As pessoas envelhecem mais rápido na Ásia ou na Europa? A resposta não é única: depende da interação complexa entre genética e geografia. Um estudo internacional, liderado pela Universidade de Stanford e publicado na revista Cell, demonstra que a ancestralidade genética e o local de residência influenciam significativamente o envelhecimento biológico das células, podendo acelerar ou desacelerar esse processo conforme a origem do indivíduo [1][2].

Migrar altera o envelhecimento celular

O mais surpreendente da pesquisa é que a mudança de continente está associada a diferenças no envelhecimento biológico. Participantes de ascendência do leste asiático que viviam fora da Ásia apresentaram envelhecimento celular mais acelerado do que aqueles que permaneciam na região [1][4]. Entre os europeus, ocorreu o contrário: quem vivia fora da Europa parecia biologicamente mais jovem do que seus equivalentes no continente [1][4]. Isso significa que migrar pode acelerar ou desacelerar o envelhecimento celular, dependendo de quem você é e do lugar para onde se muda [2].

Retrato molecular da diversidade humana

O estudo analisou 322 pessoas saudáveis de ascendência europeia, do leste asiático e do sul da Ásia, recrutadas em conferências científicas internacionais [1][3]. A equipe utilizou técnicas de multiômica, que permitem analisar simultaneamente dados genéticos, proteínas, microbioma intestinal e processos metabólicos [1][3]. O resultado foi um retrato molecular inédito da diversidade humana, capaz de distinguir o que está ligado à ancestralidade genética e o que se deve à geografia [1][3].

A marca persistente da genética

Os pesquisadores confirmaram que a ancestralidade genética deixa uma marca biológica profunda e duradoura. Pessoas de origem sul-asiática apresentaram maiores sinais de exposição a patógenos; as de ascendência do leste asiático mostraram padrões distintos no metabolismo das gorduras; e as de origem europeia tinham maior diversidade do microbioma intestinal e níveis mais elevados de metabólitos associados a doenças cardiovasculares [1][3]. Esses padrões permaneceram estáveis mesmo quando os participantes viviam em continentes diferentes dos de seus ancestrais [1][3].

Conexão com o intestino e medicina personalizada

O estudo também descobriu uma conexão inédita entre uma bactéria intestinal específica e um gene associado à telomerase, enzima responsável por manter os telômeros e ligada ao envelhecimento celular, por meio de uma molécula chamada esfingomielina [1]. Além disso, o trabalho reforça a necessidade de uma medicina personalizada, adaptada à enorme diversidade humana, em vez de depender de modelos universais que ignoram diferenças biológicas importantes entre populações [1]. Todos os dados do estudo foram disponibilizados de forma aberta para pesquisadores de todo o mundo [1].

Em suma, não basta saber de onde a pessoa vem para entender como seu corpo envelhece: também importa onde o indivíduo vive atualmente [1]. A biologia humana varia muito entre diferentes populações, e o aconselhamento médico e nutricional deve considerar tanto a ancestralidade genética quanto a geografia para ser realmente preciso [1].