Um estudo inovador da Universidade de São Paulo revela a complexa adaptação de grilos arborícolas que, por seleção natural e ambiente, abandonaram o canto milenar.
O som característico dos grilos, uma das mais antigas trilhas sonoras da Terra, está em transformação. Pesquisadores brasileiros e franceses, liderados pelo pós-doutorando Lucas Denadai de Campos, do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências da USP, publicaram um estudo que joga luz sobre um fenômeno intrigante: diversas espécies de grilos pararam de cantar.
A pesquisa, publicada na revista científica Journal of Systematics and Evolution, analisou mais de cem espécies da família Oecanthidae, conhecidos como grilos arborícolas. A descoberta principal é que a perda do canto e da audição não foi um evento isolado, mas sim uma adaptação evolutiva que ocorreu múltiplas vezes e de forma independente em diferentes linhagens.
Essa mudança radical no comportamento, que parecia uma desvantagem, mostrou-se uma estratégia de sobrevivência em face de predadores e ambientes específicos, alterando fundamentalmente a forma como esses insetos interagem e se reproduzem, conforme informação divulgada por TECNOLOGIA.
A milenar canção dos grilos e sua função vital
Por milhões de anos, o canto dos grilos tem sido essencial para a sua reprodução. O macho esfrega uma asa contra a outra, utilizando estruturas que amplificam o som, como um alto-falante natural. Esse chamado serve principalmente para atrair a fêmea, que, com seus ouvidos localizados nas pernas dianteiras, logo abaixo do joelho, detecta o som e se dirige ao parceiro.
Essa comunicação sonora é uma herança de pelo menos 200 milhões de anos, anterior ao desaparecimento dos dinossauros. No entanto, o estudo da USP e do Museu Nacional de História Natural de Paris revelou que, dentro da família Oecanthidae, há uma grande diversidade: algumas espécies cantam e ouvem normalmente, outras têm asas reduzidas ou ausentes, e muitas perderam a capacidade de audição.
O mistério do silêncio: por que grilos perdem a voz?
Para entender o surgimento do silêncio, os cientistas geraram uma árvore filogenética baseada em dados genéticos, que funcionou como uma "máquina do tempo" para datar a origem das espécies e as mudanças evolutivas. O resultado surpreendeu: o ancestral dos grilos arborícolas cantava e escutava, mas a capacidade de cantar foi perdida pelo menos onze vezes, de forma independente, ao longo da história evolutiva do grupo.
A audição também sumiu repetidamente, em um fenômeno conhecido como evolução convergente, onde soluções semelhantes aparecem em linhagens distintas. O motivo principal para essa perda de uma função aparentemente útil é o alto custo do canto: além de atrair parceiras, ele também atrai predadores e parasitas. Moscas, por exemplo, usam o canto para depositar suas larvas no macho, transformando a canção em um sinal de perigo.
O ambiente também desempenha um papel crucial. Em locais como galerias de madeira ou fendas de rochas, onde o som não se propaga bem, cantar se torna ineficaz. Espécies que habitam plantas baixas e expostas, como gramíneas, também se beneficiam do silêncio, pois um predador as encontraria com facilidade. Grilos cantores, por outro lado, tendem a viver no alto das árvores, onde o som se espalha melhor.
Cantores surdos e ouvintes silenciosos: a comunicação reinventada
O estudo revelou exceções fascinantes ao padrão esperado de que a perda do canto e da audição andariam juntas. Foram encontrados "cantores surdos", grilos que perderam os ouvidos, mas continuam cantando. E também os "ouvintes silenciosos", que não cantam, mas mantêm a audição intacta, possivelmente para detectar predadores como aves e morcegos, usando-a como uma estratégia de defesa.
Outra hipótese é que, ao perderem o som, esses grilos desenvolveram novas formas de comunicação. A chamada biotremologia, por exemplo, envolve a transmissão de vibrações através da superfície da planta. Em laboratório, grilos do gênero Tafalisca, que não cantam, foram observados "tamborilando" o corpo contra a superfície, sugerindo que a comunicação vibracional pode substituir a sonora.
A flexibilidade da vida: lições da evolução em grilos
O caso dos grilos arborícolas é um "laboratório natural" que demonstra a flexibilidade e a resiliência da comunicação animal. A perda de sentidos, muitas vezes, não é um beco sem saída, mas sim o início de um novo caminho evolutivo. Esse padrão se repete na natureza, como peixes de caverna que perderam os olhos ou cobras que perderam as patas.
Para o pesquisador Lucas Denadai de Campos e sua equipe, o silêncio desses grilos carrega uma profunda mensagem. Ele nos lembra que, para cada espécie que canta, existem outras que encontraram no silêncio uma estratégia para prosperar, mostrando que a conversa na natureza pode continuar, mesmo que por meios diferentes e mais sutis.
Perguntas Frequentes
O que são os grilos arborícolas?
Os grilos arborícolas são um grupo diverso de insetos da família Oecanthidae, com mais de 1.400 espécies espalhadas pelo mundo, que vivem principalmente em árvores e arbustos. O estudo do pesquisador Lucas Denadai de Campos foca nesse grupo para entender a evolução do canto.
Por que alguns grilos pararam de cantar?
Pesquisadores da USP descobriram que grilos pararam de cantar devido a uma combinação de fatores evolutivos. O canto, embora atraia parceiras, também atrai predadores e parasitas. Além disso, em ambientes onde o som não se propaga bem, como galerias de madeira, o canto perde sua utilidade, favorecendo o silêncio por seleção natural.
Grilos que não cantam conseguem se comunicar?
Sim, muitos grilos que não cantam desenvolveram outras formas de comunicação. O estudo sugere a biotremologia, onde os grilos se comunicam por vibrações na superfície das plantas. Além disso, alguns "ouvintes silenciosos" mantêm a audição para detectar predadores, mesmo sem emitir sons.
Grilos têm ouvidos? Onde ficam?
Sim, grilos têm ouvidos, que são pequenas membranas semelhantes a tímpanos, localizadas nas pernas dianteiras, logo abaixo do joelho. É por meio dessas estruturas que eles detectam os sons, incluindo o canto de outros grilos e a aproximação de predadores.
