Relatório do Coaf aponta esquema de evasão fiscal por empresas ligadas a diretor de igreja no DF e lavagem de dinheiro da Arpar Administração.

Um grupo de empresas, com ligações diretas a um diretor de uma unidade da Congregação Cristã no Brasil no Distrito Federal, está sob investigação por suspeita de sonegação de impostos. A rede de CNPJs teria sido criada com o objetivo de distribuir faturamento e, assim, promover uma provável evasão fiscal, manipulando os valores declarados.

As informações foram detalhadas em um Relatório de Inteligência Financeira (RIF), elaborado pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Este documento aponta que uma das empresas do esquema, a Isabela V R O Ltda., com sede em um coworking na Asa Sul, recebeu impressionantes R$ 18 milhões de uma holding já investigada por ser o centro de uma megaestrutura de lavagem de dinheiro: a Arpar Administração, Participação e Empreendimento S.A.

A Arpar é conhecida por ter movimentado milhões por meio de dezenas de empresas de fachada, processando recursos oriundos da infame Farra do INSS, além de valores supostamente vinculados a tráfico de drogas, comércio ilegal de armas, apostas clandestinas e pagamento de propinas, conforme informação divulgada por Metrópoles – Distrito Federal.

A Estrutura de Empresas e as Milionárias Movimentações

A investigação revelou que a Isabela V R O Ltda., formalmente registrada em nome de uma moradora de Valparaíso de Goiás, movimentou expressivos R$ 255,38 milhões entre janeiro de 2023 e agosto de 2025, apesar de possuir um capital social declarado de apenas R$ 100 mil. A empresa, cuja natureza é “outras atividades de ensino não especificadas anteriormente”, integrou um grupo econômico ligado a Paulo Henrique Venancio da Rocha, o diretor da igreja evangélica.

Além dos R$ 18 milhões recebidos da Arpar, a Isabela V R O Ltda. também obteve R$ 1,6 milhão da Dinar, outra empresa sem empregados que aparece na engrenagem financeira. O próprio Paulo Henrique realizou transferências de R$ 492 mil para a Isabela V R O Ltda. e, em contrapartida, recebeu R$ 1,56 milhão dela. Ele também foi beneficiado com R$ 462 mil da JK Global, envolvida nas fraudes do INSS, e repasses de outros CNPJs investigados, como a Recovery Black, descrita como mais uma companhia de fachada.

O Contraste da Proprietária e as Suspeitas de Operações Digitais

Um dos pontos que mais chamaram a atenção dos investigadores foi o perfil da suposta proprietária da Isabela V R O Ltda.. Apesar de estar à frente de um empreendimento que movimentou milhões em pouco mais de dois anos, ela permaneceu inscrita no Cadastro Único do Governo Federal, recebeu R$ 750 do Bolsa Família e manteve seu emprego em empresas privadas com salário mínimo. Durante todo o período analisado, ela recebeu apenas R$ 20.440 da empresa.

O Relatório de Inteligência Financeira informou ao banco da empresa que diferentes CNPJs eram usados para distribuir o faturamento entre as companhias do grupo. Todas as operações funcionavam em um coworking, predominantemente de forma digital, e estavam localizadas “próximo ao endereço” de Paulo Henrique Venancio da Rocha. Procurado pelo Metrópoles, o presidente da instituição religiosa informou que o caso seria encaminhado ao conselho da igreja para providências, mas Paulo não se manifestou até o momento.

As Conexões com Fraudes do INSS e Descontos Irregulares no BRB

As informações levantadas pelo Coaf e detalhadas pela reportagem constam em um inquérito da Polícia Federal que apurou descontos ilegais na Seguridade Social e em documentos com quebra de sigilos solicitados pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS. Essa investigação da PF foi anexada, na íntegra, pelo Ministério Público do DF (MPDFT) à Ação Civil que apura um esquema de descontos associativos irregulares em contas de clientes do Banco de Brasília (BRB).

Segundo o MPDFT, o objetivo é demonstrar que o esquema investigado no Distrito Federal reproduz o mesmo padrão operacional das fraudes do INSS. Entre as semelhanças, estão a utilização de entidades associativas para legitimar descontos indevidos, a ausência de autorizações válidas dos consumidores, a concentração de cobranças em pessoas idosas e hipervulneráveis, além de falhas de fiscalização que permitiram a aparência de legalidade nas operações. Assim como a Isabela V R O Ltda., a associação Cassisp também funcionava em um coworking.

O Elos da Cassisp com Adelino Rodrigues Junior

O Centro de Assistência e Integração dos Servidores Públicos (Cassisp) é uma das principais associações investigadas nas fraudes em contas do BRB. Ela foi criada por Adelino Rodrigues Junior, que foi preso por seu envolvimento nos descontos ilegais em aposentadorias e pensões de beneficiários do INSS. Adelino também era sócio de Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS.

A Cassisp foi fundada em abril de 2024 por Adelino Rodrigues Junior e Samuel Messias dos Santos. Três meses depois, a presidência da associação foi transferida para Regina Pacheco Cataneo, que permanece no cargo desde então. O Ministério Público do DF continua a investigar o papel da associação e seus administradores no esquema.

Perguntas Frequentes

Quem é Paulo Henrique Venancio da Rocha e qual sua relação com a investigação?

Paulo Henrique Venancio da Rocha é diretor de uma unidade da Congregação Cristã no Brasil no Distrito Federal. Ele é apontado como líder de um grupo econômico de empresas que supostamente criava CNPJs para sonegação de impostos e movimentava milhões com conexões a esquemas de lavagem de dinheiro, conforme o Coaf.

O que é a Isabela V R O Ltda. e qual seu papel no esquema?

A Isabela V R O Ltda. é uma das empresas ligadas ao grupo de Paulo Henrique Venancio da Rocha. Registrada com atividade de ensino, ela movimentou R$ 255,38 milhões com capital social de R$ 100 mil e recebeu R$ 18 milhões da Arpar Administração, holding investigada por lavagem de dinheiro, sendo central no esquema de evasão fiscal.

Qual a conexão entre o esquema de sonegação e a Arpar Administração?

A Arpar Administração, Participação e Empreendimento S.A. é uma holding investigada por ser o núcleo de uma megaestrutura de lavagem de dinheiro, processando recursos de diversas atividades ilícitas, incluindo a Farra do INSS. A empresa Isabela V R O Ltda., ligada ao diretor da igreja, recebeu R$ 18 milhões da Arpar, estabelecendo um elo direto com o esquema de lavagem de dinheiro.

O que é a "Farra do INSS" e como ela se relaciona com este caso?

A Farra do INSS refere-se a fraudes em descontos ilegais em aposentadorias e pensões de beneficiários do INSS. O grupo de empresas investigado neste caso tem ligações com a Arpar Administração e a JK Global, ambas envolvidas na Farra do INSS, mostrando uma interconexão entre os esquemas de evasão fiscal, lavagem de dinheiro e as fraudes previdenciárias.

A Congregação Cristã no Brasil está envolvida na investigação?

A investigação aponta para um diretor de uma unidade da Congregação Cristã no Brasil no Distrito Federal, Paulo Henrique Venancio da Rocha. A instituição religiosa informou que o assunto será encaminhado ao seu conselho para que providências sejam tomadas, indicando que a igreja está ciente, mas as ações se concentram no diretor e nas empresas a ele ligadas, e não na instituição em si.