Gigante da tecnologia aposta em baterias de ferro-ar para superar a escassez energética da IA, garantindo 4 dias de autonomia sem parar.

A explosão da inteligência artificial está transformando a demanda por infraestrutura em uma verdadeira corrida por energia. Enquanto o mundo busca alimentar data centers cada vez mais vorazes, as grandes empresas de tecnologia investem pesado em novas soluções para gerar e armazenar eletricidade de forma eficiente e econômica.

Nesse cenário de inovação, uma tecnologia promissora vem ganhando destaque: as baterias de ferro-ar. Essas megabaterias, pouco conhecidas fora do setor, são capazes de liberar quantidades colossais de energia, mantendo a autonomia por até quatro dias contínuos, um salto considerável em comparação às quatro horas dos sistemas de lítio.

O Google, em uma de suas mais recentes e audaciosas cartadas estratégicas, já fechou um contrato para integrar esse tipo de bateria em um de seus data centers, apontando para um futuro onde a energia não será apenas abundante, mas também significativamente mais barata, conforme informação divulgada por InvestNews – Tecnologia.

A Inquietante Demanda por Energia e a Intermitência Renovável

A crescente infraestrutura de inteligência artificial demanda uma quantidade colossal de energia, desafiando as big techs a encontrar soluções de suprimento. Nos Estados Unidos, a complexidade é ainda maior, com sistemas regionais de transmissão que dificultam a circulação de energia pelo país.

Essa fragmentação gera filas de mais de cinco anos para que um data center consiga conexão à rede elétrica em algumas regiões. Diante da insuficiência, a alternativa é a produção própria de energia, um dilema para empresas com metas climáticas que evitam fontes poluentes.

As gigantes da tecnologia, como Meta e Microsoft, têm investido massivamente em projetos de energia renovável, como solar e eólica. Contudo, essas fontes enfrentam um problema crucial, a intermitência, pois sua geração varia conforme as condições climáticas e o horário do dia.

Os data centers, por outro lado, precisam operar 24 horas por dia sem interrupções, um ritmo que as fontes renováveis intermitentes não conseguem acompanhar sozinhas. A solução exige um "Plano B", geralmente sistemas de armazenamento de energia.

O Custo Elevado das Soluções Atuais e a Revolução do Ferro-Ar

Para mitigar a intermitência das energias renováveis, os sistemas de armazenamento de energia, ou BESS (Battery Energy Storage Systems), são essenciais. Essas megabaterias funcionam como reservatórios, armazenando eletricidade e liberando-a quando a demanda aumenta ou a oferta diminui.

Atualmente, esses sistemas são majoritariamente compostos por baterias de lítio, semelhantes às usadas em celulares e carros elétricos, mas em escala gigante. Elas são eficazes para suprir desequilíbrios pontuais, com autonomia de até quatro horas.

No entanto, para garantir o fornecimento de energia por períodos mais longos, a solução de lítio se torna proibitivamente cara. Para um data center de 150 MW operar por dois dias somente com energia armazenada, o custo estimado seria próximo de US$ 900 milhões.

É nesse contexto que a startup americana Form Energy surge com uma alternativa inovadora, as baterias de ferro-ar, construídas com materiais abundantes e baratos: ferro, ar e água. A empresa projeta que, em grande escala, o custo pode ser inferior a US$ 150 milhões para a mesma capacidade.

Como Ferro e Ar Se Unem para Gerar Eletricidade Sustentável

O princípio por trás das baterias de ferro-ar é a oxidação, o processo conhecido como enferrujamento. Um átomo de ferro, com elétrons em excesso, busca se unir ao oxigênio, que tem elétrons em falta. Essa troca gera uma corrente elétrica.

Ao separar o ferro e o oxigênio com um fio, os elétrons do ferro são forçados a viajar por ele para alcançar o oxigênio, gerando eletricidade. Os volts medem essa "vontade" dos elétrons de se mover, e em uma célula ferro-ar, a diferença de potencial é de 1,26 V.

Milhares dessas células podem ser combinadas para criar uma bateria de alta potência. O processo de descarga ocorre até que todo o ferro oxide. Para recarregar, aplica-se eletricidade para "desenferrujar" o ferro, permitindo que o ciclo se repita.

Embora essas baterias sejam grandes demais para dispositivos como celulares ou carros elétricos, seu tamanho não é um problema em grandes infraestruturas. Por isso, os data centers, com seu amplo espaço, se tornam o ambiente ideal para essa tecnologia.

Minnesota: O Palco da Aposta Bilionária do Google

Em um movimento decisivo, o Google anunciou, em fevereiro, uma parceria estratégica com a Form Energy e a concessionária Xcel Energy. O objetivo é instalar um sistema massivo de baterias de ferro-ar em Minnesota, nos Estados Unidos.

Este projeto ambicioso, avaliado em US$ 1 bilhão, prevê uma capacidade de armazenamento de 30 GWh. Ele foi concebido para atender às demandas de energia de um novo campus de data centers da gigante da tecnologia na região, demonstrando a escala da iniciativa.

A capacidade de 30 GWh é tão significativa que equivale ao consumo de uma cidade com 500 mil habitantes, tornando-o o maior projeto de armazenamento em baterias já anunciado globalmente. Essa iniciativa colocou a tecnologia de ferro-ar no radar da indústria.

Apesar do entusiasmo, o setor de data centers é historicamente conservador, com tolerância zero a falhas. Sérgio Ribeiro, da EBM, ressalta que, embora interessante, a tecnologia "ainda precisa amadurecer" para ser amplamente adotada. O Google, com seu poder de investimento, está bancando o teste decisivo.