O conflito prolongado devastou o bem-estar psicológico da população ucraniana, com relatos de ansiedade e estresse massivos e desafios que perduram para gerações.

A guerra na Ucrânia tem deixado uma marca profunda e devastadora na saúde mental de milhões de pessoas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 10 milhões de ucranianos estejam atualmente afetados por algum tipo de crise de saúde mental decorrente do conflito que se arrasta desde fevereiro de 2022.

O escritor ucraniano Andrei Kurkov, em seu livro “Ucrânia: diário de uma guerra”, lançado em 2025 e que narra os primeiros dois anos do conflito, capturou a essência dessa dor coletiva. Ele descreve o impacto psicológico generalizado, afirmando: “Mesmo que nosso corpo não tenha sido capturado pelo inimigo, nosso corpo foi”.

A crise de saúde mental no país é um reflexo direto da brutalidade do conflito, que expõe diariamente a população a ataques, perdas e incertezas. Os efeitos não se limitam ao front, alcançando o cotidiano de famílias, jovens e idosos por todo o território.

Saúde mental na Ucrânia: o início do impacto psicológico

Os desafios de saúde mental na Ucrânia não surgiram apenas com a invasão em larga escala de 2022. O doutor Jarno Habicht, que atuou como representante da Organização Mundial da Saúde (OMS) no país por oito anos, revelou que a deterioração começou em 2014, com a invasão da Crimeia. A ofensiva russa de 2022, no entanto, provocou uma explosão de casos, aumentando drasticamente as necessidades de apoio psicológico.

O médico Jarno Habicht destaca que 1 em cada 5 pessoas que vivem em regiões atingidas pela guerra já relatou alguma condição adversa de saúde mental. Ele explica que fatores como a “ameaça constante à vida e à saúde, ataques dia e noite, interrupções no sono, preocupação com entes queridos” e o “impacto econômico mais amplo da guerra” contribuem para essa realidade angustiante.

Ansiedade e estresse dominam a população ucraniana

Dados recentes da OMS, coletados entre fevereiro de 2025 e fevereiro deste ano (2026), apontam que 76% da população ucraniana relatou problemas de saúde mental. Essa alta prevalência demonstra a extensão da crise psicológica no país.

Um estudo do Médicos Sem Fronteiras (MSF), publicado em 2025, corroborou o cenário, identificando a ansiedade como a principal complicação psicológica, afetando 70% dos moradores. O estresse aparece como a segunda maior queixa, com 22% da população ucraniana sofrendo com esse problema.

Consequências amplas e duradouras da guerra

Os impactos psicológicos negativos da guerra não discriminam gênero ou idade. O conflito, que começou em 24 de fevereiro de 2022, resultou em números alarmantes. De acordo com a Organização das Nações Unidas, cerca de 1,4 milhão de militares de ambos os lados perderam a vida, enquanto as vítimas civis chegam a 14 mil mortos e mais de 37 mil feridos.

A violência forçou também o deslocamento de milhões: 9 milhões de pessoas tiveram que fugir de suas casas, com 5,9 milhões buscando refúgio em outros países e 3,7 milhões deslocados internamente, conforme dados da Agência da ONU para Refugiados (Acnur). A OMS alerta que os efeitos negativos para a saúde mental podem durar anos e atingir diversas gerações.

Desafios e respostas para o apoio psicológico

Apesar da incerteza sobre o fim do conflito, Jarno Habicht ressalta que o término dos bombardeios não significará uma cura instantânea para os ucranianos psicologicamente afetados. Por isso, o fortalecimento do sistema de saúde do país é crucial para lidar com o pós-guerra, um processo já em andamento com a colaboração do governo ucraniano, organizações internacionais e aliados.

Desde 2019, a OMS implementou o Programa de Ação para Lacunas em Saúde Mental (mhGAP), treinando mais de 9 mil profissionais de atenção primária. Em 2022, o governo ucraniano lançou o Programa Nacional de Saúde Mental “Como vai você?”, iniciativa da primeira-dama Olena Zelenska em parceria com a OMS e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), oferecendo apoio psicossocial. Contudo, esses esforços enfrentam obstáculos severos, como os constantes ataques da Rússia: a OMS verificou 3.257 ataques contra a assistência à saúde, resultando na morte de 246 pessoas e deixando mais de 1.079 profissionais e pacientes feridos.

Perguntas Frequentes

O que está acontecendo com a saúde mental na Ucrânia?

A saúde mental na Ucrânia está em crise devido à guerra. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 10 milhões de pessoas sejam afetadas, com relatos massivos de ansiedade e estresse causados pelos ataques, perdas e incertezas do conflito prolongado.

Quantas pessoas são afetadas pela guerra na Ucrânia?

Segundo a OMS, 10 milhões de pessoas na Ucrânia estão sendo afetadas por problemas de saúde mental. Além disso, 1 em cada 5 indivíduos em áreas de conflito relatou alguma condição adversa, e 76% da população em geral teve problemas psicológicos entre 2025 e 2026.

Quais são os principais problemas psicológicos relatados na Ucrânia?

Os principais problemas psicológicos incluem ansiedade, que atinge 70% dos moradores, e estresse, que afeta 22% da população ucraniana, de acordo com um estudo do Médicos Sem Fronteiras (MSF) publicado em 2025.

Quais são as iniciativas para apoiar a saúde mental na Ucrânia?

Diversas iniciativas buscam apoiar a saúde mental, como o Programa de Ação para Lacunas em Saúde Mental (mhGAP) da OMS, que já treinou mais de 9 mil profissionais. O governo ucraniano também lançou o Programa Nacional “Como vai você?”, idealizado pela primeira-dama Olena Zelenska, para oferecer apoio psicossocial.