Uma pesquisa inédita desenvolvida pela Embrapa e pela Universidade de Brasília (UnB) utilizou inteligência artificial e imagens de satélite para mapear, com precisão de 94,7%, mais de 13 mil hectares de terras agrícolas abandonadas no Cerrado brasileiro, identificando um potencial estratégico para a recuperação ambiental e o planejamento territorial sustentável do bioma[1][7].

O estudo, conduzido no município de Buritizeiro, no norte de Minas Gerais, entre 2018 e 2022, revelou que 87% das áreas abandonadas correspondem a antigas plantações de eucalipto destinadas à produção de carvão vegetal, afetadas pela queda dos preços do carvão, aumento dos custos logísticos e escassez de mão de obra especializada[1][7]. Esse volume equivale a quase 5% da área agrícola existente no início do período analisado[4].

Para realizar o mapeamento, a equipe combinou imagens do satélite Sentinel-2 (Agência Espacial Europeia) com uma técnica de aprendizado profundo chamada Rede Neural Totalmente Conectada (FCNN), treinada com centenas de exemplos coletados em campo para distinguir áreas produtivas de áreas abandonadas[1]. Segundo Édson Bolfe, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital, embora a análise se baseie em duas datas de aquisição de imagens em quatro anos, o que limita a distinção entre abandono permanente e pousio temporário, a confirmação final ainda depende de validação visual e conhecimento local[1].

“A análise se baseou em apenas duas datas de aquisição de imagens durante um período de quatro anos, o que impede distinguir com precisão entre abandono permanente e práticas temporárias de pousio”[1]. No entanto, os especialistas afirmam que o estudo comprovou que métodos de aprendizado profundo aliados a imagens de satélite podem mapear terras agrícolas abandonadas no Cerrado de forma robusta e precisa, um avanço metodológico importante para a avaliação de transições de uso da terra em savanas tropicais[1].

Edson Sano, geólogo e professor da UnB, destacou que um dos principais desafios foi definir o que realmente caracteriza abandono agrícola, mas que a tecnologia demonstra como a IA pode acelerar o monitoramento ambiental em grandes extensões territoriais, sem substituir a validação por especialistas[1].

Para Ivo Augusto Lopes Magalhães, engenheiro ambiental da Embrapa Cerrados, a robustez dos resultados está ligada à combinação de diferentes ferramentas tecnológicas e informações coletadas em campo. Buritizeiro foi escolhido por estar entre os dez municípios com maiores extensões de áreas agrícolas abandonadas no Cerrado, funcionando como um laboratório estratégico para o desenvolvimento da metodologia[1].

O levantamento pode servir como ferramenta para reduzir a pressão sobre remanescentes de vegetação nativa, direcionando políticas públicas para recuperação dessas áreas e aproveitamento sustentável do território. Sano afirma que localizar essas áreas é fundamental em um bioma que já perdeu cerca de metade de sua cobertura vegetal original[1].

“Conhecer a localização dessas áreas permite conciliar produção agrícola, conservação da biodiversidade e planejamento territorial mais eficiente”[1]. Magalhães acrescenta que as áreas agrícolas abandonadas também podem gerar oportunidades para restauração ecológica, desenvolvimento de projetos sustentáveis e iniciativas ligadas ao mercado de carbono[1].

A próxima etapa da pesquisa será ampliar a aplicação da metodologia para todo o Cerrado, produzindo um panorama regional do abandono agrícola e fornecendo subsídios para políticas públicas voltadas à conservação ambiental e ao desenvolvimento sustentável do bioma[1].