Programa do MS identificou 97 perfis com milhões de visualizações; AGU já notificou o YouTube para remoção de conteúdo enganoso.

Um cenário preocupante emerge nas redes sociais, onde a inteligência artificial (IA) está sendo usada para criar falsos médicos e outros profissionais de saúde. Essas figuras digitais, com aparência e fala convincentes, simulam orientações sobre doenças e tratamentos, muitas vezes promovendo conteúdos sem comprovação científica e oferecendo produtos ou serviços enganosos.

O Ministério da Saúde, por meio do programa Saúde com Ciência, identificou 97 perfis que utilizavam IA para disseminar desinformação, acumulando milhões de visualizações. O levantamento analisou conteúdos publicados entre 1º de janeiro e 10 de julho de 2026, revelando a escala do problema.

Segundo Felipe Proenço, secretário de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, esses perfis representam um “grave risco à saúde pública”, especialmente para a população idosa, considerada o principal público-alvo desses golpistas digitais.

Falsos médicos com IA: Como a tecnologia engana

A tecnologia por trás dos falsos médicos de IA alcançou um nível de sofisticação impressionante. Felipe Matos, especialista em inteligência artificial e CEO da 10K Digital, explica que é possível sintetizar rostos, produzir vídeos realistas, clonar vozes a partir de pequenas amostras de áudio e reproduzir padrões de comunicação com alta fidelidade.

Um personagem de médico falso pode ser construído combinando quatro tecnologias principais: geração de imagens e vídeos, troca de rostos por meio de deepfake, clonagem de voz e sincronização labial. Um modelo de linguagem escreve o roteiro, outra ferramenta produz a voz e um sistema de vídeo cria ou anima o “profissional”. Matos alerta que, em vídeos curtos e contextos controlados, o material pode ser suficientemente convincente, dificultando a identificação da fraude.

Para aumentar a credibilidade, os criadores utilizam elementos associados à autoridade médica, como jalecos, estetoscópios, cenários de consultórios com diplomas, supostas especialidades e números de registro profissional. A estratégia também inclui o uso de termos técnicos, menções a estudos ou instituições, e a criação de falsos relatos de pacientes. Outra tática comum é misturar informações verdadeiras com alegações falsas, tornando a desinformação ainda mais difícil de ser percebida. Comentários positivos, número de seguidores e avaliações também podem ser fabricados ou manipulados.

Sinais de fraude digital: O que observar nos conteúdos de saúde

Antigamente, vídeos produzidos por IA apresentavam falhas visíveis, como mãos deformadas, movimentos labiais estranhos e vozes robotizadas. No entanto, com a evolução dos modelos, depender apenas de pistas visuais não é mais um método seguro para identificar fraudes. Felipe Matos ressalta que essas falhas ainda podem gerar suspeitas, mas não garantem a identificação de uma falsificação.

Ainda assim, alguns detalhes merecem atenção. Mova a boca incompatíveis com as palavras, mudanças abruptas nos dentes, nas mãos ou nos acessórios, reflexos incoerentes e alterações na textura da pele, do cabelo ou do cenário podem indicar manipulação. No áudio, pausas não naturais, ausência de respiração, pronúncias incomuns e mudanças de timbre também servem como alertas importantes.

A recomendação mais segura, de acordo com o especialista, é verificar a identidade de quem aparece no conteúdo. Se alguém se apresenta como médico, o usuário deve consultar o nome e o registro profissional nos canais oficiais do Conselho Federal de Medicina (CFM) e dos Conselhos Regionais de Medicina, além de confirmar se a pessoa realmente trabalha na clínica ou no hospital informado.

Orientações de saúde confiáveis: Como se proteger da desinformação

O Ministério da Saúde alerta que seguir informações falsas pode ter consequências graves, como estimular a automedicação, levar ao uso de terapias sem comprovação científica, atrasar a procura por atendimento médico adequado e até provocar a interrupção de tratamentos recomendados por profissionais de verdade.

Para reduzir o risco de cair em conteúdos enganosos sobre saúde, a pasta orienta a população a buscar informações em fontes oficiais e confiáveis, especialmente quando o assunto envolver doenças, medicamentos e tratamentos. É fundamental confirmar as orientações com profissionais de saúde, em vez de tomar decisões médicas baseadas apenas em vídeos de redes sociais. O Ministério também recomenda desconfiar de promessas de cura, tratamentos milagrosos ou resultados garantidos. Ter cautela com conteúdos alarmistas, que tentam provocar medo ou urgência para convencer o usuário, é igualmente importante. Por fim, evite a automedicação ou mudanças de tratamento motivadas apenas por orientações da internet e nunca interrompa tratamentos indicados por profissionais de saúde por causa de recomendações publicadas em perfis de redes sociais.

Medidas do Ministério da Saúde contra golpistas de IA

Diante da gravidade da situação, o Ministério da Saúde já acionou autoridades. Os casos identificados pelo programa Saúde com Ciência foram encaminhados à Advocacia-Geral da União (AGU), à Polícia Federal e ao Conselho Federal de Medicina (CFM). A partir do levantamento, a AGU notificou o YouTube para que a plataforma adote providências em relação aos conteúdos apontados pelo Ministério.

Entre as medidas solicitadas estão a remoção dos vídeos ou, conforme o caso, a rotulagem e contextualização para informar aos usuários sobre a natureza artificial dos personagens. A notificação também pediu que a plataforma avaliasse outros canais e vídeos indicados no relatório, seguindo suas próprias regras sobre desinformação em saúde e conteúdos sintéticos.

Perguntas Frequentes

Qual o principal risco dos falsos médicos criados por IA?

O principal risco é a disseminação de desinformação em saúde, que pode levar à automedicação, ao uso de tratamentos sem comprovação científica, ao atraso na busca por atendimento médico adequado e à interrupção de terapias corretas, causando um grave risco à saúde pública, especialmente para idosos.

Como posso verificar se um médico nas redes sociais é real?

A forma mais segura é consultar o nome e o registro profissional do suposto médico nos canais oficiais do Conselho Federal de Medicina (CFM) e dos Conselhos Regionais de Medicina. Além disso, verifique se a pessoa realmente trabalha na clínica ou no hospital que ela afirma.

Quais são os sinais mais sutis de um vídeo falso de IA?

Com a evolução da IA, os sinais são mais sutis: observe movimentos labiais incompatíveis com as palavras, mudanças abruptas nos dentes, mãos, acessórios, reflexos incoerentes, ou alterações na textura da pele e cabelo. No áudio, pausas não naturais, ausência de respiração e mudanças no timbre podem ser indicativos.

Que medidas o governo brasileiro está tomando contra os falsos médicos de IA?

O Ministério da Saúde encaminhou os casos identificados à Advocacia-Geral da União (AGU), à Polícia Federal e ao Conselho Federal de Medicina (CFM). A AGU já notificou o YouTube solicitando a remoção ou rotulagem dos vídeos e a avaliação de outros canais com conteúdo similar.

Quais são as orientações do Ministério da Saúde para evitar cair em golpes?

O Ministério da Saúde orienta buscar informações em fontes oficiais e confiáveis, confirmar orientações com profissionais de saúde, desconfiar de promessas milagrosas e conteúdos alarmistas, e evitar automedicação ou interrupção de tratamentos baseados em dicas da internet.