Benefícios fiscais do IPI Verde e a inovação dos modelos híbridos flex impulsionam o combustível renovável no país, atraindo até montadoras chinesas.

O Brasil, frequentemente chamado de 'Arábia Saudita do etanol', vive um momento de virada na indústria automotiva. O biocombustível, cuja produção abastece prioritariamente o mercado interno — menos de 5% foi exportado no ano passado —, ressurge com força nos planos das grandes montadoras, vinte anos após a popularização dos motores flex. Esse movimento é resultado de uma combinação estratégica de políticas públicas e avanços tecnológicos.

Em um cenário que busca alternativas mais sustentáveis e eficientes, o etanol ganha destaque não apenas em veículos dedicados, mas também em inovações como os motores híbridos flex. Este ano, incentivos fiscais, como o IPI Verde, foram cruciais para tirar da inatividade os modelos 100% a álcool, antes considerados uma relíquia, e para acelerar o desenvolvimento de novas tecnologias por empresas nacionais e estrangeiras.

A produção nacional do etanol, que partiu de 600 milhões de litros nos anos 1970 para expressivos 36 bilhões de litros em 2025, tende a crescer ainda mais, especialmente com a expansão do etanol de milho, mais barato que o de cana. Essa dinâmica coloca o biocombustível como um dos principais vetores de transformação do setor automotivo brasileiro, conforme informação divulgada por InvestNews – Negócios.

O Retorno dos Carros 100% Etanol e o IPI Verde

Após um hiato de duas décadas, os veículos dedicados exclusivamente ao etanol estão de volta ao mercado. Em junho deste ano, a Chevrolet, braço da GM, apresentou o Onix ECO, uma versão do popular Onix que funciona apenas com o combustível vegetal. Disponível nas carrocerias hatch, a partir de R$ 103.190, e sedã, com preço inicial de R$ 106.990, este lançamento materializa uma tendência que ganha força.

A iniciativa da Chevrolet visa, principalmente, o mercado corporativo. Vitor Oyama, gerente de marketing de produto da marca, explica que há uma demanda crescente de empresas buscando alternativas para cumprir metas de ESG (Environmental, Social, and Governance). Para esse público, o etanol se mostra mais vantajoso economicamente do que a migração para veículos elétricos.

Contudo, o grande impulsionador por trás do Onix ECO é um benefício tributário fundamental: o IPI Verde, criado em julho de 2025. Este mecanismo calibra o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) dos veículos de acordo com seu impacto ambiental. Para zerar o imposto, um modelo deve emitir menos carbono, considerando todo o ciclo de vida do combustível.

O etanol leva vantagem nesse cálculo, pois sua matéria-prima, a cana-de-açúcar, absorve carbono da atmosfera durante o cultivo, compensando parte das emissões. Com a alíquota-base do IPI Verde para carros de passeio em 6,3%, a isenção representa uma economia de cerca de R$ 6 mil em um veículo de R$ 100 mil. Essa diferença permite que o Onix ECO se posicione entre os compactos automáticos mais acessíveis, como exemplificado pela comparação com o Volkswagen Polo Sense automático, que custa R$ 107.990.

Oyama destaca que 'o incentivo do governo muda completamente a dimensão desse mercado. Se você olha só para a tecnologia, talvez ele fosse muito mais restrito', evidenciando o papel crucial das políticas públicas.

A Revolução Híbrida Flex: Inovação à Brasileira

O benefício do IPI zero se aplica a carros compactos e acessíveis, incluindo versões como o Kwid, Mobi e Argo 1.0 manuais. Mas o incentivo fiscal também beneficia veículos eletrificados. Carros totalmente elétricos têm o IPI reduzido de 6,3% para 4,3%, enquanto os híbridos recebem desconto se o motor a combustão for flex ou movido a etanol.

Essa categoria, a dos híbridos flex, embora ainda pequena no mercado brasileiro de eletrificados, está em ascensão. No primeiro semestre de 2026, esses modelos responderam por 11% das vendas do segmento, com 24 mil unidades emplacadas, superando o total de 21 mil vendas de todo o ano de 2025. É uma tecnologia desenvolvida especificamente para o Brasil, onde o etanol é uma realidade.

A Toyota foi pioneira global com o Corolla híbrido flex, lançado em 2019. Agora, montadoras chinesas também entram nessa corrida. A GWM passou a vender a família Haval H6 com motor flex, em versões híbridas convencionais e plug-in. A BYD, por sua vez, escolheu o Brasil para a estreia mundial de seu sistema DM-i flex, que combina eletrificação com etanol ou gasolina. Isso mostra que, para crescer no Brasil, as montadoras precisam adaptar suas plataformas globais à realidade do etanol.

O Histórico do Etanol: Lições do Proálcool e a Era Flex

A história do etanol no Brasil remonta à crise do petróleo de 1973, quando o barril quadruplicou de preço em poucos meses, tornando a gasolina impraticável. O Brasil, então importador de mais de 80% do seu combustível, buscou uma solução na cana-de-açúcar, sua cultura histórica. Assim nasceu o Proálcool, um programa federal nos anos 1970 que incentivou a produção em larga escala e o desenvolvimento de carros movidos a etanol.

O programa foi um sucesso inicial. Durante os anos 1980, nove em cada dez veículos novos vendidos no Brasil funcionavam exclusivamente com álcool. No entanto, o problema surgiu quando a produção do combustível não acompanhou a demanda. A situação piorou com a alta do preço internacional do açúcar, fazendo com que usinas desviassem a cana para a produção de alimento, gerando escassez de etanol nos postos.

O trauma da falta de combustível deixou sua marca, e nos anos 1990, os carros a etanol perderam relevância. Os últimos modelos exclusivamente a álcool, como o Chevrolet Classic 1.0 e o Volkswagen Santana 1.8, saíram de linha pouco depois da chegada dos motores flex em 2003. Essa tecnologia se tornou a solução ideal, oferecendo aos consumidores a flexibilidade de escolher entre etanol e gasolina, sem a dependência total da safra da cana.

Aumento da Mistura de Etanol na Gasolina: O E30

Além dos carros dedicados e dos híbridos flex, há uma terceira frente que consolida o etanol no mercado automotivo nacional: o aumento da mistura obrigatória na gasolina. Desde agosto de 2025, a gasolina brasileira passou a conter 30% de etanol anidro, conhecida como E30, um aumento em relação aos 27% anteriores.

Essa mudança não é insignificante, considerando que a gasolina ainda domina o consumo. Em 2025, foram comercializados 46,6 bilhões de litros de gasolina, contra 21,2 bilhões de litros de etanol hidratado. O aumento da porcentagem de etanol na gasolina demonstra a contínua relevância do biocombustível para a matriz energética e veicular do país.

Perguntas Frequentes

O que é o IPI Verde e como ele impacta o preço dos carros no Brasil?

O IPI Verde é um mecanismo criado em julho de 2025 que ajusta o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) dos veículos conforme seu impacto ambiental. Modelos que emitem menos carbono, como os 100% etanol, podem ter o imposto zerado, resultando em uma economia de cerca de R$ 6 mil em um carro de R$ 100 mil, tornando-os mais acessíveis.

Por que os carros 100% etanol estão voltando ao mercado brasileiro?

Eles retornam impulsionados por benefícios fiscais como o IPI Verde, que reduz o custo final, e pela demanda crescente do mercado corporativo por alternativas que cumpram metas de sustentabilidade (ESG). O Chevrolet Onix ECO é um exemplo recente desse relançamento.

Como os híbridos flex contribuem para a presença do etanol no setor automotivo?

Os híbridos flex, uma tecnologia desenvolvida para o mercado brasileiro, combinam motores elétricos com combustão que aceitam etanol ou gasolina. Eles permitem que os consumidores aproveitem os benefícios do biocombustível com a eficiência da eletrificação, impulsionando a aceitação do etanol e atraindo investimentos de montadoras como Toyota, GWM e BYD.

Qual a diferença entre etanol hidratado e etanol anidro mencionado na mistura E30?

O etanol hidratado é o que é vendido diretamente nas bombas para abastecer carros flex e 100% etanol. Já o etanol anidro é adicionado à gasolina em diferentes proporções, formando a mistura obrigatória. Atualmente, a gasolina brasileira contém 30% de etanol anidro (E30).

O etanol de milho pode substituir o etanol de cana-de-açúcar?

O etanol de milho é uma alternativa crescente no Brasil, com uma produção que costuma ser mais barata que a do etanol de cana. Ele complementa a oferta e tende a aumentar ainda mais a participação do biocombustível na matriz energética nacional, sem necessariamente substituir a cana, mas expandindo o volume total produzido.