibióticos podem se propagar de solos contaminados com glifosato até hospitais por meio de águas não tratadas[1][5].

“Os resultados evidenciaram a importância de que a regulamentação dos pesticidas seja baseada também no efeito de resistência que eles provocam nas bactérias”, afirmam os autores[1]. O estudo reforça a necessidade de abordar a resistência antimicrobiana desde uma perspectiva integrada de Uma Só Saúde, considerando a interligação entre ambiente, animais e humanos[6].

Embora o glifosato não “crie” superbactérias, os dados sugerem que ele contribui decisivamente para selecionar microrganismos que já possuem mecanismos de defesa eficientes, ampliando o risco de disseminação de superbactérias resistentes em contextos clínicos e ambientais[4].