Três porcos que tiveram a medula espinhal completamente seccionada voltaram a andar após receber um gel experimental desenvolvido por pesquisadores russos do Instituto Sklifosovsky de Medicina de Emergência, em Moscou. O tratamento, descrito em estudo publicado na revista PLOS One em 10 de junho, conseguiu reconectar fibras nervosas rompidas e restaurar parte das funções motoras que antes eram consideradas irreversíveis[1][2].
A pesquisa buscava replicar um mecanismo natural observado em animais invertebrados, capazes de unir nervos lesionados sem intervenção externa. Em mamíferos, a grande barreira para a cura de lesões medulares é a formação de cicatrizes no local do corte, que isolam as extremidades nervosas e impedem a passagem dos impulsos cerebrais[2].
Como funciona o gel?
Quando a medula é cortada, as extremidades lesionadas se afastam e uma cicatriz se forma, criando uma barreira que dificulta a regeneração das fibras nervosas. Para contornar esse problema, os pesquisadores desenvolveram um gel capaz de preencher o espaço entre as extremidades da medula e favorecer a reconexão dos tecidos nervosos[1]. O produto combina polietilenoglicol, substância já utilizada na medicina, e quitosana, um polímero de origem biológica. Juntos, os compostos formam um material projetado para unir novamente membranas nervosas danificadas, atuando como uma "ponte" física e química[1][2].
Resultados impressionantes
O experimento envolveu cinco porcas da raça Mangalica Húngara, todas submetidas à seccionamento completo da medula espinhal. Três receberam o gel experimental, enquanto as outras duas foram submetidas ao mesmo procedimento sem o tratamento[1][5]. Após a cirurgia, todos participaram do mesmo programa de reabilitação, com massagens diárias e estimulação elétrica muscular.
Os resultados foram rápidos e significativos: em apenas dois dias, os animais tratados apresentaram sinais de recuperação da sensibilidade. No quinto dia, já haviam recuperado o controle da bexiga. Dois meses após a cirurgia, os três porcos tratados conseguiam ficar em pé sozinhos e caminhar usando os quatro membros, enquanto os animais que não receberam o gel não apresentaram qualquer recuperação dos movimentos[1][4].
A análise histológica dos tecidos confirmou o sucesso da técnica: nos animais tratados, fibras nervosas atravessaram a zona da lesão, enquanto nos não tratados observou-se apenas formação de tecido cicatricial e degeneração nervosa[2]. Segundo os autores, a melhora rápida sugere que a recuperação inicial não ocorreu apenas pela regeneração de novos axônios, mas também pela fusão de fibras nervosas rompidas[1][2].
Até os humanos?
Apesar dos resultados animadores, os pesquisadores destacam que o tratamento ainda está em fase experimental. Antes que a técnica possa ser testada em seres humanos, serão necessários novos estudos para confirmar sua eficácia e segurança em outros modelos animais mais complexos[1][2]. O trabalho reforça, no entanto, a possibilidade de que nervos gravemente danificados possam ser reconectados, uma perspectiva que há muito tempo representa um dos maiores desafios da medicina voltada às lesões da medula espinhal[1].
