Descubra como a fabricante italiana de luxo está usando seu novo modelo elétrico, criticado por seu design, para filtrar e recompensar seus compradores mais fiéis.

A Ferrari, ícone global de luxo e performance, está implementando uma estratégia audaciosa com seu novo veículo elétrico, o Luce. O modelo, que gerou críticas mistas por seu design, está sendo posicionado como um verdadeiro teste de lealdade para os clientes mais abastados da marca, influenciando diretamente o acesso a seus supercarros mais exclusivos e cobiçados.

Colecionadores e investidores têm recebido a mensagem clara de que a aquisição do Luce, avaliado em cerca de €550.000 (US$ 636.000), pode ser um passo intermediário crucial. Este movimento é visto como uma forma de manter ou até mesmo melhorar a posição de um cliente na hierarquia da Ferrari, garantindo prioridade em futuras edições limitadas e modelos de alta demanda.

A tática não é totalmente nova para a montadora de Maranello, que historicamente prioriza compradores recorrentes em suas edições mais raras, como a LaFerrari Aperta. A novidade é a aplicação desta lógica a um modelo que, até o momento, não foi unanimidade entre os entusiastas, conforme informação divulgada por InvestNews – Negócios.

A Estratégia por Trás da Lealdade

O sistema de alocação da Ferrari funciona de maneira similar a um restaurante estrelado, onde a frequência de compras e o relacionamento com a marca determinam o nível de acesso. Segundo Max Girardo, fundador da Girardo & Co., quanto mais um cliente compra, mais ele é tratado como uma prioridade, refletindo uma dinâmica comum no mercado de luxo.

A Ferrari confirmou, por e-mail, que prioriza clientes com “relacionamentos fortes e de longo prazo” para modelos altamente desejados. Contudo, a empresa ressalta que a ênfase é na conexão pessoal do cliente com o modelo, não apenas na melhoria de seu ranking. A fabricante afirma que não incentiva a compra de um modelo apenas para agradar à Ferrari, mas sim que o cliente considere se o carro realmente lhe agrada.

Essa abordagem já é compartilhada por outras marcas de luxo, como a Hermès, que mantém longas listas de espera para suas bolsas mais icônicas e favorece clientes fiéis. O Luce, mesmo sem o prestígio imediato de edições limitadas, pode funcionar como uma porta de entrada estratégica para futuras aquisições mais exclusivas.

Recepção Turbulenta e o Papel de Jony Ive

A sugestão de comprar o Ferrari Luce surge após uma recepção turbulenta no mês passado. Quando o design do carro de quatro portas foi apresentado, muitos o criticaram por suas linhas suaves e bordas arredondadas, que se afastam do estilo tradicional da marca italiana. Comentários chegaram a compará-lo a modelos de massa da Honda e da Tesla.

Para o desenvolvimento de seu primeiro modelo totalmente elétrico, a Ferrari buscou inovação, escolhendo o estúdio LoveFrom, do ex-diretor de design da Apple, Jony Ive, para criar o visual. Apesar do pedigree de Ive, o design não conquistou de imediato a base de fãs e analistas. As ações da Ferrari, inclusive, registraram queda após a apresentação do Luce, refletindo a reação inicial do mercado.

Apesar das críticas, o CEO Benedetto Vigna afirmou que o Ferrari Luce já acumula pedidos de clientes novos e existentes. Esse cenário indica que a estratégia de lealdade pode estar funcionando, com compradores dispostos a investir no modelo elétrico para garantir seu status e acesso futuro a outros veículos da marca.

Riscos e Recompensas de uma Tradição Luxuosa

A estratégia da Ferrari de usar o Luce como um “teste” não está isenta de riscos. Ela testa a disposição de compradores fiéis em apoiar um carro que se afasta do tradicional motor a combustão e que foi alvo de críticas. Paul Welch, fundador da MillionPlus, plataforma online de ativos de luxo, observa que muitos, apesar de ‘odiarem’ o design, consideram a compra para subir na lista de espera de futuros modelos.

Historicamente, a Ferrari já enfrentou modelos que não atingiram as expectativas iniciais. O Mondial, produzido entre 1980 e 1993, é frequentemente citado como um exemplo de carro menos bem-sucedido em seu tempo. Contudo, mesmo esses modelos acabam ganhando status entre colecionadores ao longo do tempo, indicando um potencial de valorização a longo prazo para o Luce.

A escassez é um dos principais argumentos de venda da Ferrari, que produz menos de 14.000 carros por ano. Manter essa exclusividade é crucial, e a tática do Luce pode ser uma forma de gerenciar a demanda e a lealdade dos clientes em um momento de transição para a eletrificação.

O Mercado de Luxo e a Exclusividade Ferrari

No universo dos indivíduos ultra-ricos, carros de luxo representam a principal categoria de gastos, especialmente no Oriente Médio, segundo pesquisa do HSBC Holdings Plc. A Ferrari se destaca nesse segmento por sua exclusividade, herança e potencial de valorização, resistindo à desaceleração mais ampla do mercado de luxo nos últimos anos.

Relatórios como o Knight Frank Wealth Report de 2026 indicam que os valores de carros de luxo subiram mais de 30% na última década, superando investimentos em arte e diamantes coloridos no mesmo período. Isso reforça o apelo da Ferrari não apenas como objeto de desejo, mas também como um ativo valioso.

Portanto, mesmo com as críticas ao Ferrari Luce, a marca italiana aposta que a lealdade de seus clientes e o desejo de acesso a modelos futuros manterão o interesse. A aquisição do carro elétrico pode não ser apenas uma compra, mas um investimento estratégico na continuidade de um relacionamento exclusivo com uma das fabricantes de automóveis mais prestigiadas do mundo.