Medida do Tesouro dos EUA atinge rede ligada ao Primeiro Comando da Capital, usando fintechs e envolvendo suposta fraude no futebol, gerando alerta sobre soberania e regulação.
O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou sanções contra dois brasileiros, três empresas nacionais e uma portuguesa, sob acusação de auxiliar na lavagem de recursos para a maior organização criminosa da América Latina, o Primeiro Comando da Capital (PCC). Victor Henrique de Oliveira Shimada, residente em São Paulo, é apontado como um “elo-chave” entre operadores na Flórida, o PCC e traficantes internacionais, conforme comunicado do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC), do Tesouro dos EUA, divulgado em 1º de julho.
Sua associada, Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, também foi incluída nas sanções, ao lado das empresas brasileiras Victory Trading Intermediação de Negócios, Cobranças e Tecnologia Ltda., Pixwave Soluções de Pagamentos Ltda. e Wave Construções Inteligentes Ltda. A empresa portuguesa Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda., controlada integralmente por Shimada, igualmente foi alvo das restrições americanas.
As sanções representam as primeiras desde que o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, classificou o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras em maio, uma decisão criticada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que a vê como ameaça à soberania brasileira e ineficaz no combate ao tráfico, conforme informação divulgada por ECONOMIA.
A Rede de Lavagem de Dinheiro e Criptoativos
Segundo o Tesouro dos EUA, Victor Shimada e sua rede teriam sido responsáveis por lavar mais de US$ 30 milhões em recursos ilícitos. A movimentação desses valores, ligados ao PCC, envolvia o uso de criptomoedas para o repasse de fundos ao Brasil. O comunicado do Tesouro americano também revela que Shimada estava em prisão domiciliar no Brasil.
Essa situação decorria de um caso anterior, no qual uma de suas empresas, a Victory Trading, foi utilizada em um esquema de fraude publicitária envolvendo dinheiro desviado de um clube de futebol brasileiro. A Victory Trading, a maior entre as empresas brasileiras sancionadas, possui capital registrado de cerca de R$ 30 milhões (equivalente a US$ 5,8 milhões), segundo dados da Receita Federal. Nenhuma das empresas brasileiras citadas possui regulação do Banco Central, conforme registros oficiais.
Conexão com Fraude no Futebol e Fintechs Sem Regulação
Reportagens da imprensa brasileira, incluindo a ESPN Brasil, indicaram que a Victory Trading teria sido usada para redirecionar recursos para uma empresa controlada pelo PCC. Esse dinheiro teria origem em pagamentos feitos pelo Sport Club Corinthians Paulista dentro de um contrato de patrocínio com uma empresa de apostas online no início de 2024. O clube não se manifestou sobre o caso.
A desregulamentação de pequenas fintechs no Brasil permitiu que operassem sem licença até uma investigação de grande escala sobre o PCC no ano passado. Essa apuração revelou o uso dessas estruturas para a movimentação de recursos ilícitos, o que levou o Banco Central a antecipar exigências de registro que antes estavam previstas apenas para 2029.
Repercussões e Alertas no Sistema Financeiro
Diante da classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos, bancos brasileiros intensificaram a busca por referências junto a instituições mexicanas. Essa iniciativa visa mitigar os riscos de impacto sobre o sistema financeiro nacional. Um representante do governo dos EUA afirmou que a medida faz parte dos esforços para conter a expansão das receitas ilícitas do PCC dentro do país.
Até o momento, as empresas brasileiras mencionadas nas sanções não responderam imediatamente aos pedidos de comentário. Victor Shimada também não retornou a uma solicitação enviada via LinkedIn, e o advogado que o representava no ano passado afirmou não representá-lo mais. Stella de Oliveira não foi localizada para comentar. O governo brasileiro ainda não se manifestou oficialmente sobre o caso.
Perguntas Frequentes
Quem são os brasileiros sancionados pelos EUA por suposta ligação com o PCC?
Os brasileiros sancionados pelo Departamento do Tesouro dos EUA são Victor Henrique de Oliveira Shimada, apontado como elo-chave, e sua associada, Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira. Eles são acusados de lavar dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Quais empresas foram alvo das sanções americanas por suposta lavagem de dinheiro do PCC?
As empresas sancionadas são as brasileiras Victory Trading Intermediação de Negócios, Pixwave Soluções de Pagamentos e Wave Construções Inteligentes, além da portuguesa Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda., controlada por Victor Shimada.
Como o PCC teria lavado dinheiro, segundo as acusações dos EUA?
O Tesouro dos EUA alega que Victor Shimada e sua rede lavaram mais de US$ 30 milhões em recursos ilícitos, movimentando valores do PCC com o uso de criptomoedas para repassar fundos ao Brasil. Também há menção a um esquema de fraude publicitária envolvendo o Sport Club Corinthians Paulista.
Qual a relevância da Victory Trading no esquema de lavagem e qual sua conexão com o Corinthians?
A Victory Trading é a maior empresa brasileira sancionada, com R$ 30 milhões de capital. Ela teria sido usada em um esquema de fraude publicitária para desviar dinheiro de um contrato de patrocínio entre o Sport Club Corinthians Paulista e uma empresa de apostas online, redirecionando recursos para uma empresa controlada pelo PCC.
Por que a classificação do PCC como organização terrorista pelos EUA gerou críticas do governo brasileiro?
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a decisão do secretário de Estado Marco Rubio de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras, argumentando que a medida ameaça a soberania do Brasil e não contribui para o combate ao tráfico.
