Em 2025, o Grupo Boticário consolidou sua liderança no setor de beleza no Brasil, com um volume bruto de mercadorias transacionadas (GMV) de R$ 38,1 bilhões, superando a desaceleração geral do mercado e ultrapassando a Natura nas categorias de perfumaria, maquiagem e cuidados com a pele, segundo dados da NielsenIQ[1][2][3].
O crescimento explosivo do grupo — que nos últimos quatro anos cresceu tanto quanto nos 44 anteriores — foi impulsionado por uma estratégia robusta de inovação: 27% de tudo o que foi vendido em 2025 não existia na prateleira ou no aplicativo 12 meses antes[1]. Essa inovação, combinada com uma infraestrutura de dados construída ao longo da última década e potencializada por inteligência artificial (IA), tornou-se o diferencial competitivo do grupo em um cenário macroeconômico desafiador, com inflação, juros altos e consumo familiar em desaceleração[1][5].
Segundo o CEO Fernando Modé, o que diferencia o Grupo Boticário na corrida tecnológica não é a tecnologia em si, mas a infraestrutura de dados que a antecede e serve de base para a estratégia, permitindo entender a jornada do consumidor em cada canal de compra[1]. "Vejo pessoas que querem chegar à IA, mas não construíram o caminho antes", afirmou Modé ao InvestNews[1].
IA aplicada: menos rupturas e mais vendas
A inteligência artificial já é uma ferramenta central na operação do grupo. No abastecimento da rede franqueada, o sistema opera 16 mil modelos de machine learning (quatro por ponto de venda) para calcular a previsão de vendas, reduzindo até 40% a ruptura de estoque e 25% o excesso de inventário[1]. Para decisões de expansão, um modelo com 2,7 mil variáveis identificou mais de 500 locais potenciais, com índice de acerto de 90% — o que levou à abertura de 120 novas unidades em 2025, um recorde da última década[1].
Na comunicação com o consumidor, a IA permite criar 1,3 mil combinações de ativação por CRM, resultando em 14 vezes mais pedidos a partir de campanhas via aplicativo, que concentra 80% da receita de CRM online do grupo[1]. Projetos como Lyra, que automatiza testes de qualidade e reduziu 62% o tempo de análise, e BotiEssence, que faz recomendações de perfume em tempo real em lojas, reforçam a aposta tecnológica[1].
Beauty Box: fidelidade baseada em dados, não apenas em desconto
O programa de fidelidade Beauty Box, lançado em 2024, supera 26 milhões de usuários ativos e tem uma base de cadastrados quase o dobro desse número[1]. Para Modé, o programa gera uma leitura em tempo real do momento do consumidor: "se você está buscando uma jornada de presente para alguém, tem um comportamento diferente de quando quer algo para uso diário"[1].
O desafio, segundo o CEO, é cultural: parte da força de vendas ainda associa os dados do programa apenas a preços mais atraentes, subutilizando a ferramenta. "Deveríamos estar usando essa ferramenta na busca de entendimento da relação com a beleza, do conjunto de necessidades", afirmou Modé[1].
Concorrência: IA como arma comum, mas com abordagens distintas
A disputa pela liderança no mercado de beleza se intensifica, com Boticário, Natura e L'Oréal investindo cada vez mais em IA aplicada à experiência do consumidor[1]. A Natura lançou em 2024 a Busca Inteligente, baseada em IA generativa da AWS, e usa algoritmos para analisar preferências e sugerir produtos personalizados[1]. A L'Oréal, líder global do setor, recorre a parcerias com Nvidia (para renderizações 3D) e IBM (para IA generativa em formulação cosmética), além de usar dados e IA para criar experiências personalizadas entre o digital e o físico[1].
A diferença de abordagem é clara: enquanto a L'Oréal aposta em parcerias com grandes plataformas tecnológicas e a Natura constrói soluções sobre infraestrutura de nuvem de terceiros, o Grupo Boticário ressalta a construção de soluções desenvolvidas integralmente dentro de casa, do transacional à camada de IA[1].
Lojas físicas: o próximo campo de aplicação da IA
Modé identifica o ambiente físico como o próximo grande campo de aplicação da inteligência. O plano é transformar as quase 4 mil unidades da marca O Boticário em pontos mais calibrados às características dos consumidores locais, com ajustes de estoque, treinamento diferenciado de consultoras e disposição de produtos baseados nos dados do Beauty Box[1].
Com essa estratégia, o Grupo Boticário não só superou a desaceleração do setor de beleza, mas também se tornou a maior rede especializada em beleza do mundo em número de pontos de venda, com mais de 4 mil lojas em 16 países além do Brasil[1][5][9].
Em um cenário de consumo familiar que cresceu apenas 1,3% em 2025 (contra 5% no ano anterior), segundo o IBGE, a infraestrutura de dados do grupo, potencializada com IA, funciona como diferencial estratégico em momentos assim[1].
